Fixando o olhar sobre Mateus na coletoria de impostos, Jesus o chamou à conversão e a ser discípulo: ‘Segue-me!’ (Mt 9,9). O publicano não hesitou em aceitar o convite. Provavelmente, já havia presenciado as pregações do Mestre, cujas palavras cheias de verdade e de caridade ecoavam na sua consciência. Bastou apenas um convite explícito para que Mateus finalmente permitisse que Deus conduzisse a sua existência. ‘Segue-me’!… E eis que se iniciou um percurso repleto de felicidade, entrega e, principalmente, da graça de Deus, que faria de Levi um apóstolo, um evangelista, um mártir e um santo.
A simplicidade do relato feito pelo próprio Mateus deve interpelar também a nós. Mesmo em um mundo que volta a ser pagão, muitas pessoas estão abertas e, no fundo, desejosas do chamado de Deus! A quantos Jesus tem preparado há anos ou mesmo décadas, dotando-os de qualidades naturais, de boa vontade e, acima de tudo, concedendo-lhes graças especiais em vista de sua própria conversão, de uma vocação e da felicidade eterna! Tantos ainda vivem “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2,12) e necessitam somente que alguém lhes olhe nos olhos com sinceridade e bondade de cristão e diga: ‘Siga o Senhor!’, ‘Abrace esta vocação’, ‘Coragem!’
A que se deve nossa falta de audácia para propor ao próximo a fé em Cristo, uma determinada vocação ou as exigências morais do Evangelho? Talvez tenhamos pouca fé e pouca coerência de vida, o que nos leva a paralisar-nos, receosos. Ou, quem sabe, sejamos retidos pelos respeitos humanos, pela vaidade, pelo medo de ‘levar um fora’ e parecer intrusivo. Mas pode ser, também, que, além das razões (irracionais) acima, falte-nos sobretudo compaixão. A misericórdia foi uma das grandes forças que moveram Nosso Salvador neste mundo. Por ela, Jesus ensinou, fez milagres, sofreu, gastou-se e aceitou a Morte de Cruz, já que sabia das graves consequências do afastamento de Deus nesta vida e na eternidade.
Como o Samaritano da parábola que, por compaixão, não desviou os olhos, não temeu sujar as mãos com as feridas alheias e, menos ainda, preocupou-se com o que os demais poderiam pensar por carregar um estrangeiro estropiado em sua montaria, Jesus nunca teme chamar-nos à saúde e à conversão, nem mesmo nos períodos da vida em que estamos mais desorientados. Por isso, diante dos que se escandalizavam com o fato de que falasse com pecadores e mesmo se sentasse à mesa com eles, Jesus respondeu: “Aprendei, pois, o que significa: quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 9,13).
A salvação havia entrado na casa de Mateus. Por meio dele, entraria também na vida de muitos outros publicanos, como, por exemplo, Zaqueu (cf. Lc 19,1ss). O futuro evangelista convidou seus amigos para conhecer o Mestre, pois teve a mesma misericórdia que o Senhor tivera com Ele. Quis dar-lhes Aquele que descobrira ser o Tesouro. Podemos nos perguntar: tenho essa mesma misericórdia? Quem espera o meu convite em nome de Jesus? Jesus é, de fato, meu tesouro? Quero compartilhá-Lo?




