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O excesso de diagnósticos e medicalização na infância e adolescência

Mesmo os mais desavisados já perceberam o crescente número de diagnósticos que estão sendo feitos nas mais diferentes etapas da infância e adolescência. 

“Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada sete crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos no mundo apresenta algum transtorno mental. No Brasil, o quadro é ainda mais alarmante. Dados do Ministério da Saúde (2022) indicam um aumento de 34% nas prescrições de metilfenidato – princípio ativo da Ritalina, entre 6 e 17 anos, nos últimos cinco anos [de 2017 a 2022].” (O Estado de S. Paulo, 08/09/2025). 

As escolas estão lotadas de crianças com diagnósticos em suas salas de aula e, certamente, não estão preparadas para o manejo dessa situação. Professores se sobrecarregam, adoecem, não conseguem lidar de modo adequado com as diferentes demandas de inclusão e ficam perdidos em relação ao trabalho a ser desenvolvido. Há um deslocamento da função pedagógica para funções clínicas às quais eles não estão preparados e quase não recebem apoio técnico que os capacite para o enfrentamento dessa realidade. 

Para além de tudo isso, é urgente que se reflita sobre a causa desse aumento considerável no número de diagnósticos. É verdade que a crescente conscientização sobre os transtornos no neurodesenvolvimento e o maior acesso a profissionais que realizam diagnósticos podem ser fatores que contribuam para esse crescimento percentual. No entanto, não se pode negar uma tendência à patologização da infância. 

Muitos comportamentos naturais em crianças, que precisam simplesmente de um manejo adulto adequado para que possam ser progressivamente superados, acabam se tornando sinais de “transtorno”, na medida em que os adultos estão incapacitados a educar bem suas crianças. 

Crianças são ativas, exploradoras e agitadas, e isso é natural. No entanto, parece que as expectativas dos adultos, seja na família, seja nas escolas, estão desalinhadas com a realidade infantil. Estes, em vez de se dedica-rem a compreender os comportamentos infantis e lapidá-los, encaminham para o diagnóstico e, quase sempre, medicamentos. É preciso que nos conscientizemos de que nem todo sofrimento ou dificuldade na infância é transtorno e, muito menos, passível de medicação. 

Aliás, mesmo nos verdadeiros quadros de transtorno, nem sempre a medicação é o recurso mais adequado. Sempre se faz necessária, sim, uma intervenção de orientação dos pais e adequação do ambiente para que os sintomas sejam minimizados e a criança possa se desenvolver bem. 

Em 2022 foi realizado, no campus de Ribeirão Preto da USP, um estudo em que foram avaliadas 43 crianças com diagnóstico médico de TDAH e destas apenas três preencheram os critérios diagnósticos quando foram submetidas a escalas específicas de avaliação. Além da banalização do diagnóstico, o mais preocupante, segundo a pesquisadora responsável, a doutora Alícia Coraspe, é o uso generalizado de metilfenidato, um dos principais medicamentos usados no tratamento desse transtorno. A grande maioria das crianças submetidas ao uso do medicamento não apresentava melhora significativa nos comportamentos difíceis apontados pela família e pela escola. Isso mostra, portanto, que se torna urgente abordagens de natureza comportamental e psicossocial e que a medicalização não deve ser a primeira, muito menos a única estratégia para o tratamento. 

É urgente que as famílias se conscientizem de seu papel estruturante na vida da criança. Antes de diagnosticar e de medicá-la, vamos educar, formar, orientar. Deve-se proporcionar um ambiente melhor para o desenvolvimento da criança e, somente depois disso, pensar na possibilidade de que ela tenha algum transtorno. 

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