Convergência sobre a necessidade de trabalhar para a construção da ‘civilização do amor’ foi um dos destaques. Vários grupos concordaram sobre a necessidade de superar a lógica da ‘guerra justa’ e, em vez disso, falar sobre o direito a uma defesa proporcionada. A centralidade de Cristo na vida da Igreja também foi ressaltada

Com a presença de 178 cardeais, começou na sexta-feira, 26, as sessões de trabalho do Consistório Extraordinário convocado por Leão XIV, no Vaticano, após a celebração da missa na Basílica de São Pedro, presidida pelo Papa.
Na Sala Paulo VI, os cardeais se reunirem nas mesas, de acordo com os grupos de trabalho a que pertencem: 8 grupos de cardeais eleitores ordinários (incluindo núncios e cardeais eleitores que concluíram seu serviço como ordinários) e 10 grupos de cardeais eleitores da Cúria Romana e cardeais não eleitores.
Após o canto do Veni Creator, o Cardeal Rueda Aparicio, que moderou esta primeira sessão, deu início aos trabalhos e concedeu a palavra ao Cardeal Giovanni Battista Re, Decano do Colégio Cardinalício, para sua saudação. Em seguida, o Papa Leão XIV tomou a palavra com uma intervenção introdutória.
MEDITAÇÃO BÍBLICA
Ao final de sua intervenção, o Cardeal Rueda Aparicio destacou o pedido de ajuda do Papa dirigido aos cardeais e garantiu o apoio deles, com fé, alegria e disponibilidade. O Purpurado apresentou então brevemente a sessão “Em que mundo somos chamados a anunciar o Evangelho?”.
Em seguida, o Cardeal Grzegorz Ryś conduziu a meditação bíblica para introduzir a reflexão nos grupos de trabalho sobre “os sofrimentos, as tensões e os questionamentos que hoje atravessam os povos e as comunidades eclesiais” e sobre “os sinais de esperança, de fidelidade ao Evangelho e de possível reconciliação a serem levados à escuta comum”.

APONTAMENTOS DOS TRABALHOS EM GRUPO
Após um longo momento de oração silenciosa, os cardeais, divididos em diferentes grupos, tiveram a oportunidade de compartilhar suas reflexões de acordo com as orientações fornecidas. Depois, na assembleia plenária, os secretários de alguns dos grupos – todos os 8 do primeiro conjunto e 4 do segundo – relataram suas reflexões compartilhadas. Todos os grupos destacaram, com profunda consciência, o sofrimento vivido por homens e mulheres neste momento de profundas transformações sociais.
Entre os temas que surgiram em resposta à primeira pergunta, destacam-se as crescentes polarizações dentro das sociedades e comunidades, geradoras de tensões políticas e violência, e alimentadas pelas fraturas sociais, bem como pelo uso de informações falsas e por uma comunicação generalizada que não favorece o diálogo; foi destacado como a polarização dificulta a governabilidade e a convivência, como a violência cresce como meio de resolução de controvérsias, resultando em antagonismos pessoais, agressividade ou, em nível internacional, em guerras e conflitos.
Vários grupos destacaram que muitos lugares do planeta sofrem com a falta de respeito às minorias, religiosas e étnicas, o que coloca em crise a liberdade religiosa e resulta em hostilidade, ou mesmo violência, particularmente contra a Igreja; nesse sentido, alguns grupos também mencionaram o aumento do antissemitismo.
Muitos dos grupos de trabalho abordaram o individualismo exacerbado, a crise da família e, sobretudo, a solidão – tanto entre idosos quanto entre jovens – como causa de males ainda piores, do aumento dos suicídios e do uso de drogas. Nessa perspectiva, falou-se muito sobre os jovens, inclusive no contexto das crises econômicas, financeiras e do mercado de trabalho.
No cerne de muitas das intervenções estava a percepção de um sentimento geral de desconfiança, fatalismo e impotência em relação às instituições, à democracia e ao futuro, também ligados à queda na natalidade, ao aumento dos grupos criminosos, da delinquência juvenil e do narcotráfico. Nesse sentido, vários grupos destacaram o papel do secularismo, da perda de valores transcendentais e espirituais, do sentido da vida, bem como a disseminação de um sentimento de cansaço e a ausência de uma perspectiva de verdade, que marcam a incapacidade de reconhecer a alteridade e de construir laços e relações.
Também discutiu-se a necessidade de lidar de maneira humana e cristã com o fenômeno migratório, que muda a face dos povos, das sociedades e das comunidades, tornando urgente a necessidade de políticas reais de integração, enquanto surgem novas formas de exclusão; e foi mencionada a crise ecológica, assim como a corrupção e o sofrimento da vida nas grandes cidades.

A IGREJA, MÃE E LUGAR ACOLHEDOR
Diante desses cenários, do sofrimento descrito em tantos níveis, todos os grupos apontaram para a necessidade de a Igreja se mostrar mãe, um lugar acolhedor – inclusive por meio da reestruturação das paróquias –, capaz de reconhecer seus próprios erros e transformar o sofrimento em um momento de crescimento, lembrando ao mundo que somos uma família humana.
Nesse contexto, também surgiu uma forte consciência da responsabilidade confiada à Igreja no momento histórico atual. Vários grupos observaram que, enquanto muitas instituições atravessam uma crise de credibilidade, a Igreja se sente chamada a falar com autoridade em favor da dignidade da pessoa, da paz, da reconciliação e do bem comum. E, especialmente nos contextos em que está próxima do sofrimento das pessoas, cresce a consciência de como é possível encontrar ali a credibilidade que falta em outras instituições.
Foi lembrado que a Igreja é especialista em relações autênticas e olha para o mundo com compaixão: vê jovens com uma sede crescente pelo Evangelho, com os quais construir um mundo melhor por meio da proximidade; ela vê como a sinodalidade é um caminho providencial para a Igreja e a humanidade para encontrar as respostas que o mundo busca; como a caridade e a promoção da solidariedade são um testemunho autêntico de homens e mulheres, leigos e leigas generosos; como os migrantes podem ser uma bênção para as comunidades que os acolhem; ela trabalha pela paz e pelo envolvimento de todos nas comunidades de fé. Nesse sentido, também foi mencionado o valor do testemunho da Igreja quando ela é minoria, um pequeno rebanho em muitos povos do mundo.
Vários grupos destacaram a importância da educação, como espaço para reconstruir o bem comum e o crescimento das vocações, e descreveram a devoção popular e a celebração da fé do povo de Deus como sinais de esperança. Discutiu-se como são sinais, nesse sentido, todos os esforços voltados para a rejeição da violência e para o diálogo – como o ecumênico e o inter-religioso –, bem como o papel fundamental da oração no apoio à paz. Na mesma perspectiva, alguns grupos mencionaram a recente viagem do Santo Padre à Espanha e as palavras do Papa Leão, voz leal e livre neste tempo.
Ao término das exposições dos grupos, o Papa Leão XIV fez uma breve intervenção, agradecendo a todos e ressaltando mais uma vez o valor da participação e do diálogo. Citou a meditação do Cardeal Ryś, a imagem do homem vítima, quase morto: “Se não somos cegos, é verdade que há muito sofrimento”. A solidão e o sofrimento, dizia o Papa, são como que o resultado desta sociedade, um desafio ao qual a Igreja responde convidando todos à comunhão, não apenas abrindo as igrejas e celebrando os sacramentos, mas criando oportunidades e experiências de encontro. A sessão foi encerrada com a oração do Angelus.
A GUERRA NÃO DEVE SER NORMALIZADA
Os trabalhos da tarde foram abertos com o pensamento voltado para a “dolorosa situação da Venezuela” e para as muitas vítimas causadas pelo recente terremoto que vitimou, fatalmente, mais de 900 pessoas, número que pode ser maior, pois a busca por desaparecidos continua.
A sessão, que teve como tema “A cultura do poder e a civilização do amor”, foi dedicada à reflexão sobre o capítulo V da encíclica Magnifica humanitas. Os trabalhos começaram com uma oração comunitária e foram moderados pelo Cardeal Pablo Virgilio Siongco David, que, em seguida, passou a palavra ao Cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, para a sua conferência introdutória. O Papa Leão participou do início da sessão e retornou no momento da plenária.
Em seguida começaram os trabalhos com 11 grupos apresentando seus relatos: 8 do primeiro bloco e 3 do segundo. Segundo um comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, todos falaram sobre as criticidades do tempo presente, “da força desumanizadora da cultura do poder, de sua universalidade, da tentação de se conformar à lógica dos poderosos, de normalizar a guerra e a polarização, o que leva a uma redução do limiar de tolerância em relação à violência e a uma perigosa simplificação na busca por soluções”.
Daí o apelo à responsabilidade para construir a paz e a civilização do amor, ao testemunho convincente, sobretudo na Igreja, da necessidade de uma linguagem que olhe para as pessoas, feita de escuta, perdão, reconciliação, justiça restaurativa e de gestos concretos. Uma linguagem capaz de tocar o coração de quem está em conflito e que compreenda as feridas geradas pela guerra, “uma língua que facilite a busca pela unidade na Igreja”.

A RESPONSABILIDADE DE CONSTRUIR A PAZ
Unidade na Igreja para ter credibilidade e o diálogo necessário com as outras fés e religiões, particularmente com o Islã: este foi outro ponto destacado no debate dos grupos.
“Em um tempo em que a globalização da indiferença torna as pessoas intolerantes ao sofrimento alheio”, cada indivíduo deve assumir a responsabilidade pela construção da paz. Nessa perspectiva, todos os grupos evidenciaram a centralidade da fé em Cristo, do Evangelho que transforma o mundo quando não se aceita que seja apenas teoria, e da vocação originária da Igreja, porque existem situações que, para serem enfrentadas, necessitam da intervenção de Deus. Sob essa ótica, alguns grupos destacaram o trabalho da Igreja na Terra Santa e no Leste Europeu.
Também houve espaço no debate para o papel do poder político, “livre da ligação tóxica com o poder econômico”; falou-se sobre família, educação, a dificuldade de sair da lógica das respostas imediatas e sobre uma audaciosa obra de evangelização. Vários grupos mencionaram o papel da diplomacia da Santa Sé e dos Núncios em fazer ouvir a voz da Igreja.
Nesse contexto, surgiu a necessidade de superar a lógica da guerra justa — uma vez que o Evangelho não se impõe pela força — e de falar, em vez disso, sobre o direito a uma defesa proporcionada. Foi expressa uma profunda gratidão ao Papa Leão XIV pela Encíclica, por sua condenação dos conflitos e por seus apelos à paz. Houve também uma reflexão sobre o munus petrino, garantia da independência da Igreja em relação à autoridade política, e sobre a necessidade de gestos que, neste tempo, possam servir como ícones de paz.
UM CHAMADO À RESPONSABILIDADE
Por fim, houve espaço para alguns pronunciamentos individuais sobre os temas da sessão. Alguns cardeais agradeceram pelo espaço de partilha proporcionado pelo Consistório, reiterando também a necessidade de trabalhar em conjunto com os líderes de outras religiões para consolidar a civilização do amor. Alguns relataram a reação de muitos às palavras severas do Papa na Encíclica sobre o atraso da Igreja em condenar a escravidão; palavras que abriram os corações.
A encíclica, destacaram os purpurados, é também um chamado para o Colégio Cardinalício assumir a responsabilidade pela construção da paz, inclusive por meio de símbolos, como foi o Encontro de Oração pela Paz convocado por São João Paulo II em Assis, em 1986. Ao término da sessão, o Papa Leão XIV conduziu a oração de encerramento.
(Com informações de Vatican News)




