Alberani na Igreja São Luiz: a arte dos jesuítas retorna

Por Percival Tirapeli

O SÃO PAULO dá sequência à série sobre as obras jesuíticas espalhadas pela capital paulista e arredores

Alberani na Igreja São Luiz: a arte dos jesuítas retorna
Interior da Igreja São Luiz Gonzaga, na Avenida Paulista: templo sob os cuidados dos Jesuítas foi construído em 1932

Com a restauração da Companhia de Jesus em 1814, os jesuítas retornaram ao Brasil, com a permissão de Dom Pedro II, em Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Recife (PE) e no estado de São Paulo, no ano de 1865. Instalaram-se primeiro na cidade de Itu (SP), onde construíram o Colégio São Luís. Seguindo a tradição de padres humanistas, conhece dores de várias áreas, incluindo as artes, o projeto daquele colégio, em Itu, ficou a cargo do Padre Giovanni Maria Alberani.

Nascido em Fusignano (1830), norte da Itália, seu noviciado foi em Santo Andrea al Quirinale, em Roma, e logo transferido para Bologna como cozinheiro. No ano de 1865, Alberani já se ocupava da construção do colégio ituano, pois era conhecido como capo mestre, hábil construtor e diretor de obras, além de artista como escultor e pintor. No Colégio São Luís, em Itu, inaugurado em 1867, estão suas obras, como o projeto das fachadas do colégio e da capela, a escultura de São Luís na torre do relógio e o próprio relógio. Executou também cenários para teatro, medalhões em forros e uma pintura do Anjo Custódio. Atualmente, abriga o Regimento Deodoro.

Com a vinda dos Salesianos para São Paulo, em 1878, os padres se instalaram em uma pequena capela na capital e logo sentiram a necessidade de uma igreja e um colégio. Padre Alberani projetou a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, cuja construção foi iniciada em 1881, inaugurada em parte em 1901 e terminada pelo salesiano Domingos Delpiano. Do padre jesuíta, tem-se a certeza de ser a abside do presbitério, com possibilidade de serem também as pinturas. Realizou uma grande maquete da igreja em argila e pouco mais se sabe do artista, que morreu dois anos depois da inauguração do templo, em 1913. São Paulo passou, então, a ter o mais belo e grandioso templo concebido pelo Padre Alberani, a se igualar em beleza com a nave principal de Santa Maria Maggiore, em Roma.

Os jesuítas mudaram-se para São Paulo em 1918, estabelecendo o novo colégio na antiga sede do Colégio Anglo-Brasileiro, na Avenida Paulista. A igreja foi construída em 1932, projeto do ex-aluno, o engenheiro Luís de Anhaia Mello, e inaugurado três anos depois. Sua fachada é em estilo neoclássico greco-romano, caracterizada por possantes colunas estriadas em granito rosa, medindo 11 metros de altura, coroadas pelos capitéis jônicos em bronze que sustentam o triângulo frontão retilíneo. No tímpano, modelou-se o monograma dos jesuítas.

O interior da igreja segue a severidade do estilo neoclássico, com o espaço da nave única demarcado por duplas de colunas adossadas às paredes claras, adornadas na altura da abóbada por lunetas. Mais abaixo, há vitrais alusivos à história de santos jesuítas no Brasil. São cenas de Catequese para os nativos, a exemplo dos Padres Belchior Pontes, na igreja do Embu (SP), e Manuel da Nóbrega, na fundação de São Paulo. Alguns mártires, como a homenagem aos 40 Mártires do Brasil (1570) e aos santos fundadores da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, Francisco Xavier e Francisco de Borgia.

A capela-mor é evidenciada por pares de pilastras e colunas cilíndricas lisas que demarcam o espaço da abside a partir de um elegante arco abatido. Junto à curvatura, ergue-se o retábulo lítico em tonalidades de marrom-escuro a imitar com seu desenho a digna fachada. Sob o arco, está a escultura de São Luís Gonzaga, obra do Padre Giovanni Maria Alberani. A abóbada eleva-se da cornija e flutua na espacialidade de absoluta clareza, como requer a pureza do Santo, patrono dos estudantes, que ora ao Crucificado em suas mãos.

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