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Andy Burnham: um ‘católico praticante’ como 1º ministro do Reino Unido em 5 séculos

Andy Burnham: um ‘católico praticante’ como 1º ministro do Reino Unido em 5 séculos - Jornal O São Paulo
University of Liverpool

A importância da nomeação de Andy Burnham, 56, para o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido ul­trapassa em muito o âmbito da política partidária. Pela primeira vez depois de quase cinco séculos, um “católico pra­ticante” chega ao comando do governo britânico, rompendo um ciclo histórico iniciado com a Reforma Inglesa, quando a ruptura com Roma alterou definitiva­mente a identidade religiosa e constitu­cional do Estado soberano.

O fato foi destacado por diversos veículos católicos internacionais. A America Magazine, dos jesuítas norte­-americanos, recordou que não havia um primeiro-ministro católico desde a década de 1550, quando a rainha Maria I tentou reverter a Reforma Protestante que havia começado durante o reinado de seu pai, o rei Henrique VIII, época em que a Inglaterra ainda buscava defi­nir sua identidade religiosa. A publica­ção observa que a ascensão de Burnham encerra simbolicamente um longo pe­ríodo em que um católico dificilmente poderia imaginar ocupar o centro do poder político britânico.

Também a EWTN News, a Zenit, a CathNews e outros meios especializados chamaram a atenção para o significado histórico da posse de Burnham, ressaltan­do que ele é o primeiro chefe de governo a assumir o cargo identificando-se publi­camente como católico desde a Reforma.

Durante séculos, o catolicismo esteve associado à marginalização política na Inglaterra. Após o Ato de Supremacia de 1534, os fiéis católicos ficaram submeti­dos a severas restrições legais, muitas das quais só começaram a ser removidas com a Emancipação Católica de 1829. Mesmo hoje, permanecem curiosas limitações constitucionais. Em determinadas cir­cunstâncias, por exemplo, um primeiro­-ministro católico não pode aconselhar formalmente o monarca em matérias relacionadas às nomeações episcopais da Igreja Anglicana, uma sobrevivência jurídica de antigas tensões confessionais.

Entretanto, talvez o aspecto mais interessante não seja apenas o fato de Burnham professar a fé católica, mas a maneira como ele compreende essa identidade. Em diversas ocasiões ao lon­go da carreira, afirmou que três institui­ções moldaram sua vida: o Everton Foo­tball Club, o Partido Trabalhista e a Igreja Católica. Antigo coroinha em Liverpool, cresceu sob a influência de Dom Derek Worlock, Arcebispo local, conhecido por sua forte atuação em defesa dos pobres durante o governo de Margaret Thatcher.

Esse ambiente marcou profundamente sua visão política, fortemente inspirada na Doutrina Social da Igreja, sobretudo na defesa da dignidade humana, da soli­dariedade e da justiça social.

Naturalmente, não se deve esperar que o novo primeiro-ministro governe segundo um programa explicitamen­te confessional. Ainda assim, seria um erro reduzir o significado desta eleição a uma simples curiosidade histórica. Ela ocorre justamente quando diversos indicadores apontam para um discreto, mas consistente, renascimento do cato­licismo na Inglaterra.

Andy Burnham: um ‘católico praticante’ como 1º ministro do Reino Unido em 5 séculos - Jornal O São Paulo
Getty Images

Nos últimos anos, dioceses inglesas têm registrado aumento expressivo na procura de adultos pela Iniciação à Vida Cristã, especialmente entre jovens pro­fissionais. Cresceu também o número de Batismos e de recepções de ex-angli­canos na Igreja Católica. Paralelamente, comunidades tradicionais, novas comu­nidades e iniciativas de evangelização universitária experimentam vitalidade crescente, enquanto importantes inte­lectuais, jornalistas e figuras públicas passaram a professar ou redescobrir a fé católica. Diversas análises publicadas pela America Magazine, pelo Catholic Herald e por outros observadores do ce­nário religioso britânico apontam que, embora a secularização continue sendo um fenômeno dominante, o catolicismo tem demonstrado uma capacidade sin­gular de atrair jovens adultos em busca de identidade, transcendência e estabili­dade doutrinal.

Esse fenômeno é particularmente significativo porque ocorre justamen­te no país em que nasceu a Comunhão Anglicana. Durante muito tempo, pare­cia inevitável que a Inglaterra se tornasse uma sociedade cada vez mais distante do Cristianismo. Contudo, a realidade parece mais complexa. Enquanto diver­sas denominações históricas enfrentam acentuado declínio, a Igreja Católica apresenta sinais de renovação pastoral e missionária, que despertam a atenção até mesmo de sociólogos da religião.

É cedo para afirmar que a chegada de Andy Burnham marcará uma mu­dança profunda na política britânica. Sua fé certamente não determinará todas as suas decisões, nem eliminará as naturais divergências entre Igreja e Estado. Ainda assim, sua eleição possui um poderoso valor simbólico: demons­tra que uma tradição religiosa antes perseguida e excluída voltou a ocupar legitimamente um dos mais altos pos­tos da vida pública inglesa.

Fontes: Gaudium Press, America Magazine, Zenit News, Cath News e EWTN News

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