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Quando Deus chama

À luz da fé cristã, a vida humana é um chamado de Deus a cada pessoa: à existência, à experiência da fé e do amor misericordioso de Deus e à missão, para colaborar na obra de Deus. Essa síntese aparece de maneira bonita nas leituras da missa do 10º Domingo do Tempo Comum, que celebramos no dia 7 de junho passado.

Deus chama seu povo a conhecer sua proximidade e seu amor mediante muitos sinais e prodígios e a acolher seu desígnio salvador (cf. Os 6,3-6). Deus chamava um povo que lhe fosse devotado e fiel, por meio do qual pudesse revelar mais e mais a sua salvação e estendê-la também a todos os povos. Mas custou muito ao povo eleito compreender isso e se voltar a Deus de todo o coração, ser constante e perseverante! As tentações da idolatria eram muitas e grandes.

Deus chamou Abraão, manifestando-se a ele de modo surpreen-dente e fazendo-lhe grandes promessas, humanamente inalcançáveis (cf. Rm 4,18-25). Pediu a Abraão grandes mudanças de vida e sacrifícios, e uma grande fé e fidelidade, pois queria fazer de Abraão seu colaborador e testemunha, para manifestar as riquezas de sua providência e de seu amor fiel para todos os que acolhem o seu chamado e obedecem, com fé e perseverança, à sua vontade. Abraão creu e confiou, mesmo contra toda esperança humana. E foi recompensado, tornando-se pai de multidões que o seguem no caminho da fé e recebem o fruto das promessas de Deus feitas “a Abraão e à sua descendência para sempre”, como canta Maria no Magnificat.

Jesus passa pela praça em Cafarnaum, vê e chama Levi, odiado pelos seus concidadãos, tido como “publicano”, ou seja, pecador público, excluído da comunidade dos eleitos, porque era cobrador de impostos para os romanos (cf. Mt 9,9-13). Levi é impactado por esse chamado e deixa a profissão que lhe rendia bem, e por ter sido contemplado pelo Mestre Jesus, já conhecido e famoso no meio do povo como homem de Deus. Levi conheceu a misericórdia de Deus no chamado de Jesus e julgou que valia a pena deixar tudo para trás e começar uma nova jornada em sua vida. O chamado de Deus, acolhido com sincera abertura de coração, transformou a sua vida. Levi-Mateus tornou-se apóstolo e evangelista, testemunha da vida, morte e ressurreição de Jesus. 

Levi quis compartilhar a alegria desse encontro com Jesus e lhe ofereceu um almoço em sua casa, para o qual convidou seus amigos, também pecadores públicos, para conhecerem Jesus e estarem com Ele. Nesta cena, aparece mais um chamado de Deus, que chama a todos à salvação e quer que todos conheçam a sua misericórdia e vivam. Os fariseus observam de longe e ficam escandalizados, porque Jesus senta-se à mesa com publicanos e pecadores. Eles não aceitam a companhia nem se sentam à mesa com pessoas de má fama. Jesus lhes diz o que eles não esperavam: “Os que têm saúde não precisam de médico”; “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. Jesus, Filho de Deus e Salvador, veio com a missão de buscar e chamar o que estava perdido, de ir ao encontro dos pecadores para que, na sua pessoa, eles encontrem a misericórdia de Deus, sejam salvos e vivam.

Os fariseus ficaram distantes e fechados na sua autossuficiência legalista. Mas Jesus acolheu a todos os pecadores e pessoas sinceras, que se aproximaram Dele com fé e reconheceram que Nele operava o poder e a misericórdia de Deus. Até na cruz, quando acolheu a súplica do ladrão arrependido e lhe prometeu o paraíso naquele mesmo dia. Na compreensão cristã da existência humana, ninguém existe por acaso, nem para ser descartado. Todos são chamados à salvação e à plenitude da vida, mediante o encontro com o Deus misericordioso, que se revelou à humanidade por meio de Jesus Cristo. 

De todos os chamados, este é o mais universal, pois traduz o desígnio universal da salvação de Deus para a humanidade: que todos se convertam e vivam. E, para o homem, essa é a grande questão de sua existência, o sentido final e a razão de seu existir, a salvação, a vida eterna. Esse chamado é feito a todos e a cada pessoa em particular: sentar-se à mesa com Jesus no banquete da vida eterna na casa do Pai. 

Esse chamado de Deus requer nossa resposta pessoal, cheia de fé, humildade e confiança. Para corresponder ao chamado, cada pessoa é interpelada na sua liberdade pessoal para se aproximar de Deus, reconhecê-Lo e conhecer mais e mais “quanto é bom o Senhor” (Sl 34,8). A resposta não pode ser outra, a não ser orientar nossa vida pela sua vontade e seu desígnio de amor. A adesão a Deus pela fé manifesta-se pela vida na “obediência a Deus”, aos seus mandamentos e à sua vontade. Quem conheceu a Deus torna-se uma testemunha de Deus e de seu Reino, edificando o mundo “conforme Deus” e sendo colaborador na obra de Deus. Para muitos, a resposta ao chamado significará o devotamento e a consagração da vida inteira ao serviço de Deus e dos irmãos, nas vocações de especial consagração no meio do Povo de Deus.

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