Nos dias 26 e 27 de junho passado, o Papa Leão XIV reuniu-se com os Cardeais do mundo inteiro no Vaticano, no 2º Consistório extraordinário do seu Pontificado. Estavam presentes a grande maioria dos cardeais eleitores e, também, numerosos cardeais que já superaram 80 anos de idade.
Houve expectativa e curiosidade sobre a intenção do Papa ao convocar o Colégio Cardinalício. No entanto, não foi por nenhum motivo extraordinário. Trata-se do estilo “sinodal” do pontificado de Leão XIV. Logo após a sua eleição, ele anunciou aos cardeais que desejava ouvir com regularidade o Colégio Cardinalício, contando com a sua ajuda para ouvir a voz das Igrejas locais de todo o mundo e para fazer o discernimento sobre questões importantes na condução da vida da Igreja. Leão XIV tem seus cardeais colaboradores mais próximos nos Cardeais Prefeitos dos diversos Dicastérios da Cúria Romana, como sempre aconteceu com os seus predecessores. Com eles, pode contar todos os dias, a partir das atribuições específicas de cada um deles.
No entanto, ele deseja contar também com a colaboração mais frequente de todos os membros do Colégio cardinalício para ampliar a sua percepção sobre as realidades que a Igreja e a sociedade vivem em todo o mundo. E foi o que ele pediu na abertura dos trabalhos dessa 2ª reunião com os cardeais: “Peço-lhes que me acompanhem, não apenas nesses dias de trabalho, mas também no serviço cotidiano à comunhão da Igreja universal. Ajudem-me a escutar o que emerge nas Igrejas, a reconhecer os sinais de esperança (…). Necessito de sua liberdade, sua franqueza e sua lealdade. Um conselho sincero é sempre um ato de comunhão”.
Uma primeira parte dos trabalhos, de fato, foi dedicada às diversas realidades do mundo, sobretudo às situações de sofrimento, onde a Igreja é chamada a testemunhar a proximidade de Jesus e a ser testemunha do Evangelho do reino de Deus. Pode-se concluir facilmente que chamaram a atenção as situações de guerra e sofrimento de grande parte da humanidade, assim como as angústias dos pobres, migrantes e todos os “descartados” dos sistemas econômicos, sociais e ideológicos excludentes. O que pode e deve fazer a Igreja para ser “samaritana” em relação a tantas pessoas feridas e, muitas vezes, deixadas sozinhas, caídas à beira do caminho, como o homem que caiu nas mãos dos assaltantes no caso da parábola do bom samaritano?
Outros dois turnos de trabalho foram dedicados à recente encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da dignidade humana na era da inteligência artificial. Além de confirmar a boa acolhida da encíclica em todo o mundo, os cardeais destacaram a pertinência das questões abordadas nela pelo Papa, como os desafios para as relações pessoais e comunitárias, a aceleração exagerada da informação, com superficialidade e, muitas vezes, tendenciosa e sem respeito à verdade; além disso, o risco do obscurecimento da dignidade humana, a concentração demasiada em poucas mãos do poder econômico, político e da informação e manipulação, os desafios para a educação, a perda do sentido da vida, o aumento espantoso dos suicídios…
Naturalmente, a encíclica Magnifica Humanitas não trata apenas do mundo da informática e da inteligência artificial, sendo um documento de Doutrina Social da Igreja sobre a dignidade humana. Portanto, o Consistório também abordou as contribuições da Igreja para este tempo novo da revolução tecnológica. Destacou-se muito a necessidade de retomar a Doutrina Social da Igreja, em todo o seu percurso, mas especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (1965), do Concílio Vaticano II, e na mesma encíclica Magnifica Humanitas. Neste tempo de revolução tecnológica, em que o mundo ficou muito acelerado, a salvaguarda da dignidade humana e a afirmação do bem comum são essenciais. E a Igreja, cumprindo a sua missão, precisa dar a sua contribuição para o mundo neste período da história atual.
Uma tarde de trabalhos também foi dedicada ao documento final do sínodo sobre a sinodalidade da Igreja (2024) e ao itinerário de sua implementação. A Igreja também vive este “tempo acelerado” e é influenciada por ele. Vivendo e praticando a sinodalidade, promovendo a comunhão, a participação de todos e a missão que envolve a todos os seus membros, ela é chamada a salvaguardar mais e melhor a dignidade de todos os seus membros, a viver intensamente a comunhão na fé, esperança e caridade e a orientar suas energias para a missão, conforme o mandato recebido de Jesus. Destacou-se a necessidade de fazer um corajoso percurso de discernimento e conversão, na fidelidade às moções do Espírito Santo, na paciência, mas também no esforço e na perseverança nesse caminhar de todos juntos na Igreja.
Naturalmente, não houve conclusões nem decisões finais, pois o Consistório não tem essa função. Foi um momento sinodal próprio da Igreja, no qual o Papa ouviu, anotou e “guardou no seu coração”, para considerar tudo no exercício de sua missão. E já anunciou que no próximo ano também haverá reuniões do Consistório, ainda sem datas marcadas.




