Práticas da ‘Igreja doméstica’ são destacadas na 1a conferência do Encontro Mundial das Famílias

Casal Gregory e Lisa Popcak conduziu a primeira das cinco conferências do congresso teológico pastoral em Roma

Reprodução: Vatican Media

Teve início na manhã da quinta-feira, 23, o congresso teológico pastoral, em Roma, do X Encontro Mundial das Famílias, que acontece até domingo, 26.

Após presidir a missa de abertura do dia, na Basílica de São Pedro, o Cardeal Kevin Joseph Farell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, abriu oficialmente os trabalhos do congresso na Sala Paulo VI, agradecendo a todos que atenderam o apelo do Santo Padre para refletir sobre a família por estes dias não apenas em Roma, mas nas dioceses de todo o mundo.

De acordo com o Cardeal Farell, os três dias do congresso teológico pastoral serão “um momento de autêntica comunhão eclesial com todas as famílias do mundo que participarão, que nos escutam e que esperam da Igreja não somente palavras de apoio, mas também os sinais de uma consciência eclesial em relação a tantas necessidades que se deve ter cuidado”.

O Prefeito do Dicastério lembrou que os temas a ser tratados no Congresso são os que se mostraram urgentes em muitas dioceses em relação à pastoral familiar e matrimonial, porém, ponderou que mais do que se fazer uma lista de todas as situações, o que se busca é “estabelecer, juntos, uma atitude adequada de acompanhamento pastoral que, como nos mostra o Santo Padre na Amoris laetitia, deve saber partir sempre de que a família é um lugar de acolhida e de amor, se consegue gerar e fazer crescer a vocação de cada um dos seus membros; se consegue colocar Cristo no centro de suas relações para transformar as circunstâncias da vida cotidiana em um caminho de santidade para os esposos, para cada filho e para os avós”, comentou.

O Cardeal Farell lembrou, ainda, que a família fundada no sacramento do Matrimônio “é um poderoso multiplicador da graça presente neste mesmo sacramento, que não se limita aos cônjuges, mas que se expande ao seu redor”. Ele desejou, ainda, que a partir de tudo que será ouvido no congresso nos próximos dias, os participantes se questionem de que forma e como podem atuar melhor e juntos para que as famílias sejam conscientes de seu papel na Igreja, bem como pensem em quais são as periferias existenciais que mais as afetam hoje e como se pode ajudá-las, para que cheguem a um verdadeiro discernimento diante das dificuldades.

IGREJA DOMÉSTICA E SINODALIDADE

Este foi o tema tratado na primeira conferência, a partir dos apontamentos do casal Gregory e Lisa Popcak, dos Estados Unidos, que enfatizou o modelo de espiritualidade familiar chamado de “Liturgia da Vida da Igreja Doméstica”.

Gregory e Lisa são criadores do Instituto Peyton Family (https://peytonfamilyinstitute.org), se dedicam a pesquisas sobre a espiritualidade e o bem-estar da família católica, tendo escrito mais de 20 livros. Fazem parte do conselho diretivo da Pastoral Familiar da conferência episcopal norte-americana e criaram a plataforma CatholicHom.com, pioneira na formação on-line acerca da liturgia doméstica da Igreja.

O casal comentou que por mais difícil que possa parecer, a santidade é algo tangível a todas as famílias, embora nem sempre estas encontrem os instrumentais e caminhos para fazê-lo. “Muitos católicos acreditam que a vida familiar é, de alguma forma, antitética para se levar uma vida santa. Nos últimos anos, porém, o Espírito Santo parece estar trabalhando arduamente para desafiar essa narrativa profundamente enganosa”, enfatizaram, destacando, ainda, que a Igreja doméstica é parte ativa na vida e missão eclesial.

VIVER A IGREJA NAS CASAS

Gregory e Lisa recordaram que em 2019 o Instituto Peyton Family organizou um simpósio para pensar o verdadeiro significado de viver a Igreja dentro de cada família, tema que foi refletido por especialistas de diferentes áreas do saber, como teólogos e psicólogos.

Das reflexões emergiram quatro questões cruciais relativas à renovação da vida das famílias católicas: elas devem ter um relacionamento interno que as diferenciem de outras famílias não cristãs; há dificuldades concretas no dia a dia para a viver uma espiritualidade católica tradicionalmente difundida a partir da vida monástica; deve se pensar por que crianças criadas em lares católicos não seguem uma vida cristã posteriormente; e também é preciso haver um questionamento sobre como as famílias católicas podem participar de modo mais eficaz na vida e na missão da Igreja.

A partir destas indagações, os participantes do referido evento de 2019 chegaram a uma definição prática sobre o que é a Igreja doméstica: uma família de pessoas unidas que compartilham o sacramento da vida; e que tem uma vida de prática cristã e de amor trinitário nas suas relações uns com os outros e com o mundo.

Casal Gregory e Lisa na primeira conferência do X Encontro Mundial das Famílias, em Roma

A LITURGIA DA IGREJA DOMÉSTICA

O casal palestrante também apresentou as bases daquilo que hoje tem sido chamado de “Liturgia da Vida da Igreja Doméstica”, um instrumento que comunica a graça eucarística no dia a dia da família, composto por simples hábitos que permitem a cada familiar participar do amor que flui do coração da Santíssima Trindade e que é capaz de curar os danos que o pecado provoca nas famílias.

De modo sintético, três são os ritos da liturgia doméstica: a adoração cristã (com simples práticas que levem as famílias a consagrar sua vida a Deus diariamente); os gestuais familiares (palavras e ações, como trabalhar, brincar, conversar e orar, que cultivam atitudes cristãs); e a proximidade, seja entre as pessoas da própria família, seja destas com a de outras famílias.

“Essas práticas podem ajudar as famílias a discernir sobre a missão e o carisma únicos que Deus deu à sua Igreja doméstica”, ressaltaram Gregory e Lisa.

PILARES

Ainda de acordo com os conferencistas, estes ritos preparam as famílias para o exercício da missão que receberam no Batismo, a partir de quatro pilares:

– Agendar tempo para a família primeiro (pensar em atividades que aproximem as pessoas da família);

– Demonstrar de modo extraordinário a afeição entre os membros da família, a exemplo do amor extravagante e superabundante de Cristo, sempre de braços abertos para amar seus filhos;

– Demostrar prontamente, generosamente e alegremente, atenção a cada membro da família em suas diferentes circunstâncias de vida

– Ter uma disciplina de discipulado suave, pela qual predomine na família um pastoreio de misericórdia, o que não é compatível, por exemplo, com punições severas às crianças por eventuais desvios de conduta.

TRABALHAR, BRINCAR, CONVERSAR E ORAR

“Os ritos familiares ajudam as famílias a viver a missão profética do Batismo. Quando as famílias criam rituais diários, significativos para trabalhar, brincar, conversar e orar juntos, todos os dias, eles profeticamente se chamam para desenvolver atitudes cristãs em relação ao trabalho, à diversão, ao relacionamentos e à fé. Os rituais familiares são o coração do discipulado”, enfatizaram Gregory e Lisa.

A partir desta perspectiva e vida, todas as tarefas cotidianas passam a ser vistas como oportunidades para fortalecer os laços familiares: os momentos de diversão aproximam os membros da família, assim como o hábito da conversa diária sobre diferentes temas; e a oração em família se torna um permanente convite para que Deus entre nas casas e se relacione com família.

O casal comentou, ainda, que o chamado de Cristo para amar o próximo começa em casa, com as pessoas servindo umas às outras. “O serviço generoso em casa promove a comunhão íntima e o apego saudável. Cada dia, devo pensar: o que posso fazer para tornar o dia do meu próximo melhor, mais fácil e mais agradável?”

Gregory e Lisa destacaram, ainda, que as famílias devem estar juntas nos serviços paroquiais e comunitários, e que isso sempre deve ser estimulado nas paróquias.

“A liturgia da Igreja doméstica não só oferece novos rumos da espiritualidade familiar, mas também dá origem a uma nova abordagem, radical do ministério familiar”, concluíram.

Ainda nesta quinta-feira são realizados quatro painéis com testemunhos de famílias de diferentes partes do mundo, além da conferência “Acompanhamento dos primeiros anos do matrimônio”, ministrada pelo casal Eduardo e Mónica Gonzáles Soriano, que atuam na Pastoral Familiar da Arquidiocese de Toledo, na Espanha.

Todos os eventos em Roma do X Encontro Mundial das Famílias estão sendo transmitidos ao vivo pelo canal do YouTube do Vatican Media em português: https://www.youtube.com/c/VaticanNewsPT.

(Texto escrito a partir das traduções em tempo real de Vatican Media em Português)

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