Magnífica humanidade (Magnifica humanitas), a primeira encíclica do Papa Leão XIV, traz uma mensagem de esperança e propõe o crescimento humano até a plenitude, fundamentado em Jesus Cristo para a construção de um mundo mais justo e comprometido com o desenvolvimento integral da pessoa. “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”: este é o alerta central do documento. A IA, embora ofereça benefícios inegáveis, deve ser orientada para o bem comum. Mais do que utilizar a tecnologia, é fundamental “permanecer humanos”, não dominados por ela.
Se a Rerum Novarum abordou as “coisas novas” decorrentes da industrialização, a Magnífica humanidade focaliza as grandes inovações contemporâneas: a inteligência artificial e a robótica, com suas ambiguidades, capazes de melhorar as condições de vida, mas também de ampliar desigualdades. Diante dessa realidade, a encíclica questiona: Para onde vamos? Em relação a que objetivo desejamos nos orientar? Qual direção devemos escolher como povo e como comunidade humana?(MH 6)
Para responder a estas questões, Leão XIV recorre a duas passagens bíblicas. A primeira é a da torre de Babel (cf. Gn 11,1-9), símbolo do fracasso do orgulho humano ao tentar alcançar o céu com os próprios meios, resultando em confusão e dispersão. Em contraposição, o Papa apresenta Neemias que, após o exílio na Babilônia, lidera a reconstrução de Jerusalém de forma compartilhada e participativa. Com Deus no centro da vida coletiva, não se restauram apenas as muralhas, mas também as relações humanas.
A encíclica se estrutura em cinco capítulos. Em apertada síntese, no primeiro, “Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho”, o documento mostra uma Igreja que caminha na história dialogando com as ciências humanas. O segundo,” Fundamentos e Princípios da Doutrina Social da Igreja”, reafirma a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a destinação universal dos bens e a subsidiariedade, com a responsabilidade dos Estados em garantir regras justas e efetivas para garantir emprego, acesso a serviços, gestão de dados e ambientes digitais. (MH 71)
O terceiro capítulo, “Tecnologia e Domínio”, alerta para o crescimento do poder político e econômico dos detentores da tecnologia, exigindo responsabilidade, prudência e transparência no uso da IA. Em favor da uma justiça social, torna-se necessária uma utilização ética e partilhada dos benefícios gerados pelos dados coletados, pois somente o ser humano possui coração capaz de compaixão e cuidado com as necessidades dos outros. (MH 119)
O quarto capítulo, “Verdade, trabalho e liberdade”, destaca a importância da educação, da proteção ao emprego e do compromisso com a verdade diante da manipulação da informação e exploração de dados. “É certamente desejável que a tecnologia alivie os seres humanos de tarefas árduas, repetitivas ou perigosas e forneça apoio inteligente à atividade humana. No entanto, a proteção das oportunidades de emprego e o papel insubstituível do indivíduo devem continuar a ser a regra geral.” (MH 152) “Ainda hoje, o colonialismo assume novas formas. Não domina mais apenas corpos, mas se apropria de dados, transformando vidas pessoais em informações exploráveis.” (MH 178)
O quinto capítulo, “A cultura do poder e a civilização do amor”, propõe que devemos nos desarmar das palavras e dos preconceitos, para construir a paz por meio da justiça social. (214) Neste contexto, Leão XIV relembra um trecho do Papa Francisco: “Há momentos em que, para permanecermos humanos, devemos deixar de lado nossas reservas e tomar uma posição. Em alguns conflitos, é injusto permanecer neutro, nem é suficiente meramente afirmar que não somos cúmplices.” (MH 216)
“Para construir a civilização do amor, devemos nos engajar no diálogo, pois este é o principal meio de convivência entre pessoas e nações, e é a alternativa para o conflito aberto. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o Papa Pio XII afirmou que nada se perde com a paz, enquanto com a guerra tudo pode ser perdido. Ele insistia que as pessoas devem voltar a falar umas com as outras, porque um diálogo sincero e perseverante sempre abre a possibilidade de uma solução honrosa” (MH 219).




