Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Emaús é a chave-mestra para compreendermos todas as conversões

No último artigo, eu havia comentado sobre as leituras pós-Páscoa que mais me chamam a atenção: a de São Tomé, que abordei na ocasião, e a dos discípulos de Emaús, que prometi tratar nesta edição. A passagem em si é curiosa: por que Jesus se deu ao trabalho de aparecer daquela forma? Caminhar tão longamente, fingir que iria mais adiante, sumir de repente? Que mensagem nos quis deixar desse episódio? Já teriam nos bastado as aparições aos discípulos. 

Podemos estabelecer alguns paralelos rápidos: de que, às vezes, tão preocupados com nossos problemas, não so-mos capazes de perceber que Jesus caminha ao nosso lado, ou, ainda, de que devamos fazer como os discípulos e pedir que Cristo caminhe conosco. 

Contudo, de toda a narrativa, o que sempre me chamou mais a atenção é a experiência e a reação dos discípulos: “Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32). 

E por que seus corações arderam? Pela exposição direta à Verdade. E aqui, a percepção dos discípulos não é exclusiva, creio que é justamente isso que Jesus quis deixar demonstrado nessa passagem e que, de alguma forma, se conecta com a criação do mundo. 

Fomos criados para vivermos na presença de Deus. Assim foi com nossos primeiros pais, e assim tudo teria permanecido se não fosse o pecado que nos tornou os “degredados filhos de Eva”. 

Essa “necessidade” de estar perto de Deus foi impressa de forma indelével em nossa natureza, é parte de nós, como nosso corpo e alma. Não é algo que se possa desligar, não é algo que se possa suprimir. 

Ao ter contato com a Verdade, aquilo que está em nossa natureza consegue identificar Deus ali. Foi isso que aconteceu com os discípulos, ao terem esse contato: a “necessidade de Deus” gritou dentro deles e seus corações se aqueceram. 

E é isso que torna esse evento tão grande. Por isso, Jesus se deu ao trabalho de estar ali. Emaús é a chave-mestra para compreendermos todas as conversões. 

Quem tem um contato verdadeiro, mínimo que seja, com as verdades de Deus não consegue mais se afastar. É uma atração irresistível, uma resposta íntima que vem daquilo que está em nossa natureza. 

Quantas histórias com essa chave de interpretação cada um de nós poderia contar? Quantas vezes, como catequista, vi isso acontecer diante dos meus olhos: pessoas sem disposição para a fé, que após se verem expostas à Verdade, se tornaram grandes fiéis. 

Não se trata apenas de uma mudança de mentalidade, mas na forma de agir. Vimos isso também em Emaús: antes pediram a Jesus que ficasse, pois a noite se aproximava. Depois de encontrarem Jesus, não se preocuparam em voltar correndo por 11km, no meio da mesma noite que os afligira. 

Tenho para mim que até mesmo os momentos de emoção dos mais ateus diante das belezas da criação sejam, no fundo, como lágrimas de uma saudade inconsciente do Criador. 

Emaús expõe o motivo central da alegria e da desgraça para o homem moderno. Alegria para aqueles que se deixam atrair, se aproximam de Deus e mudam de vida como tentamos fazer todos os dias; e de desgraça para aqueles que passam uma vida toda em uma batalha inglória para se manter longe de Deus. É por eles que rezamos na oração de desagravo ao Sagrado Coração de Jesus, no trecho que diz: “Daqueles que, errando longe do caminho da salvação, ou se obstinam na sua infidelidade, não vos querendo como pastor e guia, ou, conculcando as promessas do batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da vossa santa Lei”. 

Enquanto isso, o mundo cria ruídos como nunca, para que o homem não consiga ouvir a voz irresistível de seu Pastor. Alimenta o orgulho humano para continuar a “querer ser como Deus”, para que o homem não baixe a guarda, pois, se o fizer, poderá, sob o escudo da prepotência, elevar os olhos para a Verdade e sentir seus corações aquecidos pela atração irresistível que Jesus nos mostrou em Emaús. 

Deixe um comentário