A publicação da encíclica Magnifica humanitas (MH), do Papa Leão XIV, insere a inteligência artificial (IA) em um debate que ultrapassa a esfera tecnológica e alcança questões éticas, sociais e comunicacionais. O tema dialoga, diretamente, com a história da comunicação e seus impactos sobre a forma como a sociedade constrói sentidos, interpreta a realidade e estabelece relações.
Ao longo dos séculos, cada revolução tecnológica alterou, profundamente, os processos comunicacionais. Da prensa móvel às redes sociais, as tecnologias ampliaram o acesso à informação, mas também remodelaram percepções e estruturas de poder. Hoje, a inteligência artificial inaugura um capítulo desta trajetória. Como alerta a encíclica, “a Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos” (MH 1).
As duas imagens bíblicas evocadas pelo Papa no documento – a Torre de Babel e Jerusalém – sintetizam um dos principais desafios contemporâneos. Babel representa a uniformização, a concentração de poder e a crença de que a técnica pode substituir a dimensão humana. Jerusalém simboliza a construção coletiva, a escuta e a valorização da diversidade (MH 7-8).
Um dos alertas mais originais da encíclica refere-se ao valor do limite e do erro. Em uma sociedade que busca otimizar tudo, corre-se o risco de desejar eliminar até mesmo a fragilidade humana. Contudo, “o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites” (MH 118). E o Papa acrescenta: “Para um algoritmo, o erro é algo a corrigir; para uma pessoa, pode ser o início de uma mudança profunda” (MH 128). Se a IA passar a antecipar respostas e substituir o esforço da reflexão, poderá comprometer justamente aquilo que impulsiona o amadurecimento humano.
Outro ponto crucial refere-se ao controle da informação. Poucas empresas concentram dados e capacidade de influenciar o imaginário coletivo (MH 95; 136). Soma-se a isso a possibilidade de a IA recriar imagens, vozes e acontecimentos, produzindo narrativas convincentes sobre fatos que jamais existiram. Em uma época marcada por “cegueira espiritual e cultural”, o Papa alerta para o risco de se romper com a memória histórica e naturalizar versões artificiais do passado (MH 204).
Diante desse cenário, a educação torna-se indispensável. Educar para a IA significa ensinar não apenas a utilizá-la, mas também a desenvolver pensamento crítico, discernimento e amor à verdade.
O debate, portanto, não é sobre rejeitar a inteligência artificial, mas sobre definir qual humanidade se deseja construir: uma nova Babel, guiada pela eficiência absoluta, ou uma civilização do amor, na qual a tecnologia esteja verdadeiramente a serviço da pessoa humana.




