Relatos e estatísticas confirmam o crescimento de fiéis e o retorno à vivência religiosa nos últimos anos

Dos Estados Unidos a Roma, a presença de fiéis é notoriamente crescente nos últimos anos. Esse crescimento tem repercutido na mídia internacional e chamou a atenção de publicações como o jornal norte-americano The New York Times, que apresentou reportagem mostrando o aumento de conversões e o retorno de fiéis nos Estados Unidos.
Entre os números, impressionam os aumentos em dioceses como Galveston-Houston, apresentando o maior índice em 15 anos. A Arquidiocese de Detroit recebeu 1.428 novos católicos, recorde em 21 anos. Outros números são da Diocese de Moines, com aumento de 51% em comparação a 2025, que foi de 265 para 400.
Já o site católico OSV News trouxe no dia 17 de março dados do novo Diretório Católico Oficial, segundo o qual das quase 620 mil novas entradas na Igreja nos Estados Unidos em 2023, cerca de 13% ocorreram por conversão. Foram 29.752 batismos de adultos e 50.490 pessoas vindas de outras tradições cristãs. O batismo de bebês e jovens continua a ser a principal fonte de novos membros, representando 87% do total.
Em conversa com O SÃO PAULO, bispos, padres e a comunidade de fiéis em diferentes locais afirmaram como suas igrejas têm estado mais movimentadas.
UM CRESCIMENTO MODESTO, MAS CONSTANTE
Dom Cristiano Guilherme Borro Barbosa, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Boston, no estado de Massachusetts, Estados Unidos, conta que neste ano serão 680 adultos batizados durante o período da Páscoa. Há três anos, esse número era 300. De lá para cá, o brasileiro, que reside nos Estados Unidos há 17 anos e, há dois foi nomeado ao episcopado, tem percebido o crescimento das comunidades em geral.
Em sua visão, isso não decorre necessariamente de um trabalho específico da Igreja, mas de um movimento natural das pessoas em encontrar um “verdadeiro sentido para a vida”. Recém-chegados à Igreja, os jovens relatam ao Bispo uma sensação de maior bem-estar ao viverem os sacramentos.
Dom Cristiano, que é responsável pela região central da Diocese de Boston e cuida da comunidade de imigrantes brasileiros e latinos, tem testemunhado essa tendência principalmente em decorrência de um cansaço e preocupação entre os jovens. Esta é a primeira geração nos Estados Unidos, em várias décadas, que viverá endividada e não tem perspectiva de prosperidade, considerando que financiamentos para estudos e moradia, custos com saúde, alimentação e transporte pressionam o futuro desses jovens. O desespero não se limita aos imigrantes.
Diferentemente da vivência brasileira de comunidade, naquele país, para que os trabalhos pastorais aconteçam, é necessário que haja funcionários. “Nos Estados Unidos, não é tão natural [a participação comunitária]; se não há funcionários, eles [fiéis] não fazem, mas estamos vencendo. Temos explicado que isso faz parte de um chamado para a paróquia”, exemplifica o Bispo, reforçando que a dedicação a uma igreja não é o mesmo que voluntariado.
EVANGELIZAR, ACOLHER E ALIMENTAR

Próximo a Boston, também em Massachusetts, a Diocese de Fall River, sob o cuidado pastoral do brasileiro Dom Edgar Moreira da Cunha, oitavo bispo daquela Diocese, batizará, entre jovens e adultos, 110 novos fiéis. Durante a pandemia, o número de batismos caiu significativamente mas nos últimos três anos o aumento tem sido considerável.
Houve treinamento de líderes em paróquias e de padres para que o processo de acolhida fosse dinâmico e participativo aos que querem se batizar.
“Tudo isso tem surtido efeito e estamos vendo um crescimento no número daqueles que desejam se tornar católicos”, enfatiza o Bispo. Ele explica que o maior interesse está entre “jovens e jovens adultos, em torno de 18 a 30 anos”.
Para Dom Edgar, o principal interesse dos novos católicos é a necessidade de participar e de pertencer a uma comunidade de fé.
“Muitas pessoas se sentem isoladas, em solidão, e necessitam de uma comunidade, de apoio, de uma conexão com Deus, com a Igreja e com os sacramentos. Existe uma ausência na vida delas que precisa ser preenchida, e elas procuram preencher esse vazio na fé e na comunidade”, comenta.
O Bispo enfatiza que “a Igreja existe para evangelizar […] Precisamos convidar, mas também oferecer algo àqueles que são convidados: catequese, comunidade, apoio, sacramentos, um espaço de fé no qual as pessoas se sintam acolhidas e não estejam sozinhas. É um processo de acompanhamento, de apoio e de vida comunitária. As pessoas precisam se sentir bem-vindas, apoiadas. A Igreja deve convidar, acolher e alimentar com a Palavra de Deus e com os sacramentos”.
EXPERIÊNCIAS EM ROMA
A realidade em Roma, capital da Itália, tem certa familiaridade com a percepção dos bispos brasileiros que vivem nos Estados Unidos, ainda que moderada, como conta o Padre João Marcos Boranelli, Reitor da Basílica de Sant’Andrea della Valle. Primeira igreja de estilo barroco construída em Roma, em 1590, o espaço é um conhecido ponto turístico.
“No ano passado, talvez pela questão do jubileu, [houve] uma presença muito grande e muitos relatos de visitantes que vinham até a basílica ou que participavam dos momentos que nós promovemos e relataram que estavam, depois de muito tempo, retornando para a Igreja”, relata o Sacerdote. Ele destaca que, entre esse público, foi possível observar uma boa parte de adultos acima dos 30 até 50 anos.
O Reitor conta que a maior parte dos novos católicos que vão à basílica são jovens espanhóis e franceses, especialmente aqueles que estão em experiência de estudo. No contexto dos cidadãos italianos, ainda é pouco perceptível essa procura.
NA CAPITAL DO BRASIL, A MUDANÇA NO CORAÇÃO

Em Brasília (DF), as Paróquias São Frei Galvão e Nossa Senhora do Lago contam atualmente com mais de 350 catequizandos que buscam os sacramentos, entre eles muitos adultos.
Vigário de ambas as paróquias e Assessor para o Setor Universitário da Arquidiocese de Brasília, o Padre Lucas Soares, ordenado há nove meses, conta que mensalmente há muitos batizados e que a tendência é de crescimento.
O Sacerdote relaciona a juventude a essa forte dinâmica de ascensão: “Há um desejo de mudança no coração dos jovens de hoje. Por natureza, o coração do jovem é inquieto, busca ser preenchido por algo grande e não suporta uma fala vazia e sem sentido, pois ele procura sentido para a sua existência”, exemplifica.
Testemunha e personagem desse movimento, o hoje Padre conta que em 2015, durante uma pregação e um momento de oração, sentiu-se “tocado” e experienciou esse “fenômeno” de fé. “A partir disso, algo mudou, cresceu dentro de mim o desejo de fazer a vontade de Deus, de me formar melhor na minha fé católica, e boa parte dessa formação obtive nos meios digitais”, recorda.
Padre Lucas comenta que o papel da Igreja nesse movimento deve ser o de acompanhar e estar “disponível, caminhando junto na vida de fé”.
RELATOS DE CONVERSÃO
Na Arquidiocese de São Paulo, Helena Maria Formenton, fiel da Paróquia São Paulo Apóstolo, na Região Belém, passou por um processo de conversão que levou pouco mais de dez anos. O esposo, católico, pediu que o casamento fosse sacramentado na Igreja. No início, ela conta ter sentido “medo e vergonha”, mas recebeu o pedido com amor e começou a ter contato com as pregações de clérigos como o Monsenhor Jonas Abib, fundador da Canção Nova, e Dom Alberto Taveira, à época Arcebispo de Belém (PA).
A tomada de decisão para o Batismo ocorreu quando a filha mais velha iniciou a catequese e Helena sentiu que não poderia mais “viver sem religião”. Durante o processo, o Padre Reginaldo Tonatoni, então pároco na Paróquia São Paulo Apóstolo, e os à época seminaristas Edson Amaro e Alysson Carvalho, hoje já ordenados padres, ajudaram em sua conversão.
“Costumo resumir isso com algo pessoal: uso uma pulseira com a frase ‘Tarde te amei’. Muitas pessoas estão chegando mais tarde, mas com mais consciência”, finaliza Helena.
CRISMA E ESTALO DE FÉ

A fé na vida de Felipe Passos Malavazi, 23, começou como uma forma de agradar aos pais após conflitos familiares. Depois de muitas tentativas destes em convencê-lo a ingressar na Crisma, ele iniciou o processo e fazia dos encontros um “momento de confronto” com o Padre Luiz Otávio, seja com perguntas curiosas, seja como forma de tentar “dar uma rasteira” no Sacerdote. “Ele sempre me respondeu de maneira muito inteligente e me convenceu de que, de fato, a Igreja estava certa”, finaliza Malavazi.
Entretanto, mesmo após a Crisma, faltava-lhe a vivência concreta da fé. Um ano após receber o sacramento, um “estalo de autocrítica” o levou a assumir, de fato, a prática católica. Hoje, o jovem é cerimoniário na Paróquia Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, no bairro do Taquari, em Brasília.
Malavazi opina que outros jovens têm encontrado a fé por duas vias: por fruto do estudo teológico ou a partir do campo emocional, quando se veem diante de problemas pessoais e pelo convívio social.
DISCERNIMENTO
Já Edgar Niga Serafim, 23, estudante de Ciência da Computação na Universidade de Brasília (UnB), teve um caminho espiritual com buscas sucessivas antes de se converter ao catolicismo. Criado sem uma base religiosa sólida, viveu da descrença até a busca por práticas orientais, espiritualidades contemporâneas e um período no protestantismo.
Sua história inicial com a Igreja foi vaga, mas a grande virada ocorreu pela curiosidade teológica. Após um debate sobre Sola Scriptura (“somente a Escritura”), ele ficou interessado em conhecer os dois mil anos do Cristianismo.
“Por meio desse processo muito honesto de pesquisa, constatei que, de fato, o catolicismo foi aquilo que Jesus instituiu por meio de São Pedro e dos apóstolos. E, a partir disso, vendo debates, lendo e pesquisando, a verdade foi posta fatalmente assim na minha frente”, recorda o jovem, que atualmente frequenta diariamente as missas na UnB e na Paróquia Verbo Divino, em Brasília.




