Membro da Comissão Vaticana para COVID-19 avalia os dois anos de combate à pandemia

Reprodução de Vatican Media

Crises interligadas, mas também o contágio da solidariedade: estes são dois aspectos da pandemia que completa dois anos, desde as primeiras declarações da China, lugar de origem do vírus, até à Organização Mundial da Saúde e ao resto do mundo. Um cenário que desafiou todos os âmbitos, inclusive o eclesial, evidenciando a necessidade de uma “conversão”, livre de qualquer forma de autorreferencialidade.

Alessio Pecorario, coordenador da Força-Tarefa de Segurança da Comissão Vaticana Covid-19 do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, explica o trabalho deste organismo, criado pelo Papa, em 2020, onde se vive a experiência do “caminho sinodal entre Igreja e sociedade, entre religiões, ciência e política”, um exemplo de aceitação do que é o maior ensinamento da crise de saúde, ou seja, que ninguém se salva sozinho:

A partir de hoje, 31 de dezembro, dois anos se passaram desde que Wuhan relatou casos de pneumonia atípica à OMS, posteriormente chamada de Covid-19: um novo inimigo, um desafio, um perigo global imprevisto. Como o mundo mudou do seu ponto de vista nesses dois anos? O Papa nos disse várias vezes que não podemos sair desta crise da mesma forma. Portanto, pioramos ou melhoramos?

Alessio Pecorario – Avaliar se, de maneira geral, o mundo melhorou ou piorou em relação ao início da pandemia da Covid-19, obviamente não é possível, mas certamente podemos nos lembrar da leitura que o Papa Francisco fez desde o início deste terrível momento de provação para a humanidade, e nos deter em alguns elementos específicos. Em relação ao primeiro perfil, o desafio foi e é epocal: estamos falando de crises sanitárias e sociopolíticas interligadas e inéditas que enraizaram um pedaço de cada vez todos os setores da economia e todos os Estados da Comunidade internacional, numa forma de “globalização reversa” ou talvez de uma “globalização extrema” na qual talvez estivéssemos fingindo não ler aquelas mesmas dinâmicas que agora nos parecem enlouquecidas, mas que mais realisticamente estavam apenas acelerando as contradições nas quais estávamos imersos. Indo ao concreto entre elementos de positividade e negatividade, podemos dizer, por exemplo, que o binômio complexo paz-desenvolvimento piorou e certos enfoques estatísticos nos dão a sensação desse curto-circuito. Se compararmos, por exemplo, os dados do Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo – Sipri – que nos informa que em 2020 o gasto militar mundial chegou a 1,981 bilhões de dólares, o maior aumento desde a crise financeira e econômica de 2008-2009, outro momento de enlouquecimento da globalização, e se nos aproximamos do ano horrível da economia, 2020, quando vimos, segundo o Fundo Monetário Internacional, a diminuição do produto interno bruto mundial em quase 5%, nós damos conta dessas contradições. Elementos positivos, para concluir. Vimos uma explosão de solidariedade, então podemos olhar para o “contágio” da solidariedade, que muitas vezes foi mais viral do que a Covid! Pensemos nas organizações sem fins lucrativos no setor da saúde ajudaram as organizações públicas, cuidando de pacientes portadores de doenças não Covid, que não tiveram acesso a tratamento, ou nas empresas do setor alimentar que ofereceram descontos, vale-compras, ou outras formas de doação de alimentos, ou nas empresas dos mais diversos setores da economia que optaram pela suspensão da distribuição dos lucros do ano de 2019 para atender às necessidades dos trabalhadores e dos necessitados. Em conclusão, é claro, não quero cair na simplificação de uma “má política” e uma boa “sociedade civil”. A nossa experiência nos ensina que o bem comum nasce da cooperação dos atores que têm voz na solidariedade, e a Comissão Vaticana para Covid-19 foi concebida pelo Santo Padre como um momento de conexão entre as necessidades locais e a governança mundial num plano podemos dizer vertical e horizontal entre a melhor ciência e a melhor teologia, para sair melhor e sair juntos, num caminho de amizade social.

Nestes dois anos de pandemia, a Igreja também enfrentou grandes desafios e grandes problemas: da assistência às modalidades da liturgia, ao cuidado dos religiosos à morte de muitos deles. Qual foi a lição tirada?

Pensamos que é necessário suscitar uma reflexão sobre os novos modelos de evangelização e comunicação do Evangelho. A pandemia evidenciou a necessidade da “conversão eclesial” desejada pelo Papa Francisco, porque emerge fortemente a necessidade de viver o mandato de uma “Igreja em saída”, de encarnar um estilo de cuidado que tem o traço “materno” das comunidades cristãs. Devemos continuar realizando ações eclesiais que levem à maturidade aquela comunhão dinâmica que dá forma a uma Igreja sinodal, evitando qualquer autorreferencialidade eclesial. É nosso dever construir um caminho que se encarne e se tome forma nos territórios e nas paróquias. Nesse sentido, penso na série de catequeses para a pandemia intitulada “Curar o mundo”, nas quais o Santo Padre nos convida a redescobrir as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade que, na tradição cristã, são muito mais do que sentimentos ou atitudes. São virtudes infundidas com a graça do Espírito Santo e dons que nos curam e também nos tornam regeneradores. Assim, a Igreja, embora administre a graça regeneradora de Cristo por meio dos Sacramentos, e embora preste serviços de saúde nos cantos mais remotos do planeta, não é uma especialista em prevenção ou tratamento da pandemia. Nem dá indicações sociopolíticas específicas. Esta é a tarefa dos líderes políticos e sociais, porém, ao longo dos séculos, e à luz do Evangelho, a Igreja desenvolveu aqueles princípios cardeais que estão na base da Doutrina Social, o princípio da dignidade da pessoa, o princípio do bem comum, da opção preferencial pelos pobres, do destino universal dos bens, do cuidado da nossa casa comum. Esses princípios ajudam os dirigentes e líderes da sociedade a promover o crescimento e o desenvolvimento humano integral, mas também ajudam a Igreja a sair para alcançar os contextos onde ela é mais necessária.

“Pior do que esta crise, há apenas o drama de desperdiçá-la”, disse várias vezes o Papa, referindo-se à pandemia. Foi também por isso que nasceu a Comissão Vaticana Covid-19. O que dizer ao fazer um balanço? Que problemas restam hoje, que solicitações ainda precisam ser feitas à sociedade, à comunidade científica e aos governos?

Acho que é apropriado partir da questão da saúde e, desse ponto de vista, podemos dizer que se a família humana tem se deparado com novas manifestações de desigualdades de longa data, como dissemos, certamente o acesso desigual às vacinas contra a Covid-19 continua sendo o tema principal e, portanto, a prioridade. Deste ponto de vista, é necessário continuar insistindo no acesso igual e universal às vacinas e a lutar contra o que o Papa chama de “nacionalismo das vacinas”, pelo qual Estados e empresas, em vez de colaborarem, muitas vezes competem de forma degradante. Nesse sentido, o que a Comissão Vaticana fez foi desenvolver o pensamento do Papa através de uma Nota conjunta com a Pontifícia Academia para a Vida intitulada “Vacinas para todos” e depois agiu, mais politicamente, digamos, por exemplo, convocando o corpo diplomático junto à Santa Sé para discutir e mitigar os efeitos da competição degradante e desenvolver um clima de distensão. Outro tema, obviamente no campo da vacinação, é a da desinformação e da hesitação vacinal. É por isso que apoiamos iniciativas como “religiosas embaixadoras” para programas de vacinação, porque sabemos que as freiras a nível da comunidade local são pessoas de confiança que podem ajudar. Ainda outro fator continua sendo a recessão econômica e a pobreza multidimensional. Nesse sentido, são assustadores os dados de 2020 sobre a insegurança alimentar que, segundo a FAO, atinge os 800 milhões de pessoas desnutridas. Portanto, devemos continuar trabalhando como temos feito até agora, em direção a sistemas alimentares sustentáveis ​​e elevar as vozes dos excluídos para inspirar um apelo por “justiça alimentar”. Depois, há o tema macroscópico do trabalho para todos, sempre na esfera econômica. Temos um aumento de 5,3 para 24,7 milhões de desempregados que se somam aos 188 milhões em 2019 e aqui o desafio é criar empregos dignos, sustentáveis ​​e resilientes. Mas, para encerrar, acho que é sempre importante lembrar que isso deve ser feito na ótica de uma ecologia integral. Portanto, cuidar dos irmãos significa cuidar da casa que compartilhamos. Por último, mas não menos importante neste sentido, está a questão da paz e da segurança, porque é claro que a segurança não coincide com a segurança de uma nação ou de grupo de nações, mas diz respeito a todo ser humano e a todas as dimensões do ‘humano. A Comissão Vaticana Covid-19 não se cansa de colaborar com os Pontifícios Conselhos para o Diálogo Inter-religioso, a Unidade dos Cristãos e para a Cultura para continuar difundindo a consciência e a luta contra a difusão de armas de destruição em massa, bem como a métodos de combate emergentes.

Qual é a direção em 2022 para a Comissão Covid, sua chave de leitura para o mundo pós-crise? Para o que ou quem olhar para encontrar esperança?

Posso dizer que o Papa fez a mais bela reflexão em seu livro muito íntimo “Voltemos a sonhar”. O Papa Francisco nos diz que as pessoas que estão à margem da sociedade devem se tornar os protagonistas das mudanças sociais. Nessas pessoas eu diria que podemos indicar esperança: os marginalizados são os pobres de todos os tipos, os migrantes e, sobretudo, os jovens que são os novos pobres de hoje e de amanhã. Deste ponto de vista, recordo a forte mensagem que o Papa dirigiu em fevereiro de 2017 ao Movimento dos Focolares, na qual dizia que “o capitalismo continua produzindo os descartes que depois ao invés de curá-los”, quase os esconde. E deu o exemplo de “aviões que poluem a atmosfera, mas com uma pequena parte do dinheiro dos bilhetes plantarão árvores, para compensar parte dos danos causados” ou de “empresas de jogos que financiam campanhas para curar os jogadores patológicos que criam”. O Papa disse que “no dia em que as empresas armamentistas financiarem hospitais para tratar as crianças mutiladas por suas bombas, o sistema terá atingido seu auge”. Então, onde procurar esperança? Eu diria nos excluídos que devem se tornar protagonistas de uma “economia de comunhão” em que claramente a partilha universal dos bens se torne a norma para preparar um futuro diferente. Nesse sentido, acreditamos que a experiência da Comissão Covid já é uma experiência de mudança, de um caminho sinodal entre Igreja e sociedade, entre religiões, ciência e política, e um pequeno exemplo de aceitação daquele que é o maior ensinamento da pandemia, ou seja, que ninguém se salva sozinho!

Fonte: Vatican News

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