Deus vê e escuta toda a realidade… e nós nos maravilhamos

Deus vê e escuta toda a realidade… e nós nos maravilhamos, Jornal O São Paulo

“A fé é um exercício do olhar”, a frase do sacerdote italiano Luigi Giussani bem poderia servir de epígrafe para essa edição do Caderno Fé e Cultura – ainda que, nos textos a seguir, talvez fosse melhor dizer que a fé é um exercício do olhar e do escutar. Um ver e um ouvir que se referem sobretudo à beleza que se esconde no real, que apaixona os amantes e revela, de forma maravilhosa, para aquele que tem fé, o desígnio bom de Deus.

Deus nos “primereia”, para usar o neologismo criado pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudium (EG 24). Somos convidados a ver o mundo como Deus o vê, lembra nossa colaboradora beneditina, monja italiana que, num exercício de humildade, pede para não ter seu nome publicado no jornal. O olhar de amor com o qual Deus vê o mundo e se dá conta que todo o criado é bom (Gn 1, 1-25), prenuncia o olhar de Cristo, que penetra no íntimo de seus interlocutores e os convida à vida nova. Como lembra nossa colaboradora, será o olhar dirigido a Jesus, em resposta ao Seu olhar para com eles, que permitirá aos discípulos segui-Lo, vê-Lo ressuscitado, transfigurado. “Todo o caminho de fé e de apostolado que fizeram parte do olhar que dirigiram a Jesus”.

Para ilustrar a dinâmica desse olhar com o qual Deus vê toda a realidade e a tensão do ser humano que O procura, muitas vezes às apalpadelas, como um cego em meio a uma cena iluminada, sugerimos o filme A árvore da vida, de Terrence Malick. Considerado uma das obras primas do cinema nessas primeiras décadas do século XXI, seu mise en scène recupera justamente o entre a grandiosidade do olhar de Deus, que pode contemplar todo o tempo e todo espaço da criação, e seu misterioso carinho, ao se deter e se desvelar por aquela pequena criatura que cada um de nós é.

Narciso Yeppes (1927-1997), foi um dos grandes violonistas espanhóis do século XX. Trazemos, nessa edição do Caderno Fé e Cultura, um trecho de uma entrevista na qual explica que, em seus concertos, tocava não tanto para a plateia, mas sim para Deus – e como Ele se encantava com isso, até mesmo quando o músico se esquecia de sua intenção. O leitor verá que não se trata de uma pretensão arrogante, de considerar-se tão bom a ponto de encantar até o Divino. Yeppes se percebia amado e sabia que Aquele que o amava iria sem dúvida ficar contente com tudo que Lhe fosse oferecido – como os pais sempre se alegram com qualquer presente que recebem de seus filhos pequenos, por mais toscos e singelos que sejam.

Em Minas Gerais fomos encontrar a arte do violeiro Chico Lobo e da poetisa Adélia Prado. Alicerçados na tradição popular, ambos nos testemunham o maravilhamento do ser humano ao descobrir a beleza do amor de Deus nas tramas do cotidiano, na grandiosidade da natureza e no coração de cada um de nós.

A música caipira tem uma temática diferente do chamado “sertanejo”. Ela está voltada à grande aventura da existência, com sua beleza, que permanece fascinante em meio a êxitos e fracassos. Por isso, frequentemente ganha um tom de celebração. Nesse contexto, o violeiro Chico Lobo mostra o sertão como lugar do encontro com o Outro. Em suas palavras, o que o move e o leva a cantar a esperança, é a sua fé, “ter um ponto onde olhar, ter amizades concretas que me remetem a Cristo”.

Por fim, Cecília Canalle nos apresenta o sentido mais profundo da obra de Adélia Prado. Na sua poesia e na sua prosa, a autora mineira, nos mostra que “a vida pode ser fabulosa em sua repetição miúda e sem glamour, sem likes, nem seguidores, da vida anônima e pálida emana uma luz, que nos permite reconhecer a beleza daquilo que realmente tem valor – nos adverte Cecília.

Que esses testemunhos e essas reflexões nos ajudem a contemplar, em toda a realidade, a beleza e o fascínio do amor de Deus, para que “nossas lutas e a nossa preocupação não nos tirem a alegria da esperança” (cf. Laudato si’, LS 244).

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