Muito além do território

Já não é nova na Igreja a percepção de que o alcance das paróquias vai muito além do seu território. Inicialmente projetadas para acolher os fiéis ao seu redor, dentro de um certo perímetro, as paróquias, aos poucos, passaram a ter características singulares. Hoje, seus desafios e oportunidades são múltiplos.

Algumas igrejas estão em locais de passagem, como em zonas centrais de grandes cidades, e abrangem predominantemente áreas comerciais. Outras estão solidamente incrustadas na periferia e se tornaram espaço vivo de solidariedade. Outras, ainda, estão isoladas em zonas rurais e têm territórios imensos, com dezenas de comunidades afastadas entre si, e poucos sacerdotes disponíveis.

As paróquias mantêm, no entanto, valor inestimável. O documento publicado pela Congregação para o Clero, em 20 de julho, reforça essa convicção (leia mais nas páginas 12 e 13). Ele cita uma “conversão pastoral” das comunidades paroquiais e seu papel na missão evangelizadora da Igreja.

“A configuração territorial da paróquia é chamada hoje a se confrontar com uma característica do mundo contemporâneo, no qual a crescente mobilidade e a cultura digital dilataram os confins da existência”, diz o documento. Essas mudanças transformaram, “de forma irreversível, a compreensão do espaço, da linguagem e os comportamentos das pessoas, especialmente das gerações mais jovens”.

É crucial, portanto, pensar nas paróquias muito além da dimensão territorial. Naturalmente, a igreja paroquial continua sendo um sinal visível, local de renovado dinamismo, onde a criatividade pode florescer e o povo de Deus pode encontrar os sacramentos de forma perene – de modo especial a Eucaristia, “fonte e ápice de toda a vida cristã”.

Comumente chamada de “casa de Deus”, a igreja paroquial é, de fato, “A Casa” no meio das casas. Uma Igreja “de portas abertas” depende de igrejas paroquiais acessíveis a todos, se possível o dia todo, para que qualquer um possa encontrar um ambiente propício à oração e ao encontro pessoal com Jesus Cristo.

A missão da paróquia, entretanto, precisa de renovação contínua. Como ensina o Papa Francisco, há lugar para todos na Igreja. O documento sobre as paróquias pede uma “conversão das estruturas”, isto é, uma “mudança de mentalidade e renovação interior”, para que todos os membros da paróquia se tornem colaboradores ativos e em comunhão com seu bispo.

A flexibilidade e a gradualidade são princípios que devem orientar a vida paroquial, pois ela acompanha períodos de passagem e de amadurecimento durante toda a vida de uma pessoa, momentos nos quais o indivíduo deve encontrar sustento na comunidade.

Guiados pelo pároco que, por sua vez, é fiel ao bispo e fraterno aos outros membros do clero, a paróquia se torna um “fator-chave” para que o cristão se insira e se situe na Igreja.

A proximidade entre os membros é essencial, mas não é só física. A unidade pastoral pode ser praticada como agrupamentos, moderados pelo pároco, muito além do território. As experiências de encontros on-line nos tempos de pandemia da COVID-19 são um exemplo disso. As colaborações entre paróquias e o evidente desenvolvimento da identidade diocesana também caminham nesse sentido.

Os ministérios paroquiais são inúmeros, exercidos por homens e mulheres. Em espírito de colaboração e corresponsabilidade, poderão chegar a novos contextos sociais e culturais. Permanecem imprescindíveis, para tanto, “o encontro e a relação viva com Cristo e com os irmãos na fé”. Juntos, em Cristo, enfrentarão todo desafio e chegarão aos que mais precisam do Evangelho.

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