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Só uma presença muda

Só uma presença muda
Sergio Ricciuto Conte

“O ferro se afia com o ferro e o homem melhora na presença de outros homens” (Pr 27,17). Não há, efetivamente, outro modo. Nós, humanos, precisamos estar diante de outros humanos para nos tornar o que somos, e isso, para o bem e para o mal. Apesar da inconsistência nas evidências retiradas dos vários casos de “meninos ou meninas lobo” (crianças encontradas abandonadas nas selvas, que cresceram, provavelmente, sem a presença humana – confira, por exemplo, a história do jovem Victor de Aveyron), admite-se que nossas características humanas são desenvolvidas exclusivamente na presença de outros humanos. 

O modo de pensar, os símbolos que utilizamos e até os limites da nossa percepção se dão, em grande medida, nesta interação que ocorre, de fato, desde a concepção. Inúmeras pesquisas demonstraram que o bebê humano, desde o período uterino, já está absorto em um sem número de estímulos ambientais que ele não apenas acolhe passivamente, mas os decodifica e interpreta ativamente: sons, proteínas, agentes químicos, estresses próprios do entorno e da maneira como a gestante enfrenta seu ambiente. Assim, ao nascer, rapidamente o bebê distingue a voz da mãe de outras vozes. Mas não apenas o som. Crianças chinesas adotadas tenramente por pais ocidentais, ao serem estimuladas a aprender o idioma oriental, aprendem-no mais rapidamente. É o indicador de que somos expostos não apenas aos sons e ruídos do nosso entorno, mas a padrões complexos de linguagem. Igualmente, bebês, nas primeiras horas de vida, demonstram preferência por rostos humanos e reagem a esses estímulos mais do que a outros. 

O Cristianismo é a história de um Deus que, de tanto amar sua criação, quis se tornar um de nós, sendo Ele presença carnal, palpável, submetendo-se aos limites do tempo e do espaço. Tinha sotaque (cf. Mt 26,73; Lc 22,59), valores, trejeitos e fisionomia próprios do fato de ter sido filho de Maria e José em uma cidade periférica do então Império Romano (Nazaré). Não obstante, por ser Deus, manifesta-se como presença que vem atravessando os mesmos limites do tempo e espaço: “Estarei convosco até o fim dos séculos” (Mt 28,20). E como Ele se faz presente hoje? Nós, católicos, cremos em sua presença física por meio da Eucaristia (Corpo e Sangue de Cristo que se doam) e em sua presença espiritual por meio daqueles que O reconhecem e são tomados por Ele (tornam-se Seu rosto), todos nós, batizados. Deixar-se tocar por Deus. Abrir a guarda, ter um olhar mudado por Ele, significa deixar-se tocar por Cristo na Eucaristia e por aqueles que Ele usa para se fazer Presença. 

Aqui, uma vez mais, temos muito a aprender com Nossa Senhora, que, deixando-se continuamente surpreender por Deus em seu filho, vivia com os olhos “admirados e abertos”. Você já viu como são belos os olhos de quem vive admirado (e agradecido) por tudo que o rodeia? Era cheia de graças, não pecava contra Deus, confiava que iria ocorrer o que Deus, que é Pai, melhor aprouvesse. Tal posição existencial fez com que se abrisse mais ainda para o Mistério que era seu filho. Aquele menino não cabia nas suas –

nem de qualquer outro! – medidas! Não querer que Deus se encaixe em nossa razão, mas, ao contrário, deixar que a razão se abra para Deus: eis a posição que devemos almejar para sermos, enfim, mudados por Sua misteriosa, mas cotidiana, presença.

Dener Luiz da Silva é professor de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). 

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