
A palavra “memória” atravessa a trajetória de Maria Angela Borsoi nos gestos mais discretos: está no altar da Basílica de Sant’Ana, que lhe recorda o Matrimônio dos pais e o próprio Batismo; também nas lembranças de uma vida dedicada à Igreja; na convivência comunitária; e no trabalho de registrar acontecimentos da Arquidiocese de São Paulo para que não fossem apagados pelo tempo.
Nascida em 10 de março de 1939, Maria Angela é a primeira filha do imigrante italiano Fausto Borsoi e da descendente italiana Anita Del-Fre. Hoje, aos 87 anos, a leiga consagrada reúne em sua história 19 anos de atuação no Arquivo Metropolitano de São Paulo. Em cada documento, ajudou a preservar parte da história da Igreja na capital paulista.
Apesar da fragilidade física própria da idade, ela afirmou ao jornal O SÃO PAULO que conserva, com lucidez, as lembranças mais marcantes dessa caminhada.
EM UM MESMO ALTAR
A família, marcada pela prática da fé e pela vida religiosa, com quatro tias religiosas, estabeleceu-se no bairro de Santana, na zona Norte da capital paulista, e transmitiu a ela uma herança que define sua trajetória: o amor a Deus.
“Quando me recordo, o coração fica cheio, porque foi graças a essa família de imigrantes que tudo começou para mim. Quando entro na Basílica de Sant’Ana, lembro que foi ali que a minha vida começou. Meus pais se casaram naquele altar, em uma missa no dia 13 de maio de 1938. No ano seguinte, eu nasci, a primogênita de cinco filhos, e fui batizada ali com apenas sete dias de vida, naquela pia batismal de ‘marmorezinho’. Tudo isso é muito forte para mim”, recordou Maria Angela.
Esse legado despertou nela o desejo de consagrar-se à Igreja. Entre 1960 e 1971, integrou o grupo feminino da Ação Católica, no qual viveu sua primeira experiência de consagração. Com a conclusão do Concílio Vaticano II, porém, o grupo passou por reformulações, e Maria Angela, assim como outras integrantes, deixou de fazer parte dele.
A consagração definitiva como leiga ocorreu em 1972. No contexto das mudanças promovidas após o Concílio Vaticano II, a então Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, durante o pontificado de São Paulo VI, promulgou o rito da Consagração das Virgens, o Ordo Virginum, criando uma forma de consagração feminina vinculada diretamente à Igreja particular.
O CHAMADO AO SERVIÇO

Formada em Nutrição, Maria Angela sempre cultivou uma rotina de oração e dedicação à vida eclesial. Sua relação com a preservação da história da Igreja em São Paulo começou, assim como toda a sua caminhada de fé, na então Paróquia de Sant’Ana. Foi ali, em 1966, que conheceu Dom Paulo Evaristo Arns, com quem trabalhou por quatro décadas como secretária.
Como atuava apenas meio período como nutricionista, passou a se envolver mais intensamente nas atividades da comunidade. No início do ministério de Dom Paulo como Bispo Auxiliar de São Paulo na Região Episcopal Santana, ela foi convidada a integrar uma equipe missionária dedicada à divulgação dos documentos do Concílio Vaticano II nas paróquias.
O grupo, composto de cerca de 30 leigos, recebeu formação intensa. Naquele período, Maria Angela desenvolveu habilidades de secretariado. Por ser a única integrante que dominava a datilografia, passou a secretariar os encontros da equipe. Mais tarde, começou a auxiliar Dom Paulo na redação de cartas episcopais. Embora inicialmente insegura diante da responsabilidade, aceitou a missão. Assim teve início sua ligação com a preservação da história da Igreja de São Paulo.
AS CRÔNICAS
Entre as atividades que assumiu nos primeiros anos como secretária estava a redação do livro das crônicas, também conhecido como livro do tombo.
Sem alguém responsável pela função, já que o sacerdote anteriormente encarregado havia sido transferido, Dom Paulo pediu que ela assumisse a tarefa. Diante da insegurança de Maria Angela, ele apresentou-lhe o livro e sugeriu um método simples: a partir de anotações feitas em uma pequena agenda pessoal, ela deveria or organizar e registrar os acontecimentos mais importantes.
Com o passar do tempo, passou a documentar de maneira sistemática os principais fatos da Região Episcopal Santana.
Quando Dom Paulo foi nomeado Arcebispo de São Paulo, em 1970, sucedendo a Dom Agnelo Rossi, Maria Angela deu continuidade à atividade de cronista. Naquele momento, já havia produzido inúmeras páginas de registros, consolidando uma atuação que se tornaria fundamental para a preservação da memória arquidiocesana.
NO ARQUIVO, A CONSOLIDAÇÃO DE UMA MISSÃO

A dedicação à memória da Igreja encontrou continuidade natural no trabalho com o acervo histórico, especialmente após a mudança de Dom Paulo para Taboão da Serra (SP), na região metropolitana de São Paulo.
Depois de anos de convivência e aprendizado, foi incentivada pelo próprio Dom Paulo a assumir essa nova etapa. “Eu sabia que esse seria o meu destino, pois Dom Paulo amava o Arquivo e acreditava que só eu conhecia todos aqueles registros”, recordou. Assim, no fim de 2007, começou a atuar no Arquivo Metropolitano de São Paulo.
Ao chegar, encontrou um acervo organizado fisicamente, mas ainda sem catalogação sistemática. Entre os maiores desafios estava o conjunto de fotografias acumuladas ao longo de décadas. Maria Angela iniciou, então, um trabalho minucioso de identificação e organização.
Foram anos dedicados à catalogação de mais de 8 mil imagens, analisadas individualmente com o auxílio de agendas e registros antigos. Um trabalho paciente e rigoroso, que contribuiu para preservar parte significativa da história da Arquidiocese.
“Comecei a trabalhar no Arquivo em 2007 e fiquei lá por 19 anos. Fui aprendendo nos cursos sobre organização de arquivos eclesiásticos e preservação documental. Aprendi muito também na prática”, afirmou.
EXEMPLO PARA QUEM FICA
Para Jair Mongelli, diretor técnico do Arquivo Metropolitano de São Paulo, com quem Maria Angela trabalhou ao longo destas quase duas décadas, a atuação da leiga consagrada representa um compromisso permanente com a preservação da história da Arquidiocese: “Ela é, sem dúvida, uma das pessoas imprescindíveis para o testemunho histórico da vida e da obra de Dom Paulo Evaristo Arns. E, além disso, guarda essa memória no lado esquerdo do peito.”
Agora aposentada, Maria Angela continua compartilhando as memórias de Dom Paulo e da Arquidiocese de São Paulo no Facebook (@maria.angela.borsoi), sendo considerada por muitos como uma “influenciadora” da história da Igreja da grande metrópole.




