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Festas juninas em paróquias unem tradição, fé e senso de pertencimento comunitário e eclesial

Festas juninas em paróquias unem tradição, fé e senso de pertencimento comunitário e eclesial - Jornal O São Paulo
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Comidas e músicas típicas, foguei­ra, shows de prêmios e bandeirinhas multicoloridas são parte do universo das festas juninas. Nas paróquias, qua­se sempre elas ocorrem nesta época do ano aos finais de semana após as missas ao cair da tarde ou do início da noite.

Reconhecidas como manifestação da cultura nacional pela lei 14.555/2023, as festas juninas remetem à devoção a quatro santos celebrados neste mês: Santo Antônio, dia 13; São João Batis­ta, 24; e São Pedro e São Paulo, 29 (leia mais na página 7). Em muitas paróquias e comunidades, porém, as festividades começaram já em maio, em outras se estenderão pelo mês de julho.

ORIGENS E TRADIÇÕES

As festas juninas surgiram no sé­culo XII em sociedades agrárias do Hemisfério Norte. No começo do ve­rão, povos como os bretões, bascos, sardenhos, persas e egípcios faziam festas e invocações pelo crescimento da vegetação, a fartura das colheitas e pediam chuvas. Com o tempo, foram incorporadas ao calendário da Igreja, com alusão aos santos celebrados em junho, especialmente São João, por isso, inicialmente, falava-se em “Festa Joanina”.

Trazidas ao Brasil pelos portu­gueses no século XVI, tornaram-se também conhecidas por “quermesse”, derivada de “kerkmesse”, do idioma flamengo, festividade com barracas de comes e bebes, brincadeiras e leilões de prendas que marcavam a inaugura­ção de uma igreja. Em alguns povoa­dos rurais do Brasil, ganharam ainda o nome de “arraiá”, com trajes típicos interioranos e brincadeiras, como a encenação do casamento.

Entre seus traços mais marcantes estão a fogueira, que simboliza como Santa Isabel comunicou à Virgem Ma­ria, mesmo a muitos quilômetros de distância, que João Batista havia nasci­do; o mastro e as bandeiras, uma tradi­ção portuguesa na qual eram erguidas na ponta superior de um mastro três bandeiras simbolizando Santo Antô­nio, São João e São Pedro; a quadrilha junina; e as comidas feitas com milho – como bolo, pamonha, milho verde, pipoca e canjica –, fruto fartamente colhido nesta época do ano.

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Pascom da Paróquia Santo Afonso Maria de Ligório

MEMÓRIA E RELIGIOSIDADE POPULAR

Na Paróquia Cristo Rei, no Jardim Britânia, na zona Noroeste, Região Lapa, a festa junina ocorreu durante três finais de semana, aliando aspec­tos tradicionais e o clima da Copa do Mundo de Futebol, com a exibição do jogo de estreia da seleção brasileira no dia 13.

“A festa junina é uma tradição que passa de geração em geração, mar­cando a memória de diversas famí­lias; por isso, deve ser mantida nas paróquias. No meio periférico tam­bém é uma possibilidade de atração cultural mais acessível para um grupo mais carente”, afirma o Padre Cleyton Pontes Silva, Pároco.

Percepção similar tem o Padre Thiago Faccini Paro, Administrador Paroquial da Paróquia Imaculado Coração de Maria, no Jardim Rodolfo Pirani, na zona Leste, Região Belém: “A festa junina ajuda a guardar nossa história e heranças, e a manter a memória afetiva, gerando um ambiente de lazer, algo tão escasso na periferia”.

Preservar os valores ligados à reli­giosidade popular e à identidade das comunidades são alguns dos contri­butos desta festividade segundo o Pa­dre Jefferson Mendes de Oliveira, Pá­roco da Paróquia Santo Afonso Maria de Ligório, na Água Funda, na zona Sudoeste, Região Ipiranga: “Em uma realidade de periferia, a importância da festa junina é ainda maior. Muitas famílias possuem poucas oportunida­des de lazer acessível e seguro. A festa promovida pela Paróquia oferece um ambiente familiar, acolhedor e mar­cado pelos valores cristãos. Ela forta­lece os laços comunitários, promove a cultura popular e contribui para que a Igreja esteja cada vez mais próxima das pessoas”.

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Pascom da Paróquia Cristo Rei

INTEGRAÇÃO PAROQUIAL

Os três padres comentaram ao O SÃO PAULO sobre como a fes­ta junina contribui para o senso de pertencimento dos fiéis à comunida­de paroquial.

“A organização de festa junina mo­biliza agentes de diversas pastorais, movimentos e serviços, que traba­lham juntos em um objetivo comum. Desde a preparação das barracas até a acolhida dos visitantes, todos têm a oportunidade de colaborar, fortale­cer vínculos e vivenciar o espírito de comunhão que caracteriza a Igreja. Além disso, a festa aproxima pessoas que, muitas vezes, participam apenas das celebrações litúrgicas”, afirma Pa­dre Jefferson.

Também na avaliação do Padre Thiago, os festejos ajudam a promo­ver convivência: “O estar junto, o par­tilhar a vida e os dons geram vínculo e sentido de pertença”.

A maior participação dos fiéis e o comprometimento com a vida frater­na e a prática de fé são alguns bene­fícios que decorrem desta festivida­de, segundo Padre Cleyton. “Como uma ferramenta de evangelização e comunhão paroquial, a quermesse ajuda a engajar tanto os agentes das pastorais quanto toda a comunidade. Em um mundo marcado pelo indi­vidualismo, a festa proporciona en­contros, diálogo e partilha. Também fomenta o senso de pertença na co­munidade. A preparação do evento movimenta diversas pastorais, pos­sibilitando a integração entre grupos que, por vezes, trabalham de forma isolada. Assim, também é uma pos­sibilidade de colaboração mútua que gera unidade”.

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Gustavo de Sena Balog/Paróquia Imaculado Coração de Maria

RECURSOS REVERTIDOS À EVANGELIZAÇÃO

Os recursos obtidos nas festas juninas também são fundamentais para manter as ações das paróquias, especialmente as da periferia.

“O valor arrecadado na festa da Paróquia Imaculado Coração de Ma­ria nos ajuda a fazer investimentos, manutenções e reformas, coisas que não realizaríamos apenas com o valor de dízimo e das coletas, com os quais praticamente não conseguimos pagar as despesas mensais”, explica Padre Thiago Faccini.

Também na Paróquia Santo Afon­so Maria de Ligório, segundo o Padre Jefferson de Oliveira, os valores ar­recadados na festa contribuem para custear despesas rotineiras, investir em melhorias estruturais e manter as ações evangelizadoras: “Os recursos serão destinados à manutenção das atividades pastorais, às obras de con­servação do patrimônio paroquial e ao fortalecimento das iniciativas so­ciais e de evangelização desenvolvi­das ao longo do ano”.

Este também é o cenário na Pa­róquia Cristo Rei. “O que se arreca­da é uma grande colaboração para a evangelização, atividades pastorais, concretização de sonhos e projetos na comunidade. Devido às diversas demandas que temos, faltam espaços para as atividades. Os valores da festa junina, portanto, contribuirão para a ampliação do nosso espaço, a fim de facilitar a evangelização, a ação pasto­ral e a realização de eventos”, detalha Padre Cleyton. As paróquias da Arquidiocese de São Paulo têm informado a pro­gramação de suas festas juninas por meio das redes sociais. Para saber de­talhes daquelas citadas nesta reportagem, acesse os perfis no Insta­gram: Santo Afonso Maria de Ligório (@paroquiasantoafonso_), Cristo Rei (@paroquiacr) e Imaculado Coração de Maria (@paroquia_icm).

OS 4 SANTOS MAIS POPULARES NO MÊS DE JUNHO

SANTO ANTÔNIO

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Santo Antônio não é somente o “santo casamenteiro”, como é conhe­cido na piedade popular. Nascido em Lisboa, Portugal, em 1195, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho aos 15 anos e rece­beu a ordenação sacerdotal aos 24. Em 1220, passou a fazer parte da ordem franciscana e foi enviado em missão a Marrocos. Lá adoeceu e voltou à Itá­lia. Depois, foi para Assis e passou por outras cidades, pregando o Evangelho especialmente no Norte da Itália e no Sul da França. Além disso, visitou con­ventos e abriu novas casas como supe­rior de fraternidades franciscanas.

São muito famosos os sermões de Santo Antônio, com cerca de 6 mil ci­tações bíblicas, menções dos grandes padres da Igreja e referências às ciên­cias naturais. Escritos em linguagem facilmente compreensível, atraíam muitas pessoas, as quais, após ouvi-los, buscavam o sacramento da Reconcilia­ção. Frei Antônio empenhou-se para que houvesse mudanças em leis de sua época a fim de que as moças cujas famílias não tinham dinheiro para o dote também pudessem se casar. Daí vem a fama de “santo casamenteiro”.

Ele faleceu em 13 de junho de 1231, em Pádua, na Itália, e foi procla­mado doutor universal da Igreja em 1946 pelo Papa Pio XII.

SÃO JOÃO BATISTA

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Pela graça de Deus, o casal de idosos Zacarias e Isabel concebeu João Batista, aquele que veio para “dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele.” (Jo 1,7). Na juventude, retirou-se para o deserto. Por volta dos anos 27 e 28 d.C., nas margens do Rio Jordão, iniciou a pregação sobre a vin­da do Senhor e realizava o batismo de conversão: “Eu batizo com água, mas no meio de vós existe alguém que não co­nheceis, e que vem depois de mim” (Jo 1,26-27). Aos que batizava, recomenda­va que fizessem coisas para provar que haviam se convertido e que partilhassem o que tinham. Quando batizou Cristo, viu o Espírito Santo descer do céu e pou­sar como uma pomba sobre o Salvador (cf. Mt 3,13-17).

São João Batista foi preso e decapi­tado por volta do ano 32 d.C., após de­nunciar que Herodíades, esposa de um irmão de criação de Herodes, desfez a primeira união que tinha para se casar com este rei.

A natividade de São João Batista é celebrada em 24 de junho, tendo como referência o diálogo em que o Anjo anuncia a Maria que ela será a mãe do Salvador: “Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril” (Lc 1,36). O martírio deste Santo é celebrado em 29 de agosto.

SÃO PEDRO E SÃO PAULO

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Eles são chamados de “colunas da Igreja”: São Pedro, o primeiro entre os discípulos a professar a fé no Cristo e testemunhá-Lo, é considerado o primeiro papa; São Paulo, o Apóstolo dos Gentios, difundiu a fé em suas muitas viagens apostólicas. A escolha do dia 29 de junho para celebrar o martírio de ambos marca a substituição de uma festa pagã – dedicada a Rômulo e Remo, fundadores pagãos de Roma –, por uma festa cristia­nizada pela Igreja, que transformou os Santos nos novos “fundadores” da Roma cristã.

De temperamento inquieto e impulsivo, Pedro frequentemente questionava Cristo sobre as pregações e parábolas. Embora O tenha negado por três vezes (cf. Lc 22,54-60), foi o primeiro entre os apóstolos a reconhecer no Senhor o cami-nho da Salvação e ouviu de Jesus: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus e tudo o que desliga­res na terra será desligado nos céus” (Mt 16,18-19).

Depois da Ascensão do Senhor ao Céu, Pedro passou a pregar em público e a fazer curas em nome de Cristo. Durante a perseguição de Nero aos cristãos, este apóstolo foi preso e, por fim, crucificado, de cabeça para baixo, na Colina Vaticana.

Já São Paulo nasceu em Tarso e chamava-se Saulo. Era judeu, cidadão romano e perseguidor das comunidades cristãs: “Detestava a igreja, ia de casa em casa, arrastava homens e mulheres e os lançava à prisão” (At 8,3). Em uma destas ocasiões, quando ia em direção a Damasco, foi envolvido por uma forte luz, que o fez perder a visão e cair por terra. “Saulo, Saulo, por que me persegues?”, disse-lhe a voz do Senhor. E Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” Ele respondeu: “Eu sou Jesus, a quem você per­segue. Levanta-te, entra na cidade; alguém te dirá o que deves fazer” (At 9,3-6). Três dias depois, recobrou a visão. Após ser batizado, iniciou o apostolado em Damasco. Na ida a Jerusalém, conheceu Pedro e os outros apóstolos, mas enfrentou a hostilida­de dos judeus e a incredulidade de muitos cristãos. Assim, decidiu evangelizar em sua cidade natal, Tarso. Anos mais tarde, com Barnabé, foi a Antoquia e de lá seguiu para suas viagens apostólicas com a meta de converter os pagãos – os “gentios” – e formar novas comunidades e orientar as já estabelecidas.

Acusado pelos judeus de pregar contra a lei e de introduzir no templo um pagão convertido, Paulo foi preso e transferido para Roma, mas acabou libertado por falta de provas. Voltaria a ser preso tempos depois e condenado pelo Tribunal Romano, sendo, por fim, decapitado na Vila Ostiense.

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