‘À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus’

No primeiro dia do ano, a Igreja celebra a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Essa celebração conclui a Oitava do Natal se refere ao mais antigo dos dogmas marianos.

Na Idade Antiga, a “Memória da Mãe de Deus” (Mnéme tés Theotókou) era celebrada em Bizâncio, centro do Império romano no Oriente. Antes do século VII, também se comemorava em Roma o papel de Maria como Mãe do Filho de Deus que assumiu a natureza humana, no contexto das festividades natalinas.

O dogma da maternidade divina em Maria tem sua origem relacionada à discussão sobre as duas naturezas de Cristo, especialmente no combate à heresia de Nestório, Patriarca de Constantinopla (380- 451), que acreditava que, embora Jesus possuísse as naturezas humana e divina, essas não constituíam uma única pessoa, mas duas, que se relacionavam entre si por um certo vínculo. Por isso, ele defendia que Maria era a Mãe de Jesus humano, mas não do divino. Essa concepção, portanto, negava o mistério da encarnação do Verbo e, consequentemente, a redenção da humanidade em Cristo.

Em 22 de junho de 431, o Concílio de Éfeso definiu explicitamente que Maria é Mãe de Deus (Theotókos, em grego), ao afirmar a unidade da pessoa de Cristo nas duas naturezas, plenamente Deus e homem. Assim, Maria é Mãe de Jesus Cristo, o Deus encarnado na humanidade, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Nascido de Maria

São João Damasceno (675-749) explicava esse dogma da seguinte forma: “Nós dizemos que Deus nasceu de Maria, não no sentido de que a divindade do Verbo dependia de Maria, mas no sentido de que o Verbo, o qual, antes do tempo, nasceu do Pai, é eterno como o Pai e o Espírito Santo; na plenitude dos tempos, viveu no seu seio, para nossa salvação e, sem mudança, tornou-se carne e nasceu dela. A Virgem não gerou simplesmente um homem, mas um verdadeiro Deus, Deus não sem carne, mas feito carne”.

As raízes bíblicas da maternidade divina estão, por exemplo, em Isaías: “Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel, Deus conosco” (Is 7,14); “O Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus”, diz o anjo a Maria (Lc 1,35). Isabel, cheia do Espírito Santo, saudou Maria dizendo: “De onde me vem a honra que a Mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1,43); “Mas, chegando a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4,4).

Na encíclica Redemptoris Mater (1987), São João Paulo II escreve:

“A mãe do Redentor tem um lugar bem preciso no plano da salvação, porque, ‘ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido duma mulher, nascido sob a Lei, a fim de resgatar os que estavam sujeitos à Lei e para que nós recebêssemos a adoção de filhos. E porque vós sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá! Pai! (Gl 4, 4-6)’”.

Já o Concílio Vaticano II ressalta:

“Desde os tempos mais remotos, a Bem-Aventurada Virgem é honrada com o título de Mãe de Deus, a cujo amparo os fiéis acodem com suas súplicas em todos os seus perigos e necessidades” (Constituição Dogmática Lumen Gentium, 66). ‘

Essa citação faz referência a uma das mais antigas antífonas marianas que enfatizam sua maternidade divina:

À Vossa Proteção recorremos, Santa Mãe de Deus.

Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades,

mas livrai-nos sempre de todos os perigos,

ó Virgem gloriosa e bendita.