O mistério da cruz nas palavras do pregador dos papas

O SÃO PAULO reuniu trechos de homilias de Frei Raniero Cantalamessa nas celebrações da Paixão do Senhor presididas pelos três últimos pontífices 

Cardeal Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia (foto: Arquivo/Vatican Media)

Pregador da Casa Pontifícia desde 1980, o frade capuchinho Raniero Cantalamessa, que se tornou cardeal em novembro de 2020, é quem fez a homilias das liturgias da Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa, presididas pelos três últimos papas.

O SÃO PAULO reuniu trechos de algumas dessas pregações para ajudar o leitor a meditar sobre o mistério da Paixão de Cristo e acompanhar as celebrações que serão transmitidas pelos meios de comunicação, devido às medidas de isolamento domiciliar para conter o avanço da pandemia de COVID-19.

SERVO SOFREDOR

Na Sexta-feira Santa de 2019, em 19 de abril, Frei Raniero iniciou a homilia a partir da primeira leitura, extraída da Profecia de Isaías, que fala do servo que foi desprezado, “homem das dores e habituado à enfermidade; era como pessoa de quem se desvia o rosto, tão desprezível que não fizemos caso dele”.

“A história da paixão que se seguiu deu um nome e um rosto a este misterioso homem das dores, desprezado e rejeitado pelos homens: o nome e o rosto de Jesus de Nazaré. Hoje queremos contemplar o Crucificado sob este mesmo aspecto: como protótipo e representante de todos os rejeitados, deserdados e os ‘descartados’ da terra, aqueles diante dos quais se vira o rosto para outro lugar para não os ver.”

O Capuchinho enfatizou, ainda, que o significado mais profundo da morte de Jesus não é o social, mas o espiritual.

“Aquela morte redimiu o mundo do pecado, levou o amor de Deus ao ponto mais distante e mais obscuro para o qual a humanidade se havia colocado na sua fuga d’Ele, isto é, na morte.”

Ele recordou que o Evangelho não para por na morte de Jesus, mas diz que o crucificado ressuscitou.

“É a festa da reviravolta feita por Deus e realizada em Cristo; é o início e a promessa da única reviravolta totalmente justa e irreversível no destino da humanidade. Pobres, excluídos, pertencentes às diversas formas de escravidão que ainda se verificam na nossa sociedade: a Páscoa é a vossa festa!”

Papa Francisco, em celebração da Paixão do Senhor (foto: Arquivo/Vatican Media)

‘DEIXAI-VOS RECONCILIAR COM DEUS’

Na Celebração da Paixão de 26 de março de 2016, Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, a homilia de Frei Raniero destacou a reconciliação a partir da palavra do Apóstolo São Paulo na Carta aos Coríntios: “Deixai-vos reconciliar com Deus”.

“O apelo do apóstolo a reconciliar-se com Deus não se refere à reconciliação histórica entre Deus e a humanidade (esta, ele acaba de dizer, já se realizou através de Cristo na cruz); tampouco se refere à reconciliação sacramental que acontece no batismo e no sacramento da reconciliação; refere-se a uma reconciliação existencial e pessoal, a ser vivida no presente. O apelo é dirigido aos cristãos de Corinto que são batizados e vivem há tempo na Igreja; é dirigido, por isso, também a nós, aqui e agora. ‘O tempo favorável, o dia da salvação’ é, para nós, o ano da misericórdia que estamos vivendo.”

Cantalamessa ressalta, ainda, que, “é quando cria o mundo e, nele, as criaturas livres, que o amor de Deus deixa de ser natureza e se torna graça”.

“Este amor é uma livre concessão: poderia não existir; é hesed, graça e misericórdia. O pecado do homem não muda a natureza deste amor, mas provoca nele um salto de qualidade: da misericórdia como dom se passa à misericórdia como perdão.”

‘PIEDOSAS MULHERES’

A presença das três mulheres junto da cruz foram destacadas na homilia da Celebração da Paixão de 6 de abril de 2007, presidida pelo Papa Bento XVI. Frei Raniero afirmou que esse fato não pode ser visto superficialmente.

“Chamamo-las, com uma certa condescendência masculina, ‘as piedosas mulheres’, mas elas são muito mais do que ‘piedosas mulheres’, são ‘Mães-Coragem!’. Desafiaram o perigo que existia em mostrar-se tão abertamente em favor de um condenado à morte. Jesus disse:  ‘Feliz de quem não tiver em mim ocasião de queda’ (Lc 7, 23). Estas mulheres são as únicas que não se escandalizaram por ele”.

Papa Bento XVI, em rito de adoração da Santa Cruz (foto: Arquivo/Vatican Media)

Ao refletir qual razão essas mulheres resistiram ao escândalo da cruz, o pregador ressaltou que Jesus deu antecipadamente esta resposta, quando, ao responder a Simão, disse sobre a pecadora que lhe tinha lavado e beijado os pés:  “Muito amou!” (Lc 7, 47).

“As mulheres seguiram Jesus por ele mesmo, por gratidão ao bem que dele receberam, não pela esperança de fazer carreira ao seu seguimento. Não lhes foram prometidos ‘doze tronos’, nem elas pediram para sentar à direita e à esquerda no seu Reino. Seguiam-no, está escrito, ‘para o servir’ (Lc 8, 3; Mt 27, 55); eram as únicas, depois de Maria, a Mãe, a ter assimilado o espírito do evangelho. Tinham seguido as razões do coração e estas não as tinham enganado.”

Em seguida, Cantalamessa reiterou que as piedosas mulheres não devem ser apenas admiradas e honradas, mas imitadas.

“São Leão Magno diz que ‘a paixão de Cristo se prolonga até ao fim dos séculos’  e Pascal escreveu que ‘Cristo estará em agonia até ao fim do mundo’. A Paixão prolonga-se nos membros do corpo de Cristo. São herdeiras das ‘piedosas mulheres’ as muitas mulheres, religiosas e leigas, que hoje estão ao lado dos pobres, dos doentes de Sida, dos encarcerados, dos rejeitados pela sociedade. A elas crentes ou não Cristo repete:  ‘A mim o fizestes’ (Mt 25, 40).”

EUCARISTIA E CRUZ

Sexta-feira Santa de 25 de março de 2005, foi a última do pontificado de São João Paulo segundo, que morreria dias depois, em 2 de abril. Nesta ocasião, Frei Raniero iniciou sua homilia indagando porque justamente na Sexta-feira Santa a Igreja se abstém de celebrar a Eucaristia, que é o memorial da Paixão”. Ele mesmo responder:

“Existe nisto uma profunda razão teológica. Quem se faz presente no altar em cada Eucaristia é Cristo ressuscitado e vivo, não um morto. Por isso, a Igreja abstém-se de celebrar a Eucaristia nos dois dias nos quais se recorda Jesus que jaz morto no sepulcro e a sua alma está separada do corpo (mesmo se o não está da divindade). O fato que hoje não se celebra a Missa não atenua por isso, mas fortalece, o vínculo entre a Sexta-Feira Santa e a Eucaristia. A Eucaristia está para a morte de Cristo como o som e a voz estão para a palavra que fazem ressoar no espaço e chegar aos ouvidos”.

Recordando hino eucarístico Ave Verum Corpus, composto no século XIII para acompanhar a elevação da hóstia na missa, o pregador afirmou que ele é de igual modo adequado para saudar a elevação de Cristo na cruz:

São João Paulo II reza com um crucifixo, na Sexta-feira Santa de 2005 (foto: Arquivo/Vatican Media)

Ave verdadeiro Corpo nascido da Virgem Maria!
Tu sofreste verdadeiramente e imolaste-te pelo homem na cruz.
Do teu lado trespassado saiu sangue e água.
Sê para nós penhor no momento da morte.
Ó Jesus doce, ó Jesus piedoso, ó Jesus filho de Maria!

O Capuchinho explicou que:

“O corpo de Cristo presente no altar é definido “verdadeiro” (verum corpus), para o distinguir de um corpo puramente ‘simbólico’ e também do corpo “místico” que é a Igreja”.

Por fim, Frei Raniero conclui:

“O sinal mais evidente da unidade entre Eucaristia e mistério da cruz, entre o ano eucarístico e a Sexta-Feira Santa, é que nós podemos agora usar as palavras do Ave verum, sem mudar uma sílaba, para saudar Cristo que daqui a pouco será elevado na cruz diante de nós”.

A FÉ QUE VENCE O MUNDO

Na Sexta-feira Santa de 29 de março de 2013, Ano da Fé e primeiro do pontificado do Papa Francisco, Frei Raniero refletiu sobre a fé que salva e que vence o mundo.

“A fé – apropriação, pela qual tornamos nossa a salvação operada por Cristo e nos vestimos do manto da sua justiça. Por um lado, temos a mão estendida de Deus, que oferece a sua graça ao homem; por outro, a mão do homem, que se estende para recebê-la mediante a fé. A ‘nova e eterna aliança’ é selada com um aperto de mão entre Deus e o homem.

O pregador continuou que nesse dia, os cristãos têm a possibilidade de tomar a decisão mais importante de suas vidas, “aquela que nos abre de par em par os portões da eternidade: acreditar!”

“Acreditar que ‘Jesus morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação’ (Rm 4, 25)! Numa homilia pascal do século IV, o bispo proclamava estas palavras excepcionalmente contemporâneas e, de certa forma, existenciais: ‘Para cada homem, o princípio da vida é aquele a partir do qual Cristo foi imolado por ele. Mas Cristo se imola por ele no momento em que ele reconhece a graça e se torna consciente da vida que aquela imolação lhe proporcionou’.”

Ainda nas palavras de Cantalamessa, a cruz separa os crentes dos não crentes, porque, para alguns, ela é escândalo e loucura, e, para outros, é poder de Deus e sabedoria de Deus (cf. I Cor 1, 23-24)”.

“A urgência decorrente de tudo isto é evangelizar: ‘O amor de Cristo nos impele, ao pensarmos que um só morreu por todos’ (II Cor 5,14). Impele a evangelizar! Vamos anunciar ao mundo a boa notícia de que ‘não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus, porque a lei do Espírito que dá vida em Cristo Jesus nos libertou da lei do pecado e da morte’ (Rm 8, 1-2).”

(Publicada originalmente em 10 de abril de 2020)

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