Na filosofia clássica, o diferencial que sempre foi considerado essencial para distinguir o ser humano dos animais é a razão. A capacidade de compreender tanto a substância quanto a forma das coisas para, por meio delas, alcançar o conhecimento era o que de mais humano alguém poderia realizar, pois se tratava justamente do exercício da característica que nos faz verdadeiramente singulares. Por esse motivo, a lógica sempre foi considerada a disciplina propedêutica de toda ciência, pois ordena a inteligência e garante a exatidão das conclusões. Ao longo dos séculos, a ênfase dada a essa arte favoreceu o surgimento dos mais brilhantes filósofos, cientistas e artistas, elevando a erudição e contribuindo para o desenvolvimento de toda a sociedade.
Hoje, no entanto, há uma guerra contra a razão. Dentro das universidades, ideologias como o relativismo e o desconstrucionismo, que negam a existência de uma verdade objetiva e, por consequência, a capacidade humana de conhecê-la, são cada vez mais populares e vistas como válidas. Isso, por si só, já seria motivo de muita preocupação e ganha proporções ainda maiores quando chega à vida política. Recentemente, o Ministério da Saúde lançou uma nova versão da “Caderneta Brasileira da Gestante”, grafando ao longo do documento a expressão “pessoas que gestam” em vez de “gestantes”, como, racionalmente, deveria fazê-lo o órgão responsável pela saúde no Brasil. Após diferentes manifestações de repúdio da sociedade civil organizada e de parlamentares, o referido termo já não é mais encontrado na versão on-line da cartilha no portal do Ministério da Saúde e, até onde se saiba, não houve tempo hábil para a distribuição do material impresso com a referida expressão.
Mas o que teria levado o Ministério da Saúde a adotar “pessoas que gestam” em uma caderneta destinada a mulheres gestantes? Em teoria, trata-se de uma tentativa de acolher no escopo do acompanhamento da gravidez os homens transsexuais, ou seja, pessoas biologicamente do sexo feminino que se identificam como homens e que podem engravidar. Entretanto, teoria e experiência demonstram que relativizar a defesa da verdade frequentemente significa prestar um serviço à mentira. Recorrer, portanto, a manobras retóricas para promover inclusão mediante o abandono da razão é justamente o cultivo da mentira, cujas consequências são graves tanto no plano individual quanto no social.
No nível individual, pode-se observar consequências tanto em quem mente quanto naquele que é enganado. Aquele que engana, por exemplo, para além de todos os corolários espirituais, sofre até mesmo consequências em sua psique. Já se sabe hoje que a estrutura neurológica se adapta àquilo que é praticado e, quando a renúncia à verdade é um ato recorrente, a própria mente se enfraquece e perde a capacidade de confiar em seus próprios julgamentos e intuições, pois sua bússola interna foi intencionalmente desregulada. Já na vítima da falsidade, muitas vezes se vê um crescimento em seu ressentimento, amargura e em sua incapacidade de cooperar com outras pessoas.
Os efeitos, porém, não se restringem unicamente ao plano particular. Aleksandr Solzhenitsyn, pensador russo preso e escravizado pelo regime soviético, liga justamente as mentiras individuais às maiores tragédias humanas. Um Estado tirânico e totalitário, por exemplo, não surge do nada; ele é construído sobre bilhões de pequenas mentiras diárias de cidadãos comuns que decidiram se calar ou concordar com algo em que não acreditavam para evitar problemas. Assim, a mentira social começa na mentira individual.
Portanto, que nós tenhamos em nossa consciência que nunca vale relativizar a verdade em função de um valor de menos importância. Como disse o Papa Bento XVI, “a caridade na verdade é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira”. Que nós, como indivíduos e sociedade, esforcemo-nos sempre para promovê-la por meio de uma ciência bem feita, do exercício da humildade e do amor à sabedoria. Somente assim teremos a firmeza necessária para defender a razão mesmo nos momentos de desconforto e dificuldade.




