
Na terceira etapa de sua longa jornada pelo continente africano, o Papa Leão XIV passou por Angola, de 18 a 21 de abril, e fez denúncias importantes. “Hoje, vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, desfrutados pelos prepotentes e enganados pela riqueza”, disse, completando: “Cristo escuta o grito dos pobres e renova a nossa história: de cada queda nos levanta, em cada sofrimento nos conforta, na missão nos encoraja.”
Em fala aos jornalistas, na viagem de avião entre Camarões, segundo país da sua viagem – após a Argélia – e Angola, ele afirmou: “Venho à África principalmente como pastor, como chefe da Igreja Católica, para estar próximo dos católicos em toda a África, para celebrar com eles, para encorajá-los e acompanhá-los.”
Embora suas palavras tenham sido sempre contundentes, contra as desigualdades do continente africano, a violência e a guerra, a exploração desinteressada de seus recursos naturais e a corrupção política e social, ele procurou esclarecer que não tem se referido a nenhum chefe de Estado diretamente, mas que fala por princípios universais.
“Continuamos a proclamar a mensagem do Evangelho, e o texto do Evangelho que estamos utilizando nas liturgias oferece uma série de aspectos diferentes, fantásticos e maravilhosos sobre o que significa ser cristão, sobre o que significa seguir a Cristo, sobre o que significa promover a fraternidade, a irmandade e a confiança no Senhor, mas também buscar maneiras de promover a justiça em nosso mundo, promover a paz em nosso mundo”, declarou à imprensa.

BENS SEM PREÇO
Em sua passagem por Angola, onde pela primeira vez em seu pontificado fez discursos oficiais em língua portuguesa, o Papa afirmou que a cultura e a tradição da fé cristã no país é algo que não tem preço. “Desejo encontrar-vos na gratuidade da paz e constatar que o vosso povo possui tesouros que não se vendem nem se roubam”, afirmou, em discurso às autoridades civis.
“A África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança, que eu não hesitaria em definir como virtudes ‘políticas’, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, não se contentam com o que já existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se em primeira pessoa”, completou.
Diante da “lógica extrativista”, tanto a natureza quanto os povos são deixados de lado, enquanto prevalece a busca incessante pelo poder. “Somente no encontro a vida floresce. No princípio, está o diálogo. Ele não exclui a divergência, que, contudo, pode tornar-se conflito”, disse ainda.

MARIA, MÃE DE TODOS
No Santuário de Maria “Mama Muxima”, Leão XIV rezou o Terço e exaltou a figura de Nossa Senhora no título local. A palavra “Muxima” em língua quimbunda, quer dizer “coração”. “Mama Muxima acolhe a todos, escuta a todos e reza por todos”, comentou. “Tal como Maria, também nós fomos feitos para o Céu, e caminhamos com alegria para o Céu, olhando para Ela, Mãe bondosa e modelo de santidade, para levar a luz do Ressuscitado aos irmãos e irmãs que encontramos.”
Ele também passou por Saurimo, região de Angola de evangelização mais recente – enquanto que em outros lugares a fé cristã chegou com os colonizadores portugueses, no século XVI. Ali, visitou uma casa de repouso para idosos e celebrou a Eucaristia. “Em todas as partes do mundo, a Igreja vive como povo que caminha no seguimento de Cristo, nosso irmão e Redentor”, declarou.
“Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”, denunciou veementemente. “Não nascemos para nos tornarmos escravos nem da corrupção da carne nem da corrupção da alma: toda a forma de opressão, violência, exploração e mentira nega a Ressurreição de Cristo, dom supremo da nossa liberdade.”
Em Luanda, capital angolana, o Papa teve um encontro com religiosos e missionários do país. Em suas palavras de apoio, afirmou que Cristo “não tira nada” e “dá tudo”. Com a imagem do Apóstolo Filipe, que, conforme o Evangelho, pede a Jesus que “mostre o Pai”, ao qual o Mestre responde “quem me vê, vê o Pai”, o Papa enfatizou a importância de cultivar a contemplação. É preciso aprender a educar “a vida interior” para resistir aos momentos mais difíceis e testemunhar melhor a fé.
O MENSAGEIRO DA ESPERANÇA ENTRE OS ANGOLANOS

Na manhã do domingo, 19, mais de 100 mil pessoas participaram da missa presidida pelo Papa na Esplanada de Kilamba, em Luanda. “Assim como a Eucaristia nos recorda de que somos um só corpo e um só espírito, unidos ao único Senhor, também nós podemos e queremos construir um país em que as antigas divisões sejam superadas para sempre, em que o ódio e a violência desapareçam, em que a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha”, disse na homilia, em que advertiu que não se deve confundir as formas de religiosidade tradicional com elementos mágicos e supersticiosos “que não ajudam no caminho espiritual. Permanecei fiéis ao que a Igreja ensina, confiai nos vossos pastores e mantende o olhar fixo em Jesus”.
Ainda no domingo, 19, no Santuário Mariano de ‘Mama Muxima’, milhares de fiéis rezaram o Santo Terço com o Papa. Após a récita, ele exortou: “É o amor que deve triunfar, não a guerra! É isso que nos ensina o coração de Maria, o coração da Mãe de todos. Partamos, pois, deste Santuário como ‘anjos-mensageiros’ de vida, para levar a todos a carícia de Maria e a bênção de Deus”.


Na segunda-feira, 20, o Santo Padre presidiu missa na Esplanada de Saurimo, durante a qual destacou que a Igreja caminha no seguimento de Cristo, aquele que “ilumina as trevas dando a vista aos cegos, dá voz aos oprimidos, soltando a língua dos mudos, sacia a nossa fome de justiça, multiplicando o pão para os pobres e os fracos”, e que o Senhor “escuta o clamor dos povos e renova a nossa história: em cada queda nos levanta, em cada sofrimento nos conforta, na missão nos encoraja”.
Também na segunda-feira, 20, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Luanda, Leão XIV encontrou-se com bispos, sacerdotes, consagrados e agentes pastorais. “Continuai a ser uma Igreja generosa, que colabora para o desenvolvimento integral do vosso país. Para tal, foi e é determinante tudo o que realizais na área do ensino e da saúde. E quando, neste âmbito, sobrevierem dificuldades, trazei à memória o heroico testemunho de fé de tantos angolanos e angolanas, missionários e missionárias aqui nascidos ou vindos do estrangeiro, que tiveram a coragem de dar a vida por este povo e pelo Evangelho, preferindo morrer a trair a justiça, a verdade, a misericórdia, a caridade e a paz de Cristo”.

Em Camarões, Leão XIV exorta a um futuro de justiça e paz

Segunda etapa da viagem do Pontífice à África, entre os dias 15 e 18, Camarões abriga alguns dos conflitos mais negligenciados do cenário global.
Três dias de cessar-fogo marcaram a visita do Papa Leão XIV a Camarões, onde grupos separatistas interromperam os combates para que o Pontífice pudesse visitar o seu povo – guerra civil que já causou mais de 6 mil mortes no país e deixou centenas de milhares de refugiados.
“Os senhores da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes uma vida inteira não é suficiente para reconstruir”, declarou, em um encontro de oração pela paz. “Fingem não ver que são necessários bilhões de dólares para matar e devastar, mas não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reerguer”, prosseguiu.
Em dura crítica ao mercado de armas – na esteira de seus predecessores –, o Papa Leão XIV continuou: “O mundo está sendo destruído por poucos tiranos e é mantido de pé por uma miríade de irmãos e irmãs solidários. A paz não é algo que se inventa: é algo que se acolhe, ao acolher o próximo como nosso irmão e nossa irmã.”
“Vivemos, de fato, em uma época em que a resignação se alastra e o sentimento de impotência tende a paralisar a renovação que os povos sentem profundamente. Quanta fome e sede de justiça! Que grande ânsia de participação, de visões, de escolhas corajosas e de paz!”, disse ele, às autoridades civis do país, cujo presidente, Paul Biya, e seu grupo político estão há 42 anos no poder.
Além disso, uma insurgência jihadista liderada pelo grupo radical islâmico Boko Haram se desenrola no extremo Norte. Os terroristas já mataram mais de 3 mil pessoas e provocaram o surgimento de milícias de autodefesa. Ainda assim, as duas religiões, Cristianismo e Islamismo, conseguem viver em paz. “É a revolução silenciosa da qual vocês são testemunhas”, observou o Papa. “Agradeçamos a Deus por esta crise não ter degenerado em uma guerra religiosa e por todos nós ainda estarmos tentando amar uns aos outros. Sigamos em frente sem desanimar, com coragem e, acima de tudo, juntos, sempre juntos!”
CAMARONESES ACOLHEM O PONTÍFICE

Leão XIV visitou no dia 15 o Orfanato Ngul Zamba, mantido pela Congregação das Filhas de Maria, e que acolhe crianças e jovens de 18 meses a 20 anos. “Vocês formam uma verdadeira família e aqui encontram irmãos e irmãs que partilham com vocês uma história dolorosa. E, nesta família, o seu Irmão mais velho é Jesus! Esta fraternidade, reunida em torno Dele, os torna fortes, os ajuda a carregar juntos os fardos da vida e os faz experimentar a verdadeira alegria”, declarou.
No dia 16, o Papa participou do Encontro pela Paz, em Bamenda, região que há uma década vive uma crise marcada por tensões separatistas, violência e deslocamentos. “O mundo é destruído por poucos dominadores e é mantido de pé por uma miríade de irmãos e irmãs solidários! São a descendência de Abraão, incontável como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia do mar. Olhemo-nos nos olhos: somos já este povo imenso!”


Na missa no Japoma Stadium, em Douala, na sexta-feira, 17, o Pontífice fez pedidos especiais aos jovens: “Sede vós, em primeiro lugar, os rostos e as mãos que levam ao próximo o pão da vida: alimento de sabedoria e de libertação de tudo aquilo que não nos nutre, mas que, pelo contrário, confunde os nossos bons desejos e nos rouba a dignidade… Não cedais à desconfiança e ao desânimo; rejeitai toda forma de abuso e de violência, que iludem, prometendo ganhos fáceis, mas endurecem o coração e tornam-no insensível. Não vos esqueçais de que o vosso povo é ainda mais rico do que esta terra, pois o seu tesouro são os seus valores: a fé, a família, a hospitalidade, o trabalho”.
Ainda no dia 17, Leão XIV participou do Encontro com o Mundo Universitário, na Universidade Católica da África Central, em Iaundê, durante o qual destacou que o mundo precisa de pessoas que se empenhem em viver conforme o Evangelho e coloquem suas competências a serviço do bem comum.




