Ele nos chamará ‘Amigo!’

Sergio Ricciuto Conte

“Amigo” – a palavra de Jesus de Nazaré, na parábola do Dono da Vinha, que dá uma moeda de prata a todos os empregados, independentemente se chegaram às 7h ou às 17h. “Amigo”, também é com essa palavra que Jesus se dirige a Judas no momento em que ele O trai. Imaginem, chama de “amigo” aquele que o trai, uma traição de morte! Amigo! Temos um amigo! Deus se faz amigo.

O valor da amizade está amplamente testemunhado nos livros sapienciais (Provérbios, Eclesiástico, Eclesiastes). Uma das frases mais impressionantes nesses livros é essa: “O verdadeiro amigo ama em todos os momentos, e se torna irmão em tempos de aflição” (Pr 17,17).

Mas o que é a amizade? Quem são nossos amigos? Como termos certeza de que alguém é nosso amigo? E nós, como sermos verdadeiros amigos? Um amigo é algo que é a mesma coisa na infância, adolescência ou fase adulta? Haveria uma gênese da amizade? Parece que sim.

Estudos mostram que entre irmãos há um olhar e uma amizade para além do olhar para os pais. Se, antes, acreditava-se que havia apenas a influência vertical (adulto-criança) no desenvolvimento humano, hoje sabemos que ter irmãos, mais velhos ou mais novos – e mesmo para aqueles que são filhos únicos, ter um(a) amigo(a) a quem considere como irmão –, inaugura uma relação de tipo horizontal (criança-criança) fundamental, que pode, em muitos casos, ser tão ou mais importante que as relações verticais.

Assim, somos introduzidos neste tipo específico de relação humana desde pequenos. Nas relações com os adultos (relações verticais), esperamos certos benefícios e modos de existir, a confirmação de que “vale a pena ter vindo ao mundo, pois somos desejados”. Nas relações horizontais, com os irmãos e amigos, desdobram-se outras expectativas. Dos irmãos e amigos, não esperamos o sustento, tampouco proteção incondicional. Com os irmãos-amigos, aprendemos a “ser com eles”, ou seja, a enfrentar os obstáculos, a nos localizar na realidade em toda sua estrutura! Com os amigos, somos educados a “olhar para fora”, admirar-nos.

André, filho de João, irmão de Simão Pedro, assim que sentiu que estava realmente diante do Messias, aquele cuja Tradição tanto falava e esperava, correu para casa e contou a novidade ao irmão. Este, por sua vez, acolheu prontamente o testemunho. Eram amigos, trabalhavam juntos, cuidavam um do outro em um ambiente relativamente hostil aos pobres e judeus de segunda ordem (pescadores e trabalhadores braçais).

Simão confiava em André! Uma amizade se faz com convívio, zelo, carinho e cuidado mútuo. Nasce do reconhecimento de uma atração por uma forma de viver e agir no mundo que nos corresponde, da qual podemos ser cúmplices – do latim complicarecom (junto) e plicare (dobrar): dobrar junto, fazer junto.

Foi assim com os discípulos e Jesus. Ele os cativou humanamente. Não era uma autoridade externa, imposta. Era autoridade “de dentro para fora”, ou seja, que correspondia às exigências mais profundas de nosso coração. Fazia coisas e convidava os amigos a agir junto a Ele (não por, nem para). Convidava a ser cúmplices em uma maneira nova de estar no mundo, de se relacionar com o Mistério, com Deus. Em um mundo como o nosso, repleto de “likes”, “seguidores”, “amigos”, o que, de fato, você faz junto é o que determina sua amizade. E você, tem cuidado de sua amizade com Cristo? O que tem feito com Ele?

Dener Luiz da Silva é professor de Psicologia  na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

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