De Saulo a Paulo: a trajetória do ‘Apóstolo dos Gentios’

‘A conversão de São Paulo’ – arte do séc. XVII – ilustra a experiência mística de Saulo a caminho de Damasco; convertido, adota o nome de Paulo / Arte de Bartolomé Esteban Murillo, do século XVII

Quem foi esse homem, considerado uma das principais colunas da Igreja Católica, responsável pela expansão do Evangelho de Cristo pelo mundo pagão?

Saulo nasceu entre os anos 5 e 10 da era cristã, na cidade de Tarso, Cilícia Oriental (hoje, território da Turquia). Judeu da diáspora, isto é, do grupo que morava fora de Israel, falava grego, tinha um nome de origem latina e possuía cidadania romana. Na adolescência, por volta dos 12 anos, idade do bar mitzvà, cerimônia de passagem do jovem judeu para a “maioridade religiosa”, Saulo deixou Tarso e se mudou para Jerusalém, a fim de ser educado pelo mestre Gamaliel, segundo as mais rígidas normas do farisaísmo, adquirindo um grande zelo pela Torá mosaica.

No fim dos estudos, retornou a Tarso, onde alternava os trabalhos na sinagoga e a fabricação de tendas. Alguns anos depois, quando retornou a Jerusalém, viu a popularização do movimento dos seguidores de Jesus de Nazaré, o qual considerava uma ameaça à identidade e tradição judaicas, tornando-se um perseguidor  do Cristianismo. Chegou, inclusive, a testemunhar, sem objeção, o apedrejamento de Santo Estêvão, primeiro mártir cristão.

CONVERSÃO

Certa vez, quando estava a caminho de Damasco, na Síria, para perseguir cristãos, teve uma experiência mística, sendo envolvido por uma grande luz que o cegou e o fez cair por terra. Então, ouviu uma voz, que identificou como sendo do próprio Cristo Ressuscitado, que lhe indagou: “Saulo, por que me persegues?” Essa mesma voz o ordenou ir ao encontro de um certo Ananias, em Damasco.

Já na cidade, Saulo é batizado por Ananias, que, ao lhe impor as mãos, lhe devolve a visão. Convertido cristão, Saulo passa a usar o seu nome romano Paulo e se retira para a região da Arábia, onde viveu por três anos.

Os textos bíblicos não esclarecem o que ele fez ali, nem mesmo qual o lugar específico da Arábia em que ficou. Depois, Paulo retornou a Damasco, onde sua pregação provocou uma oposição tão grande que ele precisou fugir para salvar sua própria vida.

APÓSTOLO

Então, Paulo partiu com Barnabé, para sua primeira viagem missionária, com destino a Antioquia, capital da província da Síria, à época a terceira cidade do império, depois de Roma e Alexandria. Nessa cidade, inicia a missão entre os gentios, ocasião em que os discípulos de Jesus, pela primeira vez, foram chamados cristãos. Na costa síria, atravessaram a ilha de Chipre, de Salamina a Pafos; de lá, chegaram à costa sul de Anatólia, hoje Turquia, passando por Atália, Perge de Panfília, Antioquia de Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, de onde regressaram ao ponto de partida.

Nesse período, com a expansão das comunidades cristãs, surgiu uma discussão se estes cristãos procedentes do paganismo estavam obrigados a entrar também na vida e na lei de Israel, sobretudo passando pelo rito da circuncisão.

Para resolver este problema, Paulo foi a Jerusalém e se reuniu com Pedro e os demais no chamado Concílio dos Apóstolos. Decidiu-se que não se deveria impor aos pagãos convertidos as prescrições da lei mosaica (cf. Atos dos Apóstolos 15,6-30).

VIAGENS

Depois disso, Paulo, dessa vez com Silas, realizou sua segunda viagem missionária (cf. Atos 15,36 – 18,22). Após percorrer a Síria e a Cilícia, voltou a visitar a cidade de Listra, onde tomou consigo Timóteo e fez com que se circuncidasse. Atravessou a Anatólia central e chegou à cidade de Trôade, na costa norte do Mar Egeu.

Entre outras cidades, foi para a Macedônia, entrando assim na Europa, Acaia, Filipos, Atenas e Corinto. Na capital grega, pregou primeiro na ágora e depois no areópago aos pagãos e aos gregos. Em Corinto, permaneceu por um ano e meio nessa comunidade.

A terceira viagem missionária (cf. Atos 18,23 – 21,16) partiu de Antioquia para Éfeso, capital da província da Ásia, onde permaneceu durante dois anos, desempenhando um ministério que teve fecundos resultados na região. De Éfeso, Paulo escreveu as Cartas aos Tessalonicenses (considerado o primeiro livro bíblico oficial da atual versão) e aos Coríntios. Depois de voltar a atravessar a Macedônia, desceu de novo à Grécia, provavelmente a Corinto, permanecendo ali três meses e escrevendo a famosa Carta aos Romanos.

DE JERUSALÉM A ROMA

Voltou a passar pela Macedônia, chegou de barco a Trôade e, depois, passando pelas ilhas de Mitilene, Quíos, Samos, chegou a Mileto. O destino seguinte foi Tiro e Cesareia Marítima, até chegar a Jerusalém, onde foi acusado de haver pregado contra a Lei, além de ter introduzido no templo alguns judeus de origem grega, que foram confundidos com pagãos.

A condenação à morte, prevista nestes casos, foi suspensa graças à intervenção do tribuno romano de guarda na área do templo (cf. Atos 21,27-36). Após um período na prisão, Paulo, por ser cidadão romano, havia apelado ao imperador e foi enviado para ser julgado em Roma.

PRISÃO

Na viagem a Roma, passou pelas ilhas mediterrâneas de Creta e de Malta e, depois, pelas cidades de Siracusa, Regio de Calábria e Pozzuoli. Em Roma, ficou em prisão domiciliar, de onde continuava a anunciar o Evangelho.

Até o ano de 62, Paulo escreveu suas epístolas, das quais 13 conseguiram permanecer: 1ª e 2ª aos Tessalonicenses, aos Gálatas, aos Filipenses, 1ª e 2ª aos Coríntios, aos Romanos, a Filêmon, aos Colossenses, aos Efésios, 1ª e 2ª a Timóteo. Alguns biblistas atribuíram a autoria da Carta aos Hebreus também a Paulo, porém, os estudos atuais não confirmam esse dado.

MARTÍRIO

Em 64, após o incêndio em Roma, cuja responsabilidade recaiu sobre os cristãos, Paulo foi novamente preso e levado aos arredores de Roma. Após ser condenado à morte por Nero, foi decapitado entre 67 e 68. Segundo a tradição, ele foi martirizado na Via Laurentina; e seu corpo, sepultado fora dos muros da cidade de Roma, onde foi erguida a Basílica a ele dedicada.

HERANÇA ESPIRITUAL

Em uma série de catequeses dedicadas à vida e aos ensinamentos do Apóstolo dos Gentios, em 2008, o Papa Emérito Bento XVI destacou que a figura de São Paulo sobressai muito além da sua vida terrena e da sua morte, deixando uma herança espiritual extraordinária.

“Em síntese, permanece luminosa diante de nós a figura de um apóstolo e um pensador cristão extremamente fecundo e profundo, de cuja aproximação cada um pode haurir benefício”, destacou o Pontífice, recordando a comparação que São João Crisóstomo faz entre Paulo e Noé, dizendo que o Apóstolo, “não uniu eixos para fabricar uma arca; pelo contrário, em vez de unir tábuas de madeira, compôs cartas e assim salvou do meio das ondas não dois, três ou cinco membros da própria família, mas toda a ecumene [comunidade cristã] que estava prestes a perecer”. “É precisamente isso que o Apóstolo Paulo ainda e sempre pode fazer. Portanto, inspirar-se nele, tanto no seu exemplo apostólico quanto na sua doutrina, será um estímulo, se não uma garantia, para a consolidação da identidade cristã de cada um de nós e para o refortalecimento de toda a Igreja”, concluiu Bento XVI.

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