Pesquisas de opinião pública, no primeiro semestre de 2026, indicaram que os quatro problemas que mais afligem a população brasileira atualmente são a segurança, a saúde, a corrupção e a economia. Assim, nos Cadernos Fé e Cidadania, o jornal O SÃO PAULO está fazendo uma série sobre tais problemas, abordados à luz da Doutrina Social da Igreja. Já foram publicadas edições referentes à saúde, à segurança e, mais recentemente, sobre o combate à corrupção (edição de 12 de agosto, que pode ser vista aqui)
A Transparência Internacional registrou no último ano a pior percepção global de corrupção em mais de uma década. O fenômeno não se confina ao Brasil nem aos países pobres. Em democracias consolidadas, como Estados Unidos, Reino Unido e França, a sociedade percebe cada vez mais o crescimento da corrupção, que nelas não é meramente um problema de agentes desonestos. É sinal da deterioração das bases morais e institucionais da vida pública. Seus denominadores comuns são o enfraquecimento deliberado dos mecanismos de fiscalização, as ameaças ao espaço cívico, a hostilidade contra a imprensa livre e todos os mecanismos sociais de acompanhamento e restrição do poder político.
A corrupção viola os direitos humanos porque impede o Estado de cumprir suas funções sociais, tais como garantir segurança, educação e saúde. Em um país que luta para conter seu déficit público, cada real desviado subtrai recursos que deveriam ser canalizados para o bem de todos. Os mais atingidos são os vulneráveis – para eles a corrupção se torna pobreza concreta que poderia ter sido prevenida. Ela gera também desconfiança na vida pública, ressentimento e raiva.
Deste contexto de ressentimento, emergem líderes populistas que se apresentam como únicos capazes de “limpar” a corrupção. Representam uma tentação compreensível: alguém absolutamente confiável que castigará aproveitadores e garantirá que o dinheiro público chegue aos necessitados. Mas o populismo, por dinâmica própria, apresenta-se como confiável aos seguidores enquanto faz conchavos nos bastidores. Deslegitima tribunais, imprensa e aquelas organizações sociais que a Doutrina Social da Igreja denomina “corpos intermediários” – precisamente aqueles que poderiam limitar os abusos dos poderosos. O padrão é recorrente: persegue corrupção dos adversários com ferocidade, mas pratica benevolência com os aliados. Assim que estes são investigados, o entusiasmo anticorrupção misteriosamente arrefece. Procurar salvação em líderes promesseiros é trocar um mal por outro. A Igreja tem algo essencial a dizer: restaurar a legalidade pode implicar em denúncias e em prisões, mas exige muito mais do que isso para se realizar.
A corrupção é sistêmica. Propostas centradas apenas em condenar corruptos, sem fortalecer instituições, frequentemente fracassam quando os aliados do poder se veem investigados. Além disso, seu combate exige reforma moral e fortalecimento institucional simultâneos. No campo institucional, implica fortalecer tribunais independentes, parlamentos plurais, imprensa livre e idônea. Mas, como lembrava Bento XVI, na Conferência de Aparecida, as reformas estruturais são necessárias, mas precisamos de pessoas moralmente íntegras para realizá-las. Lembrando São João Paulo II, o Pontifício Conselho Justiça e Paz (hoje integrado ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral), em um memorável estudo sobre o combate à corrupção, de 2006, observa que a corrupção brota de lacerações em uma “ecologia humana” entendida como o ambiente moral em que as pessoas se desenvolvem. Se a família não forma, se a justiça avança lentamente, se as escolas não emancipam, se as condições de vida são degradadas, não se pode garantir essa base moral que impeça a prática da corrupção.




