A liturgia do tempo pascal é muito rica e propositiva: afirma a fé na ressurreição de Jesus e em sua presença viva na Igreja; confirma e fortalece os fiéis nos mistérios da fé professados no Batismo e exorta à perseverança no caminho da vida cristã e eclesial.
As orações e leituras do 5º Domingo da Páscoa trouxeram temas fundamentais da fé e da vida eclesial. Na Oração da Coleta, pedimos que Deus realize sem cessar em nós o mistério da Páscoa, do qual participamos pelo Batismo; e que, com sua ajuda e proteção, possamos produzir muitos frutos e chegar às alegrias da vida eterna. A vida cristã, iniciada no Batismo, nos coloca em um processo e requer de nós que produzamos os frutos da adesão ao Evangelho mediante a fé.
Já a 2a Leitura, da 1a Carta de São Pedro (2,4-9), começava com a exortação: “Aproximai-vos de Jesus Cristo, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus”. A vida cristã é um constante “estar com Cristo”, nosso Salvador, para receber Dele a força vital, que é o Espírito da santidade. Distantes de Cristo, seríamos como ramos cortados do tronco ou ovelhas desgarradas. Mas a referência à “pedra viva” também diz respeito à Igreja, edificada sobre Cristo e sobre nenhum outro fundamento. Os cristãos, unidos na Igreja, só podem crescer e produzir frutos se estiverem nesse fundamento. Daí, a importância de superar o individualismo religioso e a dicotomia entre Cristo e a Igreja. Em Cristo e na Igreja, os cristãos formam a “raça escolhida, o sacerdócio do Reino e o povo que Deus escolheu”, para anunciar e testemunhar as obras admiráveis de Deus.
Também a 1a Leitura, tratando da crise na primeira comunidade cristã e da escolha dos diáconos, tinha uma tônica eclesiológica (cf. At 6,1-7). Havia reclamações na comunidade por causa das discriminações e preconceitos na distribuição diária dos alimentos. Os Apóstolos tomaram conhecimento da situação e fizeram o discernimento comunitário. Depois, decidiram escolher “sete homens de boa fama, repletos do Espírito Santo e de sabedoria”, para cuidarem dessa questão para, assim, se dedicarem inteiramente à oração e ao anúncio do Evangelho.
Nessa decisão, que hoje chamaríamos de “sinodal”, aparecem as três dimensões fundamentais da vida e missão da Igreja: o anúncio do Evangelho, a oração (celebração da fé) e o serviço e testemunho da caridade. Essas três dimensões tornaram-se as notas da integralidade da vida e missão da Igreja em todos os tempos e não podem faltar em nenhuma comunidade da Igreja. Ela anuncia o Evangelho para despertar, cultivar e amadurecer a fé e produzir o seu fruto de santidade na vida moral, na esperança e na caridade. A Igreja celebra os mistérios da fé, que não são meras verdades intelectuais, mas realidades que envolvem a sua vida e mediante as quais Deus nos concede, desde agora, misericórdia, graça e salvação. E a Igreja vive e testemunha a fé mediante a caridade pessoal e social, praticada de muitas maneiras.
O trecho do Evangelho segundo São João, do contexto da Última Ceia e da despedida de Jesus (cf. Jo 14,1-12), trouxe a exortação do Mestre: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também”. Jesus fala de sua íntima união com o Pai e de sua volta à casa do Pai para preparar um lugar para os discípulos. Tomé, talvez querendo chegar a Deus por conta própria, diz a Jesus que não saberia como fazê-lo, pois não conhece o caminho. E Jesus lhe responde com uma das verdades determinantes para a vida cristã e eclesial: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim” (Jo 14,6). Outro apóstolo, Filipe, ainda sem compreender, pede a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”. Jesus lhe reafirma sua íntima união com Deus Pai: “Quem me vê, viu o Pai. Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Filipe?”
Esse trecho do Evangelho traz ensinamentos centrais para a fé e a vida eclesial, que não estão finalizadas, simplesmente, ao “bem viver” nem à “edificação do Reino de Deus” neste mundo. Tudo isso é importante e faz parte, mas não é o objetivo final da vida cristã e eclesial. A meta é a “casa do Pai”, na eternidade feliz com Deus, na qual Jesus Cristo ressuscitado e glorificado já nos precedeu e espera.
Não se pode perder essa importante dimensão transcendente da fé e da vida eclesial, sem as desvirtuar. E o caminho para chegar a Deus é o próprio Jesus Cristo, “caminho, verdade e vida”. Mediante a fé sobrenatural, reconhecemos Nele a revelação de Deus Pai ao mundo. Ele é o Filho de Deus, unido ao Pai desde toda a eternidade, manifestado humanamente no tempo e na história mediante o Mistério da Encarnação. Ele é o “rosto humano de Deus e rosto divino do homem”. Nele, “a criação decaída é renovada e, em Cristo, nos foi recuperada a integridade da vida” (Prefácio). Isso é “boa nova de salvação” a ser anunciada a todos os povos.




