Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

O preço do uniforme

A banalização da pornografia na sociedade ganhou, recentemente, mais um infeliz capítulo nas páginas dos jornais: o Corinthians anunciou seu mais novo patrocinador, uma plataforma de “conteúdo adulto”, em um contrato que pode chegar a R$ 31 milhões até dezembro de 2027. A partir de hoje, o logo da empresa – cuja renda advém de assinaturas de acesso a vídeos e fotos pornográficos – ficará estampado nos uniformes dos times de futebol, futsal e basquete masculinos.

A gravidade moral de uma decisão como essa é difícil de ser colocada em palavras. Modalidades esportivas acompanhadas por milhões de pessoas e praticadas por indivíduos de todas as idades se transformarão em vitrines para atividades que degradam o ser humano, objetificam as mulheres e corrompem a sociedade. Crianças verão seus próprios ídolos normalizando em seus uniformes uma das indústrias mais obscuras da atualidade, cujos efeitos nocivos se fazem presentes naqueles que assinam, produzem e estimulam seu “conteúdo”.

É impossível citar em um único texto todas as nefastas consequências da pornografia na vida individual das pessoas. Há inúmeros estudos que associam, por exemplo, o aumento da violência em quem assiste a ela e em quem a pratica. Os consumidores habituais tornam-se indivíduos dessensibilizados, muito menos capazes de empatia com o próximo ou de compadecer-se dele. Esse consumo chega, inclusive, a reduzir o volume da massa cinzenta no cérebro, aumentar a ansiedade, estimular ideações suicidas e favorecer o vício dopaminérgico. Todos esses efeitos, sem exceção, são agravados quanto mais cedo e quanto maior a frequência com que se consomem esses conteúdos.

Os efeitos, entretanto, não se limitam apenas ao âmbito individual. Pelo contrário, toda a sociedade é afetada por eles. A indústria pornográfica está diretamente ligada ao tráfico sexual, abuso de menores e ao aumento da exploração sexual de crianças. Tudo isso sem trazer nenhum benefício, independentemente do ângulo que se analise, a ninguém. Por mais que, no caso específico da patrocinadora do Corinthians, se tenha alguma espécie de verificação para garantir que as “modelos” sejam maiores de idade e realizem seus atos de forma consentida, o “crescimento do mercado” como um todo favorece também todas as outras empresas que operam na ilegalidade.

Tudo isso que foi dito, obviamente, não é novidade para os dirigentes do clube ou reguladores do futebol. Antes de aceitar um patrocínio, passa-se por uma série de análises e verificações jurídicas, de compliance, avaliações dos prós e contras. Além disso, são informações públicas, disponíveis a qualquer um que busque se informar. O espantoso é que, mesmo com essas informações em mãos, optaram por seguir em frente. Disseram seu sim. Aceitaram ser um veículo propagador da corrupção moral, desde que recebam alguns milhões em contrapartida.

Dificilmente os responsáveis por tomar essa decisão concordem que seus filhos sejam expostos à propaganda pornográfica. Quando eles são os beneficiários disso, contudo, não se importam em deixar que crianças apaixonadas pelo esporte ou inspiradas por seus heróis de campo sejam apresentadas, jogo após jogo, a uma empresa que faz disso sua atividade principal. Não se importam que, quando elas comprarem os uniformes de seu time, elas mesmas – crianças – acabem, por tabela, divulgando-a. Este é o mais recente exemplo ilustrativo de que, quando estamos dispostos a vender nossa moral e valores, é porque, no fundo, não temos nem moral nem valores.

Como católicos, é nosso trabalho e papel ser sal da terra e luz do mundo. Isso significa, em muitas situações, apontar a verdade, ensinar a moral, fazer o correto. Todavia, Nosso Senhor nos diz também que “o reino dos céus adquire-se à força, e são os violentos que o arrebatam” (Mt 11,12). Dessa forma, a luta espiritual pela santidade também exige coragem para enfrentar, na vida social, estruturas que banalizam o pecado e o humano. Que não nos conformemos com uma cultura que transforma o pecado em espetáculo e a dignidade humana em mercadoria.

Deixe um comentário