Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

O Reino de Deus e o problema do mal

Desde que começou a usar o raciocínio até hoje, o homem questiona-se sobre o problema do mal no mundo: por que existe o mal? Foi Deus que criou o mal? Por que Deus não intervém e acaba de vez com o mal? Como devemos agir diante do mal ao nosso redor? A sabedoria das religiões e da filosofia sempre tentou encontrar respostas convincentes, mas nem sempre conseguiu. O mistério do mal (mysterium iniquitatis) não é de fácil solução.

Talvez foram perguntas semelhantes que alguém fez a Jesus, e nós também faríamos: “Mestre, por que existem pessoas más? O que fazer com elas? Como devemos enfrentar o mal que há no mundo?” E Jesus explicou com a parábola iluminadora do trigo e do joio no campo (cf. Mt 11,24-30.36-43). O semeador lançou apenas semente de trigo no campo. Mas, depois, foi aparecendo também o joio, misturado com o trigo, e os empregados do dono daquele campo foram falar com o patrão: “Não foi semente boa que semeaste no teu campo? Como foi que apareceu também o joio?” E Jesus respondeu: “Foi o inimigo, que veio de noite e semeou o joio”.

Aqui temos uma primeira constatação: o reino de Deus, neste mundo, ainda não está completo. A semente boa foi lançada à luz do dia, enquanto a erva ruim foi semeada durante as trevas da noite. O “inimigo” do reino de Deus, que não se alegra com o bem e a felicidade de Deus e dos homens, passou semeando o joio. O detalhe da parábola é interessante: foi de noite, nas trevas, quando ninguém estava atento e vigilante. O semeador do mal é dissimulado e se aproveita das trevas. Não é por nada que ele é chamado “príncipe das trevas”. O inimigo seria tão poderoso como Deus? Não, ele não é Deus e não é dono de nada, mas entra no campo de Deus para semear a discórdia, a falsidade, o engano e a fascinação enganosa. Mas o campo é de Deus, que não deixa de agir e de intervir no momento certo. 

No reino de Deus é assim: há um tempo de semear, da planta que nasce e cresce, do florescimento, do fruto maduro e da colheita. Durante esse tempo, vai se mostrando o que é trigo e o que é joio. Nós, geralmente, somos tentados a fazer como os empregados da parábola: arrancar logo o joio e deixar apenas o trigo no campo. É o que fazem os cultivadores da terra. Gostaríamos que existissem apenas pessoas boas no mundo; que o mal fosse erradicado logo, usando para isso também a força. E, para isso, nos colocamos do lado “dos bons”, com o direito e o poder de julgar e condenar. As polarizações extremistas têm essa tendência: repartir as pessoas entre boas e más. Naturalmente, consideramos boas as pessoas que pensam como nós e concordam conosco. As demais precisam ser apagadas e, se possível, eliminadas…

No reino de Deus, porém, não é assim que acontece. Na parábola, o dono do campo proíbe aos empregados de arrancarem logo o joio e os orienta a deixarem crescer juntos o joio e o trigo, até à colheita. Então, sim, joio para o fogo e trigo para o celeiro. Acontece que, no campo de Deus, trigo e joio não são plantas, mas somos nós mesmos. Em nós também não existe apenas trigo, mas também o joio; se não estivermos atentos, o inimigo pode vir “de noite” e semear em nós todo tipo de maldade. Deus não faz imediatamente o julgamento de quem praticou alguma maldade, mas dá tempo para que o joio se torne trigo. Quanta coisa pode mudar em nós ao longo da vida! O joio pode virar trigo, mas o trigo pode virar joio também. Ai de nós todos se Deus interviesse logo para arrancar o joio que pode existir em nós e no mundo! Deus tem paciência, está sempre pronto a acolher e perdoar o pecador que se arrepende e se converte.

A parábola do joio e do trigo no mesmo campo nos ensina muitas coisas: o mal não foi querido por Deus, mas entrou no mundo e foi semeado pelo inimigo de Deus e dos homens. Devemos estar atentos e vigilantes, para não sermos envolvidos pelo mal. Neste mundo, e em nós mesmos, o bem e o mal existem juntos e não cabe a nós fazer o julgamento das pessoas, mas somente Deus é juiz e julgará no tempo certo. Deus é paciente e de muita misericórdia e espera que os maus se convertam e voltem à prática do bem e da virtude. Deus nos convida à perseverança. O trigo não deve desanimar, mesmo crescendo em meio ao joio; essa coexistência serve para provar a fidelidade e a virtude do trigo e para ser estímulo para que o joio se torne trigo.

Deixe um comentário