A casa inteira ficou cheia de perfume

Certa vez, encontrei na rua um antigo paroquiano. Ele era um jovem senhor que me reconheceu pelo caminho, ficou contente de me encontrar, e, por isso, aproximou-se de mim e conversamos um pouco. No início, a conversa girou em torno da satisfação que ele demonstrava por me encontrar ali. Depois, ele começou a contar-me um pouco de sua vida e me falou do que estava passando naquele momento.

A esposa tinha ido embora, abandonou a relação, e ele ficara só em casa, com as crianças, três ou quatro, bem pequenas. Além disso, estava desempregado, enfrentando dificuldades para sustentar os filhos e a casa. Contou-me uma passagem triste. Disse que um dia estava no centro da cidade, junto com os pequenos filhos e, passando perto de uma pastelaria, estes pediram-lhe que comprasse pastel. Ele ficou muito triste porque não tinha dinheiro sequer para comprar um pastel. Mesmo que quisesse comprar um salgado e dividi-lo entre as crianças, nem isso podia fazer. Muito desapontado por não poder atender ao pedido dos filhos e satisfazer o desejo deles, voltou-se e disse a eles que, chegando a sua casa, pegaria um pouco de trigo e faria alguns pastéis para comerem. A história mudou de figura quando ele concluiu dizendo-me assim: “Se eu soubesse que meus filhos fariam tanta festa em casa enquanto a gente fazia aqueles pastéis, eu jamais teria gastado um centavo que fosse para comprar-lhes um salgado fora de casa”.

Nunca me esqueci dessas palavras. E lembrei-me delas particularmente ao meditar sobre o Evangelho que conta que Jesus foi à casa de seus amigos, Marta, Maria e Lázaro (que Ele tinha ressuscitado dos mortos). Lá chegando, Maria tomou quase meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. E a casa inteira ficou cheia de perfume (cf. Jo, 12,1-11). Judas Iscariotes, então, disse: “Por que não se vendeu este perfume por trezentas moedas de prata, para as dar aos pobres?” Daí Jesus respondeu: Deixa-a; ela fez isto em vista do dia de minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis”.

Interessante que esse mesmo Judas Iscariotes que dava o preço de trezentas moedas de prata ao perfume, mais tarde venderia Jesus por apenas 30 moedas. Mas, a questão maior está não no valor do perfume, mas no valor do gesto da mulher. Para Judas, parecia apenas um desperdício; para Jesus, pareceu a maior homenagem que aquela mulher podia fazer-lhe. O que tinha no coração fazia a diferença. Qual coração? Primeiro, o de Maria. Jesus tinha trazido de volta à vida o seu irmão amado, Lázaro. Para ela, todos os perfumes do mundo não seriam suficientes para perfumar os pés de Jesus. Nenhum preço seria alto demais. Já para Jesus, seu coração estava cheio de tristeza e apreensão. Seu sofrimento da Paixão começou muito antes que Ele o manifestasse aos discípulos. Ele já sabia de sua sepultura iminente e estava sofrendo por isso. Um gesto de gratidão e de honra da parte de uma pessoa que o amava muito significaria um grande alívio para o seu momento difícil. Para o coração de Judas, ao contrário, o que estava sendo considerado era a utilidade econômica. Ele nem se importava tanto com os pobres, como o Evangelho o revela. Aliás, num determinado momento, nem Jesus tinha para Ele nenhum valor que não fosse a utilidade de suas ideias. Não sabemos com certeza quais os raciocínios que Judas fez antes de entregar Jesus, mas sejam quais forem, nada tinham a ver com o coração e a mentalidade de Jesus. Então a casa se encheu de perfume, mas isso não valia nada para ele. Como a casa de meu antigo paroquiano se encheu de festa e alegria. Meu amigo descobrira que o dinheiro para comprar pastéis para os filhos valia menos do que a convivência e comunhão de fazer alguns pastéis para eles, em casa.

Aquele jovem pai disse que, se soubesse que a festa feita pelos filhos, por causa do gesto do pai, valia tanto, não teria nunca desperdiçado dinheiro para querer satisfazê-los. Se Judas soubesse que o gesto de Maria podia encher a casa inteira de perfume e trazer tanto consolo para Jesus, não se importaria com o valor do perfume derramado. Para cada um de nós deve ser assim também: uma casa cheia de perfume, ou de festa, não depende do dinheiro que gastamos. Então, por que não deixamos esse dinheiro de lado e não nos ocupamos em realizar gestos humanos que o dinheiro não pode comprar, mas que enchem a nossa vida de alegria e de bom odor?

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Maria do Socorro
Maria do Socorro
17 dias atrás

Texto lindo e cheio de amor e generosidade ❤️

Monica
Monica
15 dias atrás

Linda reflexão .Muitas coisas o dinheiro não compra , mas a inversão de valores acaba corroendo almas …