Família: lugar privilegiado para a busca da santidade

Escultura da Sagrada Família na Igreja de Saint Jacob, na Bélgica (reprodução da internet)

Como em todas as vocações cristãs, o Matrimônio é um meio pelo qual o ser humano pode res ponder ao chamado universal de Deus à santidade.

No entanto, a graça recebida quando os esposos se unem sacramentalmente sob a bênção de Deus não opera de forma “mágica”. Ela se manifesta ao longo da vida matrimonial, fazendo da família um lugar privilegiado para a santificação.

Para isso, é preciso antes entender verdadeiramente o que significa santidade. “Quando falamos desse tema, o primeiro passo que devemos dar é purificar o próprio conceito de santificação, que, muitas vezes, é equivocado, porque pensamos que é uma isenção de defeitos ou perfeição no modo de pensar e de agir, que, portanto, se torna um caminho quase impossível, como que não fosse para nós ou não fôssemos capazes, porque nos deparamos com as nossas limitações, fraquezas…”, destacou, ao O SÃO PAULO, Padre Alessandro Enrico de Borbón, mestre em Teologia do Matrimônio e Família, pelo Instituto João Paulo II, em Roma.

LEIA TAMBÉM:
Matrimônio: sinal da união indissolúvel de Cristo com a Igreja

Vida conjugal: caminho ara o céu

Em missa, é aberta na Arquidiocese a Semana Nacional da Família

Encontro

“Um conceito de santidade que devemos resgatar é daquela que nasce a partir de um encontro com Deus e que se torna uma graça. Portanto, santidade é união com Deus, uma vida em comunhão com Ele”, ressaltou o Sacerdote, acrescentando que essa é a finalidade de toda a vida do ser humano, o grande desejo que está no coração de Deus e a grande sede que o ser humano tem.

Na exortação apostólica Gaudete et exultate, o Papa Francisco recorda que santidade não é exclusiva daqueles que foram canonizados ou beatificados pela Igreja. “O Espírito Santo derrama a santidade por toda a parte”, afirma, referindo-se aos que ele chama de “santos da porta ao lado”, que se manifestam “nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir”.

“A comunhão familiar bem vivida é um verdadeiro caminho de santificação na vida ordinária e de crescimento místico, um meio para a união íntima com Deus. Com efeito, as exigências fraternas e comunitárias da vida em família são uma ocasião para abrir cada vez mais o coração, e isso torna possível um encontro sempre mais pleno com o Senhor”, afirmou o Santo Padre, na exortação apostólica pós-sinodal Amoris laetitia.

EXErCíCIo DA CArIDADE

Recordando que São João Paulo II se referia à família como “uma academia da prática da caridade cristã”, Padre Alessandro frisou que a caridade evangélica não pode ser entendida de forma superficial, mas, sim, no mandamento de amar o próximo como Jesus amou. “Todos os dias, nos momentos difíceis, de alegria, mas também e principalmente nos pequenos gestos do cotidiano da vida familiar, temos uma grandiosa oportunidade para praticar a caridade cristã”, afirmou.

“Quantas oportunidades de santificação se apresentam em uma dinâmica de vida familiar, desde que vividas nessa perspectiva da caridade cristã. A família é um lugar privilegiado em que constantemente temos oportunidades para exercitar essa caridade, nas diferenças de caráter e de personalidades, nas diferenças de opinião, na paciência com as limitações alheias, no perdão, no saber recomeçar, no oferecer uma nova chance para o outro”, sublinhou Padre Alessandro.

O Sacerdote reforçou que no sacramento do Matrimônio as pessoas se comprometem a se ajudar mutuamente, a crescer na vida espiritual, na santificação pessoal, que passa por suportar os defeitos alheios, exaltar as qualidades do outro, ajudarem-se reciprocamente a superar os limites.

Padre Alessandro acrescentou que a família que acolhe Jesus Cristo no seu dia a dia, que vive a vida de oração com profundidade, cria um ambiente propício para a abertura a Deus e para a escuta da sua vontade.

Sagrada Família

Nesse aspecto, a Sagrada Família de Nazaré é o modelo essencial para as famílias cristãs viverem sua vocação à santidade. Embora os textos bíblicos não apresentem detalhes do período conhecido como “a vida oculta de Jesus”, dos 12 aos 30 anos, dão referências suficientes para compreender que os cerca de três anos de vida pública de Cristo foram antecedidos por décadas de uma vida comum, em família.

“Foram 30 anos no seio de uma família humana, vivenciando o peso do trabalho diário, a assiduidade na oração, a vida cotidiana”, destacou Padre Alessandro.

Escola de Nazaré

Em seu discurso na Basílica da Anunciação, em Nazaré, em 1964, São Paulo VI refletiu sobre “as lições de Nazaré”, referindo-se ao lar da Sagrada Família como a “escola” a respeito da vida de Jesus. “Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e a penetrar o significado tão profundo e tão misterioso dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela do Filho de Deus”, afirmou.

Entre essas lições, o Pontífice destacou o silêncio, o recolhimento, a interioridade e a própria vida familiar. “Nesta escola, compreende-se a necessidade de uma disciplina espiritual para quem quer seguir o ensinamento do Evangelho e ser discípulo de Cristo”, acrescentou.

São Paulo VI ressalta, ainda, a lição do trabalho. “Ó casa do ‘filho do carpinteiro’! É aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei, severa e redentora, do trabalho humano; aqui restabelecer a consciência da nobreza do trabalho; aqui lembrar que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas que sua liberdade e nobreza resultam, mais que o seu valor econômico, dos valores que constituem o seu fim.”

Humildade

No seu livro “A infância de Jesus” (2012), o Papa Emérito Bento XVI, ao tratar desse período da vida de Cristo, ressalta: “O sinal da Nova Aliança é a humildade, o escondimento: o sinal do grão de mostarda. O Filho de Deus vem na humildade”.

“Podemos imaginar como seria, na Sagrada Família, o tom de voz com o qual um tratava o outro, o respeito mútuo, o espírito de serviço, de adiantar-se às necessidades do próximo, viver um para o outro e não para si mesmos… Podemos imaginar, na Sagrada Família, a comunhão constante, concretizada em pequenos gestos, como eles tomavam as decisões diante de Deus, pedindo-lhe luzes, dispostos a realizar sua vontade”, afirmou Padre Alessandro.

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe!

Últimas Notícias

Assine nossa Newsletter