Assunto foi debatido por editores e autores em live realizada pelo O SÃO PAULO na ExpoCatólica 2026

Luciney Martins/O SÃO PAULO
A necessidade de a Igreja marcar presença nas diferentes redes sociais e o papel dos editores para que os conteúdos produzidos com o suporte de ferramentas de inteligência artificial (IA) sejam fidedignos à realidade e estejam em conformidade com o magistério da Igreja foram alguns dos apontamentos dos participantes da live realizada pelo O SÃO PAULO na ExpoCatólica 2026, em 24 de julho, a respeito dos desafios e oportunidades para a produção e comercialização de obras católicas diante do crescente impacto das redes sociais e da IA no mercado editorial.
O encontro, mediado pelo jornalista Daniel Gomes, redator-chefe do semanário arquidiocesano, foi transmitido pelo YouTube da Arquidiocese de São Paulo e pode ser visto na íntegra pelo link https://curt.link/RfVrz.
EM NOVOS AMBIENTES SEM PERDER A IDENTIDADE
Uma das participantes foi a Irmã Gisely Pinheiro, FSP, diretora da Paulinas Cursos. Ela sublinhou que já não é possível escolher não se utilizar da inteligência artificial ao menos em partes das etapas do processo editorial: “Sabedora desta realidade, a Igreja Católica vai nos direcionando para usarmos a IA da melhor maneira possível. Sempre nos preocupa a questão da identidade, pois é preciso ter certeza e clareza ao utilizar uma ferramenta de inteligência artificial, ao colocarmos nossos dados e obras dos autores neste ambiente”.
Graduada em comunicação e marketing e pós-graduada em negócios digitais, Irmã Gisely destacou que um dos maiores desafios tem sido apresentar os conteúdos em diferentes redes, para variados perfis de usuários.
“O conteúdo de um livro, por exemplo, pode ser apresentado por meio de vídeos curtos para alcançar públicos diversos, sem que perca sua profundidade. Nestes outros formatos, conseguimos alcançar especialmente os mais jovens, que estão imersos em uma nova cultura e realidades diferentes das que havia antes. Temos princípios e valores cristãos, precisamos continuar neste mercado para levar a mensagem de Jesus a todos”, ressaltou.
O BOM USO DA IA POTENCIALIZA OPORTUNIDADES
Na avaliação de Diego Ciarrocchi, doutorando em IA pela USP e mestre em gestão da inovação pela Universidade Federal do ABC, ainda há poucas produções católicas nas redes sociais mais acessadas pelos jovens, como TikTok, Reddit, Substack e Discord: “Uma das possibilidades é a de ir destrinchando o conteúdo de cada livro nestas redes. Temos de nos adaptar a esta nova linguagem e olhar o livro não somente como um produto físico, mas como algo que pode ser transformado em outros produtos, mas que precisa de uma curadoria responsável. Talvez esse seja o grande papel das editoras agora”.
Diego, que também é IA Product Manager na Amazon e um dos autores do livro Emagreça Rezando (Angelus Editora), avaliou que o mercado editorial católico não deve olhar para os avanços da IA como um risco, mas utilizar-se dessas potencialidades, alicerçado nos valores da fé e na centralidade da pessoa humana.
“A IA não tem experiência de fé. Além disso, a essência humana, que o Papa Leão XIV fala na encíclica Magnifica humanitas, é insubstituível. A IA pode auxiliar e potencializar o que temos de melhor, mas somos nós que temos a espiritualidade. Essa experiência de fé é o nosso diferencial”, afirmou, motivando que cada vez mais os católicos ocupem as redes sociais e se utilizem das novas tecnologias. “Entendo a IA como uma semente: não é boa nem ruim, depende de onde a plantaremos. Estamos preparando bons terrenos para que essa ‘sementinha’ floresça e traga bons frutos?”, indagou.
NADA SUBSTITUIRÁ A INTELIGÊNCIA HUMANA

Victor Tavares, diretor-executivo da Distribuidora Loyola de Livro e Edições Fons Sapientiae, sublinhou que com o avanço da IA, a função do editor é ainda mais essencial: “É ele que, a partir de sua experiência e conhecimento, tem o papel de saber o que vai publicar e se determinado conteúdo está condizente com a doutrina católica. Nós recebemos muitas coisas e precisamos ser criteriosos na avaliação e, por vezes, até dizer ao autor que determinado conteúdo não poderá ser publicado”.
Ele ressaltou que cada vez mais o leitor católico tem buscado nos livros um conteúdo aprofundado que não se encontra facilmente em redes sociais, na internet ou em obras geradas primordialmente por inteligência artificial: “Eu tenho certeza de que a IA não substituirá a inteligência humana, pois tudo o que está na IA alguém pensou um dia primeiro. E se formos fazer um livro somente usando a IA isso não terá originalidade. O livro bom é aquele que vem da cabeça do autor, do escritor, é, essencialmente, autoral”.
IMPULSO PARA O AUMENTO DE LEITORES
Áliston Monte, gerente editorial e de marketing da editora Ave-Maria, mencionou pesquisas do setor editorial segundo as quais o Brasil teve 3 milhões de novos leitores de livros no ano passado: “Em sua maioria, eles têm de 18 a 34 anos; e 56% declararam que foram impactados por vídeos nas redes sociais. Também há o fenômeno do BookTok, em que influenciadores criam trends no TikTok e um livro vira rapidamente um best-seller. Tudo isso ajudou neste aumento do número de leitores. Hoje, quando a gente vai analisar um texto também já olha para a presença digital do autor”.
O gerente editorial afirmou ainda que com a expansão do uso da IA, mais obras têm sido enviadas às editoras, o que demanda cuidados redobrados na hora de selecioná-las.
“Hoje, antes de a pessoa submeter um texto para publicação, no questionário que irá preencher sobre a obra, nós incluímos a pergunta se houve o uso de ferramentas de inteligência artificial. Em maio, em um encontro de editores, livreiros e distribuidores gráficos, foi lançado um manual de boas práticas da IA no mercado editorial, que está sendo uma boa diretriz, pois, se por um lado, a inteligência artificial é uma facilitadora, por outro, existe a ‘colonização do algoritmo’, ou seja, ele tem vieses. Assim, o editor precisa estar atento àquilo que está sendo entregue e a partir de quais referências foi produzido”.

COMO LIDAR COM OS LEITORES ACOSTUMADOS À INSTANTANEIDADE?
Essa inquietação foi partilhada pela jornalista Mariana Mascarenhas, autora do livro De Gutenberg a Zuckerberg: A jornada das imagens e a transformação da comunicação – liberdade ou ilusão? (editora Lumen et Virtus).
“A transição do impresso para o digital já vem acontecendo há algum tempo, e com a expansão das redes sociais e das ferramentas de inteligência artificial, fica a pergunta: quais leitores estão se formando? Temos de pensar que eles estão habituados com a instantaneidade: não param mais para ler um livro, dão um comando à IA para que a obra seja resumida, ou seja, não gastam mais tempo para se aprofundar. Entendo que isso é um perigo muito grande, pois nos levará a uma padronização de informações”.
Mestra em Ciências Humanas e especialista em Comunicação Empresarial e Marketing Digital, Mariana ressaltou que as ferramentas de IA deveriam ser usadas como auxiliares e não como ponto de partida para a produção de um conteúdo: “Primeiramente, o autor deve ‘beber das fontes originais’ para bem entender sobre um tema e a partir daí produzir o pensamento, para, somente depois, trabalhar com as ferramentas de inteligência artificial”.




