No Paquistão, cristãos lutam contra sequestros e conversões forçadas de meninas ao Islã

Diante da prática recorrente ao longo dos anos na sociedade paquistanesa e conivência das autoridades locais no acobertamento de crimes de caráter sexual, Igreja e instituições da sociedade civil cobram legislação adequada e garantia de direitos individuais

UCA News

Os cristãos no Paquistão têm levantado sua voz para lutar contra as conversões forçadas de meninas de minorias religiosas ao Islã, uma tendência que já somou mais de 25 casos no país desde o início do ano até agora.

Simran Masih, uma menina de 15 anos, foi sequestrada enquanto seus pais compareciam a um funeral na cidade de Faisalabad, na província de Punjab.

Iqbal Masih, pai da menor sequestrada, disse que a menina estava cuidando de seu irmão, que “sofre de poliomielite desde o nascimento”, quando, às 16h, ela foi a uma loja próxima para comprar comida.

“Dois trabalhadores da Saúde muçulmanos a colocaram em um riquixá (veículo de duas rodas). A prima dela fugiu depois de ouvir seus gritos”, disse ele.

O pai disse que os responsáveis ​​pelo sequestro, inclusive um ex-vizinho, estavam armados e lamentou que, com a tragédia, sua esposa diabética tenha entrado em depressão. “Queremos nossa filha de volta”, insistiu. A polícia local conseguiu prender “dois parentes dos culpados, que ainda estão foragidos em Warburton”.

PREOCUPAÇÃO

Diante desta situação, os sacerdotes católicos da Comissão Nacional de Justiça e Paz da Conferência Episcopal do país indicaram que as conversões forçadas são o maior desafio que a Igreja Católica no Paquistão enfrenta.

O Centro de Acordos e Ajuda Legal (CLAAS, na sigla em inglês) do Reino Unido, uma instituição de caridade cristã dedicada a ajudar cristãos perseguidos no Paquistão, observou que o caso de Simran Masih é apenas o mais recente em uma onda de casamentos forçados, observando que até agora, somente neste ano, houve mais de 25 investidas semelhantes.

“A maioria dos casos é de meninas cristãs de Punjab. O sequestro, a conversão forçada e o casamento também forçado de adolescentes cristãs e hindus se tornaram um problema diário. Seus pais temem por seu futuro”, disse o diretor do CLAAS, Nasir Saeed.

Em uma declaração, Saeed observou que é frustrante que “o governo e as agências de segurança pública, aqueles que estão no poder, estejam cientes da situação, mas fechem os olhos”.

“O sistema judicial de influência islâmica também se tornou uma rede de segurança para pedófilos e estupradores que aproveitam as boas ações inerentes à fé islâmica para justificar suas mentes criminosas”, enfatizou.

INICIATIVAS DE MUDANÇAS

A Comissão Parlamentar de Proteção às Minorias contra as Conversões Forçadas apresentou um projeto de lei em fevereiro deste ano pedindo que a mudança de religião de pessoas maduras só fosse aceita após comparecimento ao juiz.

O projeto de lei também solicitava que o formulário de inscrição incluísse dados pessoais da pessoa que solicita a mudança de religião, como nome, idade, sexo, número do documento de identidade, detalhes dos pais, irmãos, filhos e cônjuge, religião atual e o motivo do conversão.

Além disso, o comitê sugeriu conduzir uma entrevista adicional nos primeiros sete dias após o recebimento do pedido de conversão e pediu para dar ao juiz o poder de conceder à pessoa 90 dias para comparar as religiões e retornar ao gabinete do juiz.

No entanto, em julho, o Ministério de Assuntos Religiosos se opôs a essa restrição à conversão de menores de 18 anos.

POSIÇÃO DO GOVERNO

“Existem vários exemplos no Islã de conversão religiosa antes dos 18 anos. Se alguém desejava mudar de religião antes de completar aquela idade, era sua escolha. O casamento antes dos 18 é outra discussão”, disse Noorul Haq Qadri, ministro de Assuntos Religiosos.

Acrescentou que o assunto relacionado com a fixação do limite mínimo de idade para o casamento foi encaminhado ao Conselho de Ideologia Islâmica, que está constitucionalmente autorizado a aconselhar os parlamentares sobre a compatibilidade das leis com a Sharia Islâmica.

Ativistas cristãos no Paquistão focaram a conversão forçada em 11 de agosto, Dia Nacional das Minorias. O Centro para Justiça Social, de Lahore, exibiu um documentário chamado Humsaya (Vizinho) sobre a questão da conversão forçada. O curta retratava histórias factuais de meninas menores que foram raptadas e forçadas a mudar de religião. Enfatizou que os crimes ligados às conversões forçadas podem ser controlados se as pessoas em geral, o grupo religioso majoritário e os vizinhos puderem ter empatia com as vítimas.

Ejaz Alam Augustine, ministro de Direitos Humanos e Assuntos das Minorias de Punjab, disse na reunião que seu ministério preparou um esboço sobre a questão das conversões forçadas.

“As coisas ficam difíceis quando cada caso é tratado como uma conversão forçada. Não queremos ser barreiras entre a fé. Este é um assunto muito sensível para essas pessoas. Não podemos mudar a mentalidade. Queremos apenas impedir aqueles que convertem mulheres de minorias para o casamento. Além de legislar, precisamos de reforma judicial, mudanças na lei Sharia e consciência social sobre esta questão crítica”, disse ele.

PAPEL DA IGREJA

“A Igreja desempenha um papel crucial ao transmitir educação moral às nossas filhas. É nossa plataforma mais importante. Sessões de formação de fé são necessárias para mulheres, pois a proporção de tais casos é maior na comunidade cristã. Por último, todos conhecem o papel de um ministro das minorias no Paquistão, tanto em nível federal quanto provincial”, concluiu.

No mês passado, a Suprema Corte rejeitou um apelo do bispo anglicano da Igreja do Paquistão, Dom Azad Marshall, da Diocese de Raiwind, de uma petição constitucional para proteger meninas cristãs da conversão forçada ao islamismo e do casamento com muçulmanos.

Dom Azad planeja expor suas preocupações em cartas às autoridades paquistanesas, incluindo o primeiro-ministro, Imran Khan.

“Exigimos legislação contra esse crime sexual abrigado em nome da religião. A “mágica” só funciona com garotas cristãs menores de idade. Elas são pressionados e sofrem lavagem cerebral. Não vemos o mandado do governo. Nenhum dos culpados foi preso”, disse ele.

“Pedimos ao Ministério para Assuntos das Minorias que ajude a Igreja a construir abrigos para aconselhar nossas mulheres. O mero reconhecimento não é suficiente. Devemos entrar em contato com o judiciário, a sociedade civil e os ulemás

[teólogos muçulmanos especializados em leis e religião]

para obter apoio”, concluiu.

Fonte: UCA News

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