Missa de 7º dia do Padre Gilson Reis acontece neste sábado, 28

Foto: Missão Belém

O Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, presidiu na manhã do sábado, 28, na Catedral da Sé, a missa de 7o Dia do Padre Gilson Frank dos Reis, que faleceu no dia 22, aos 45 anos de idade, em decorrência de complicações da COVID-19.

A missa, aberta a todos os interessados, respeitando os protocolos recomendados para o atual momento de pandemia foi transmitida pelo YouTube da Missão Belém.

Ordenado sacerdote em 2016, Padre Gilson era incardinado no clero da Arquidiocese de São Paulo e membro da Missão Belém, associação de fiéis que realiza um trabalho pastoral voltado à população em situação de rua e com dependência química.

Seu velório ocorreu no domingo, 22, na Capela Nossa Senhora Aparecida, no Belenzinho, onde houve a missa de corpo presente, presidida por Dom Luiz Carlos Dias, Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Belém.

O jornal O SÃO PAULO desta semana apresenta uma reportagem especial sobre o Padre Gilson, incluindo trechos de uma entrevista que concedeu no ano de 2013. Leia a seguir a íntegra do conteúdo publicado na mais recente edição do semanário arquidiocesano.

O ADEUS AO PADRE GILSON, PAI E IRMÃO DOS SOFREDORES DA RUA

Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na manhã do domingo, 22, os arredores da Capela Nossa Senhora Aparecida, na comunidade carente da Rua Nelson Cruz, no Belenzinho, ficaram tomados de pessoas. Os motoristas que passavam diminuíam a velocidade curiosos para entender o que bloqueava o trânsito daquela via. Na lateral, algumas carroças de material reciclável se enfileiravam. Eram os irmãos de rua que bastante emocionados, vieram se despedir do seu “paizão”. Assim eles chamavam o Padre Gilson Frank dos Reis, que não resistiu às complicações da COVID-19 e faleceu no sábado, 21, aos 45 anos.

Ordenado sacerdote em 2016, Padre Gilson era incardinado no clero da Arquidiocese de São Paulo e membro da Missão Belém, associação de fiéis que realiza um trabalho pastoral voltado à população em situação de rua e com dependência química.

Em missão 

Ao choro das pessoas em situação de rua, uniam-se seus irmãos da Missão Belém, sacerdotes e demais fiéis. Irmã Cacilda da Silva Leste, co-fundadora da comunidade, relatou que, em julho, Padre Gilson quis organizar uma missão na região conhecida como Cracolância e na praça da Sé, ambas no centro da cidade, onde a concentração da população em situação de rua e com dependência química havia aumentado com a pandemia. 

“Ele sabia que pelo seu porte físico, teria complicação se contraísse a COVID-19 e foi algumas vezes na pandemia para essa missão de rua. O Gilson era apaixonado pelos irmãos, pelos pobres da rua. Ele contou que a situação estava muito triste, encontrando muita gente doente. Mas ele e os nossos irmãos das nossas casas foram com paciência, com amor, com dedicação, como ele disse brincando ‘saquear o inferno’”, disse a missionária, em alusão ao fato de que, durante a missão, conseguiram resgatar muitas pessoas que viviam em condições comparáveis ao verdadeiro inferno. 

“Padre Gilson entendia que a vida dele não era dele, mas dos pobres. Ele viveu essa missão com muito amor, com muito ardor. Ele dizia que a rua é um lugar muito triste, mas Jesus não se esquiva, está lá na rua e espera a nossa ida, espera que sejamos instrumento de resgate… Ele voltou muito feliz dessa missão. Viveu com plenitude essa entrega… Ele tinha uma confiança e disposição de entrega a Deus única”, completou Irmã Cacilda.

Sentiu na pele 

Padre Gianpietro Carraro, fundador da Missão Belém, enfatizou que Padre Gilson se identificava com os sofredores da rua também porque, um dia, foi resgatado daquela condição. “Padre Gilson conheceu a vida de rua, dos vícios, aquela que todo mundo sabe, mas encontrou a Deus. Teve um dia em que se ajoelhou, prostrou-se e pediu a Deus que entrasse na vida dele e o Senhor fez dele um padre. Portanto, o Padre Gilson é o emblema, o símbolo da Missão Belém, daquilo que Deus faz quando a gente se abre”, afirmou o Fundador.

Aos 11 anos, após a separação dos pais, Gilson tragou um cigarro pela primeira vez, e na adolescência, foi usuário de outras drogas. “O crack foi a devastação da minha vida e da minha família: roubava coisas de casa, morei na rua, na Cracolândia, até que um dia alguém passou, bateu nas minhas costas e falou ‘olha, Jesus te ama’. Foi quando tive força de me levantar e procurar ajuda”, contou ao O SÃO PAULO em uma entrevista concedida em 2013, na Casa de Oração do Povo da Rua.

Durante nove meses, no ano de 1998, Gilson permaneceu em uma clínica de recuperação de dependentes químicos no Rio Grande do Sul. De volta a São Paulo, conseguiu emprego, tornou-se noivo, ingressou em atividades da Igreja e foi um dos fundadores de um grupo que ajudava na recuperação de jovens drogados.

Vocação 

Por meio de colegas da Comunidade Servos de Resgate, que também se dedica à evangelização de moradores em situação de rua, conheceu o Padre Gianpietro Carraro, quem em 2005 fundaria a Missão Belém. “Quando comecei essa caminhada com um acompanhamento mais sério, com uma espiritualidade mais forte, entendi que aquilo que eu procurei desde os meus 11 anos de idade nas drogas, eu encontrei somente em Deus”, relatou.  

Gilson deixou tudo para trás para seguir a vida missionária, ajudando outros a se libertarem do vício. “Toda vez que posso, falo da minha experiência de vida e que Deus está tirando um homem que era da Cracolândia e levando para trás do altar para ser padre. Procuro sempre enfatizar isso porque não somos diferentes: se isso aconteceu na minha vida, outros irmãos podem conseguir, porque um homem que tem objetivo chega aonde Deus quer”, contou à reportagem.

Na entrevista de 2013, ele recordou que de sua própria experiência e das situações que vivenciara de pessoas que deixaram as drogas após o encontro com Deus, Gilson nutria algumas certezas: “A Palavra de Deus diz que a fé é o firme fundamento de acreditar em tudo aquilo que a gente não vê, mas a fé também é o alicerce de quem quer caminhar com Deus. Aquele que não tem fé e não acredita, morre, acaba se perdendo”.

Esperança 

Durante a missa de corpo presente, Dom Luiz Carlos Dias, Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Episcopal Belém, uniu-se à tristeza dos missionários e do povo pela “perda irreparável” desse sacerdote, mas convidou os fiéis a olharem para o círio pascal acesso ao lado do caixão, que simboliza a luz eterna do ressuscitado. “Nosso irmão vive. Passou desta vida para a eternidade e essa é a grande esperança que deve, de fato, lançar o consolo aos nossos corações”, afirmou o bispo.

Dom Odilo também esteve no velório e rezou junto ao corpo do sacerdote que ele havia ordenado em 2016. Inclusive, seu corpo foi revestido com os paramentos sacerdotais usados no dia de sua ordenação.

“Perdemos o padre Gilson, que trabalhava com os pobres, com os moradores de rua, os ajudava para que pudessem sair dessa, melhorar a vida, e estando com os pobres, moradores de rua, acabou contraindo COVID-19 e não conseguiu superar. Que Deus acolha e recompense o Padre Gilson e que seu exemplo mova a muitos a também fazerem o bem, as obras de misericórdia em relação a todo o tipo de pessoa que necessita”, manifestou Dom Odilo, horas mais tarde, durante o seu programa semanal “Diálogos de Fé”, transmitido pela rádio 9 de julho e pelas mídias digitais.

Ainda durante o velório, Irmã Cacilda afirmou que, nas últimas folhas que conseguiu escrever em seu Diário Espiritual, já debilitado, Padre Gilson  registrou seu desejo de ajudar Jesus a ser alimentado. “Ele escreveu com dificuldade que ele se oferecia nas mãos de Jesus para que de alguma forma Jesus também o tornasse de alguma forma também alimento para a comunidade, para os pobres, para todos. E ele conseguiu cumprir e viver isso”, disse a missionária.

(Autoria: Daniel Gomes e Fernando Geronazzo/jornal O SÃO PAULO)

Comentários

  1. Testemunho fiel da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.Exemplo para todos nós.
    Corajoso não deixou de ver o rosto de Cristo nos irmãos.
    Cuide de todos nós Padre e interceda pelos irmãos que vivem na rua.

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