Tenho encontrado algumas pessoas estudiosas, dedicadas e bem-intencionadas. Mas, às vezes, falta-lhes uma coisa importante. Algumas parecem dispostas a enfrentar qualquer discussão sobre a verdade, mas não querem discutir sobre a unidade, a comunhão e a caridade. Já encontrei algumas que não pensam duas vezes para discordar até do Papa e para dizer que não concordam com ele. Talvez não tenham percebido ainda que “conhecimento não é sinônimo de verdade”. O engano também é um tipo de conhecimento.
Essa discussão me faz lembrar da questão levantada pelos Coríntios a São Paulo Apóstolo: “Nas festas religiosas civis sobravam carnes que no dia seguinte eram vendidas no mercado. Pergunta-se: os cristãos podem comprar e comer essas carnes que foram consagradas aos ídolos? Resposta: liberdade de consciência, mas respeito pela consciência do irmão; os ídolos não existem, mas isso não pode ser pretexto para desconsiderar o fraco (inseguro) na fé” (cf. comentário de rodapé, Novo Testamento, tradução oficial da CNBB, p. 460).
Textualmente, a resposta de Paulo foi: “A respeito das carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento enche de arrogância, mas o amor constrói… Portanto, quanto a comer das carnes sacrificadas aos ídolos, sabemos que no mundo não existe nenhum ídolo e nenhum deus, a não ser um só… o alimento não nos aproximará de Deus; se não o comermos, não teremos nada a menos e, se o comermos, não teremos nada a mais… Tomai cuidado, porém, para que a vossa liberdade não se torne ocasião de queda para os fracos, pois, se alguém te vir a ti, que tens conhecimento, comendo à mesa em um templo de ídolo, não será sua consciência, que é fraca, induzida a comer carne oferecida aos ídolos? E, então, por causa do teu conhecimento, perece o fraco, o irmão, pelo qual Cristo morreu. Pecando assim contra os irmãos e ferindo a consciência deles, que é fraca, é contra Cristo que pecais. Por isso, se um alimento é ocasião de queda para meu irmão, nunca mais comerei carne, para não ser ocasião de queda para meu irmão” (cf. 1Cor 8,1-13).
Falando assim, São Paulo explicava que não se pode olhar somente para cima, é preciso olhar também para o lado. O individualismo não fazia parte de seu repertório. E isso da parte de alguém que antes era fariseu, isto é, judeu pertencente a um grupo que se orgulhava de cumprir todos os preceitos da lei, um por um e que, em geral, desprezava todas as demais pessoas que não faziam a mesma coisa. Basta ver o fariseu da parábola de Jesus que, ao rezar, dizia: “Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de toda a minha renda” (Lc 18,11-12).
Por isso, aqueles que gostam de estudar e se aprofundar na fé podem e devem fazê-lo de pleno direito. Afinal, devemos ter a capacidade de apresentar com inteligência a nossa fé, tal como dizia São Pedro: “Antes, santificai o Senhor Jesus Cristo em vossos corações e estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir” (1Pd 3,15). Entretanto, nunca devem se esquecer de que o mais importante não é o que sabemos e sim o que cremos. E, também, devem recordar sempre que o nosso exemplo nos faz responsáveis pelos nossos irmãos, especialmente os mais fracos de consciência ou conhecimento. Eles não são inimigos a serem vencidos. Na verdade, são irmãos a serem amados e conduzidos generosamente. De mais a mais, o próprio Jesus já tinha alertado sobre a gravidade de escandalizar os irmãos: “É inevitável que surjam escândalos, mas ai daquele que os causar! Seria melhor para ele ser atirado ao mar, com uma grande mó amarrada ao pescoço do que escandalizar um só desses pequenos” (Lc 17,1-2).




