Os cristãos leigos são corresponsáveis pela missão da Igreja no mundo

Nas atividades da família e do trabalho, leigos são chamados a testemunhar os valores cristãos (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

No Brasil, a Igreja dedica o 4º domingo de agosto à vocação e missão dos cristãos leigos.

Do 1,2 bilhão de católicos no mundo, a maioria maciça é daqueles que são chamados a anunciar o Evangelho na vida cotidiana da sociedade, nos seus mais variados âmbitos: a família, a escola, a universidade, o trabalho, a política e a vida social. Esses são os cristãos leigos.

A palavra leigo (em grego laïkós e em latim laicus) deriva da palavra grega laós, que quer dizer “povo”. Embora o senso comum tenha reduzido o significado desse termo para se referir a alguém que não tenha conhecimento sobre determinado assunto, na vida da Igreja, leigo se refere a uma vocação, isto é, a um modo de corresponder concretamente ao chamado universal de Deus à santidade.

O registro mais antigo do uso da palavra leigo é da carta de São Clemente Romano aos Coríntios, no ano de 95. A partir do século II, essa expressão passou a ser mais frequente na literatura cristã. No século III, Tertuliano afirmou que “é dos leigos que provém a hierarquia da Igreja, que devem ser puros, como os membros do clero e obedecer às mesmas leis que estes”.

Vocação batismal

A constituição dogmática Lumen gentium, do Concílio Vaticano II, define os leigos como todos os cristãos, com exceção dos membros da ordem sacra ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, que, “incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em povo de Deus e feitos participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, na Igreja e no mundo, a missão de todo o povo cristão”.

Na exortação apostólica Christifideles laici (1988), São João Paulo II salientou que, em virtude da comum dignidade batismal, o fiel leigo é corresponsável, com os ministros ordenados e com os religiosos e as religiosas, pela missão da Igreja. Possui, contudo, uma modalidade que o distingue e lhe é peculiar: a índole secular, apontada pelo Concílio Vaticano II.

Transformação da sociedade

O documento “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz do Mundo”, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), publicado em 2016, ressalta que “os cristãos leigos são chamados a ser os olhos, os ouvidos, as mãos, a boca, o coração de Cristo na Igreja e no mundo”.

Sobre esse aspecto, o Papa Francisco alertou, na exortação apostólica Evangelii gaudium (2013), para o risco de o compromisso laical não ser refletido na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico, limitando-se, muitas vezes, às tarefas no seio da Igreja, sem um empenho real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade.

Expressões

Ao longo dos séculos, foram várias as formas por meio das quais os leigos se organizaram para realizar sua missão no âmbito interno da Igreja a partir de uma determinada espiritualidade: confrarias, ordens terceiras, associações, pastorais movimentos e novas comunidades.

Uma forte expressão laical foi a Ação Católica, fundada pelo Papa Pio XI em 1929. Trata-se de um conjunto de movimentos por meio dos quais os leigos se organizavam segundo suas áreas de atuação no mundo, para o fortalecimento da fé e motivados pelos princípios da Doutrina Social da Igreja. Da Ação Católica, nasceram inúmeros movimentos e pastorais que possuem grande incidência na atualidade.

No início do século XX, também surgiram inúmeras associações e uniões de leigos de diferentes categorias, como as uniões católicas de imprensa, juristas, médicos, professores, entre outras. Essas expressões têm ganhado novo impulso nos últimos anos, como é o caso da União dos Juristas Católicos de São Paulo (Ujucasp), fundada em 2012. Também podem ser cita- das organizações como a Congregação Mariana, Legião de Maria, Apostolado da Oração, Mãe Rainha, Cursilho de Cristandade, Encontro de Casais com Cristo e os movimentos como Focolares, Equipes de Nossa Senhora, Comunhão e Libertação, Renovação Carismática Católica e muitos outros.

‘Os cristãos leigos são chamados a ser os olhos, os ouvidos, as mãos, a boca, o coração de Cristo na Igreja e no mundo’ (foto: Luciney Martins/Arquivo/O SÃO PAULO)

Vaticano II

Após o Concílio Vaticano II, surgiram diversas associações públicas ou privadas de fiéis (novas comunidades), por meio das quais os leigos se associam e se vinculam formalmente a um grupo ou comunidade, segundo os diferentes estados de vida, a partir de uma espiritualidade específica, podendo, inclusive, abraçar o celibato apostólico e permanecer atuando como profissionais no meio da sociedade.

No âmbito paroquial, entre os inúmeros serviços realizados pelos leigos, existem aqueles que possuem um caráter ministerial e, por isso, são instituídos oficialmente pela Igreja. São o ministério extraordinário da Sagrada Comunhão, os ministérios dos leitores, acólitos, e, mais recentemente, o serviço de catequista também se tornou um ministério instituído da Igreja.

Sujeito eclesial

Ao mesmo tempo, o texto do episcopado recorda que o cristão leigo é o verdadeiro “sujeito eclesial”, vivendo fielmente sua condição de filho de Deus na fé, aberto ao diálogo, à colaboração e à “corresponsabilidade com os pastores”. O texto também reforça: “Não é preciso ‘sair’ da Igreja para ‘ir’ ao mundo, como não é preciso ‘sair’ do mundo para ‘entrar’ e ‘viver’ na Igreja”.

Sobre esse aspecto, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, tem afirmado reiteradas vezes que a vida e a missão da Igreja precisam ser assumidas por todos os batizados, “superando uma ideia que ainda não está superada, de que a Igreja não é uma organização do clero na qual os fiéis leigos são os beneficiários, os assistidos por essa Igreja”.

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