Enquanto escrevo, a final de domingo ainda não começou. Quando estas linhas chegarem ao leitor, Espanha ou Argentina terá erguido a taça em Nova Jersey. Será a primeira final entre ambos: ligados por história, língua e herança cristã, estarão por noventa minutos separados por uma bola. O Brasil, eliminado nas oitavas, verá de fora. Há lucidez na cadeira do eliminado: sem a aflição de torcer, ele enxerga o jogo em vez de sofrê-lo. Foi daí que pensei no que o futebol ensina sobre a vida em comum.
Semanas antes, o Papa dissera sobre a Copa a coisa mais verdadeira – não a poderosos, mas aos excluídos. Em Barcelona, Leão XIV converteu o esporte em parábola: “O futebol nos lembra de algo que não devemos esquecer: a vida não é uma competição para brilhar sozinho, mas um caminho que aprendemos a percorrer juntos. Quem não sabe passar a bola, mesmo que tenha talento, ainda não entendeu o jogo. E quem não sabe viver com os outros e pelos outros, ainda não entendeu a vida.”
Guardei a frase para outubro. No Parlamento espanhol, Leão XIV advertira: toda lei carrega uma ideia de pessoa e edifica um tipo de sociedade. Estarão em jogo não só nomes e partidos, mas modos de compreender o homem, o poder e o bem comum. O país chega dividido em trincheiras que quase não se falam; cada uma precisa que a outra seja desprezível para sentir-se inocente.
O católico não vai à urna para impor um catecismo ao Estado, nem deixa o Evangelho do lado de fora. É no campo temporal que o leigo assume responsabilidade, sem transferi-la ao sacerdote, ao partido ou ao líder. A Igreja forma sua consciência e oferece princípios; não indica candidato. Cabe a ele, com liberdade e prudência, julgar pessoas, propostas, meios e consequências – e responder pela escolha.
Seu primeiro critério é a dignidade inviolável da pessoa, da concepção ao ocaso. Ela exige proteger o nascituro, o pobre, o preso, o doente e o velho abandonado, sem triagem partidária. Votar não é canonizar. Nenhum candidato caberá inteiro na doutrina social da Igreja. É preciso examinar sua relação com a verdade, o respeito às instituições, a honestidade dos meios, a competência e os efeitos das propostas. Entre opções imperfeitas, a prudência busca quem preserve os bens fundamentais, sirva ao bem comum e contenha os males previsíveis.
A armadilha mais fina da polarização é dispensar-nos de julgar os nossos. Toda culpa pertence à tribo adversária; à minha, jamais. A consciência cristã começa quando deixa de pedir à própria facção a absolvição que não merece. Escrevo sem me excluir: também me é mais cômodo cobrar o outro lado do que vigiar o meu, e conheço o alívio covarde de reter a bola em nome da causa.
Daí uma verdade que as facções não suportam: o adversário não é inimigo. Ninguém joga sozinho; o jogo precisa do outro, e a vitória só tem grandeza quando conquistada diante de um adversário à altura. Ele veste outra camisa, prefere outra tática e deseja outro resultado; mas, enquanto respeita a Constituição, a alternância no poder e o veredicto das urnas, participa do mesmo jogo democrático e se submete às mesmas regras. Leão XIV advertiu que “a pluralidade política não deveria degenerar em desqualificação permanente do adversário”. A democracia começa a ruir quando, para vencer, alguém precisa negar ao outro o direito de estar em campo.
No domingo, alguém ergueu a taça; conservará por quatro anos o título e levará para sempre uma nova estrela na camisa. Em outubro, deixaremos uma marca: entregaremos aos eleitos o poder de governar a vida comum. O voto do católico será julgado pela dignidade que ajudou a preservar, pela verdade que não negociou e pelas regras que respeitou, mesmo quando desfavoráveis ao nosso lado. Nenhuma vitória será digna desse nome se, para alcançá-la, tivermos diminuído o homem, absolvido a mentira ou ferido a democracia.




