E quando a casa é a rua, como se proteger da COVID-19?

Prefeitura de São Paulo afirma que desde o começo da pandemia, 37 pessoas em situação de rua morreram em decorrência da doença. Há relatos de dificuldades nos atendimentos

Arquivo pessoal

“Fique em casa!” Este é o pedido que tem ecoado mundo afora em forma de diferentes campanhas desde o avanço da pandemia de COVID-19. E para quem não tem casa, como fica?

Sem lar para se abrigarem, sem acesso a banho ou à higiene básica, as pessoas em situação de rua passam os dias mais expostas à contaminação pelo coronavírus.

No Brasil, 221.869 pessoas estão em situação de rua, segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em junho do ano passado, e que pode ser acessado por este link: https://cutt.ly/Tbtaskx. Mais da metade dessa população, precisamente 124.698 pessoas, se concentra na região Sudeste do País.

O levantamento do Ipea constatou que no âmbito nacional a população em situação de rua aumentou 140% entre setembro de 2012 e março de 2020. Esse crescimento é bastante acentuado nas localidades urbanas. No mesmo período, a taxa de crescimento populacional nos grandes municípios foi de 165%.

Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, coletados no Censo da População em Situação de Rua de 2019, somente na capital paulista vivem, ao menos, 24.344 pessoas nessa condição. Organizações e movimentos sociais que desenvolvem trabalhos na cidade para amparar essa população consideram que este número está defasado, especialmente após a pandemia de COVID-19 e suas consequências socioeconômicas, que levaram mais pessoas a enfrentar essa realidade.

ATENDIMENTO DE SAÚDE EM MEIO À COVID-19          

“Desde o começo da pandemia, a nossa população em situação de rua foi abandonada e, também, foi crescendo. Em 2020, tínhamos na cidade de São Paulo cerca de 30 mil pessoas nessa condição. Hoje, estamos com mais de 50 mil”, estima o cofundador e coordenador do Movimento Nacional de Luta em Defesa da População em Situação de Rua (MNLDPR), Anderson Miranda.

Ele conhece bem essa realidade, já que esteve em situação de rua por duas décadas. Há dez anos, conseguiu sair dessa situação. Desde então, atua em defesa de políticas públicas que deem a essa população acesso a moradia, trabalho, saúde, educação etc.

Para Miranda, a COVID-19 agravou ainda mais a situação de quem não tem onde morar e depende de um endereço fixo para ser atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “A realidade piorou completamente, mas principalmente na área [da Saúde], porque não há uma sensibilização de uma campanha com foco na população de rua. Só ouvimos muito o ‘fique em casa’”, pontua. “E quem não tem casa? Fica na rua, nas calçadas, nas marquises, nos viadutos, sendo cuidado por entidades religiosas e sociais, organizações e pessoas que se preocupam com nossa população de rua”, complementa.

Miranda pontua que a população em situação de rua tem encontrado dificuldades para ter acesso aos serviços de Saúde da rede pública, incluindo consultas, exames, entrega de medicamentos e/ou curativos, o que para ele é uma omissão por parte do poder público: “Hoje, existem leis que garantem os direitos e os deveres, mas que não são executadas. É fundamental que sejam cumpridas.”

CONSCIENTIZAÇÃO E VACINAÇÃO

Ainda segundo o coordenador do MNLDPR, as pessoas em situação de rua não estão sendo devidamente conscientizadas sobre a gravidade da doença. “Nós, como entidades, igreja e grupos, tentamos trabalhar essa conscientização. Entregamos máscara, álcool em gel, mas a população de rua pensa que é imune, que não pega o vírus”, comenta. “Não há um trabalho de conscientização das secretarias municipais, estadual e do Ministério da Saúde para sensibilizar essa nossa população a se proteger, a se cuidar e a usar máscara”, complementa.

Como possíveis soluções, Miranda acredita que além da vacina, que deve ser prioridade, a população em situação de rua precisa ser acolhida. Por isso, ele defende que escolas, hotéis e outros lugares sejam abertos até acabar a pandemia para acolher o povo da rua e garantir as três principais refeições do dia – café da manhã, almoço e jantar.

“Que haja um acolhimento digno. Essa população precisa ser cuidada. Ter acesso às refeições, a um banho quente, a um lugar digno com atividades para a mente. Há quem acredite que só dar comida resolve o problema, mas isso não é verdade. Cuidar da mente é importante para a saúde, ter assistência conjunta”, analisa.

Miranda acrescenta que a ampla realização de campanhas com foco na realidade de quem está nas ruas pode contribuir para proteger e manter a saúde dessas pessoas: “Precisamos de uma campanha como são feitas as da Aids, da tuberculose e da gripe”.

ASSISTÊNCIA PÚBLICA NAS RUAS

Luciney Martins/O SÃO PAULO

No município de São Paulo, além das 468 Unidades Básicas de Saúde (UBS), que integram a Rede de Atenção à Saúde (RAS), a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) mantém em diferentes regiões da cidade 26 equipes dos Consultórios na Rua e oito equipes Redenção na Rua, que viabilizam o acesso e o atendimento de pessoas em situação de rua, realizando, inclusive, um acompanhamento por meio de consultas, medicações e orientações.

As equipes são formadas por médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, psicólogos, agentes da saúde de rua, agentes sociais e administrativos. Em algumas unidades, há, também, cirurgião dentista e auxiliar de saúde bucal.

Em nota ao O SÃO PAULO, a SMS informou que de abril de 2020 a março de 2021, as equipes do Consultório na Rua e Redenção acompanharam 482 casos confirmados de COVID-19. Foram registradas 37 mortes em decorrência da doença de pessoas em situação de rua: oito mulheres e 29 homens. Desse total, 20 eram idosos e os demais com idade entre 31 e 59 anos.

A Secretaria também informou que a vacinação contra a COVID-19 para pessoas em situação de rua com mais de 60 anos começou em 12 de fevereiro, e, para os cadastrados nos Centro de Acolhida, o início foi em 29 de março. Até 14 de abril, 9.676 pessoas em situação de rua foram imunizadas.

A COVID-19 NA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NA CAPITAL PAULISTA

*482 casos confirmados foram acompanhados pelas equipes do Consultório na Rua e Redenção desde abril de 2020.

* 37 pessoas em situação de rua morreram em decorrência da doença.

* 9.676 pessoas em situação de rua que estão nos grupos já aptos a receber a imunização tomaram ao menos a 1a dose da vacina contra a COVID-19.

Fonte: Secretaria Municipal da Saúde (SMS)

Em atenção às dores do próximo

Ao longo da pandemia, sensibilizado com o aumento visível do número de pessoas em situação de rua, principalmente nas proximidades de onde reside, o médico radiologista e especialista em Neurorradiologia, Cristiano Novack, decidiu atender voluntariamente, como clínico geral, a população em situação de rua.

Foi assim que, há seis meses, ele se tornou médico voluntário na Casa de Oração do Povo da Rua, no bairro da Luz, região central. O local é mantido pela Arquidiocese de São Paulo, por meio do Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, cujo Vigário é o Padre Júlio Lancellotti.

Novack atende todas as quintas-feiras, no período da tarde. São, em média, de seis a dez pacientes a cada semana, pessoas em situação de rua que chegam à Casa de Oração relatando alguma dor ou problema crônico, como diabetes, ou que precisam de um curativo.

O médico não conhecia as atividades da Pastoral do Povo da Rua, muito menos a dinâmica da Casa de Oração: “Você começa a conhecer essa população que é muito frágil. Eu vim com uma perspectiva, achando que eu sabia uma porção de coisas. Entretanto, quando você chega aqui, descobre que não sabe nada, pois as pessoas têm fragilidade em várias esferas da vida”.

Não demorou muito para que o médico percebesse que, mesmo com os serviços de saúde disponibilizados pela SMS, a demanda do povo de rua em busca de atendimento é grande. “O problema é que os Consultórios na Rua e a iniciativa são insuficientes. O número de pessoas em situação de rua é muito maior do que esses serviços conseguem abarcar”, observa.

Novack conta que escuta de muito dos pacientes que a espera para o atendimento nos Consultórios na Rua é demorada e que as consultas são realizadas de modo muito rápido.

Ele pondera que, como os médicos têm cada vez mais pacientes para atender, “o profissional da Saúde tem que trabalhar muito rápido. Seria fantástico poder passar 40 minutos, uma hora com o paciente na sala, mas na hora em que você olha para fora, vê 40 pessoas à espera. O jeito, então, é atender cada paciente por quatro, cinco minutos”.

Com base no que tem vivenciado, o médico alerta que a falta de dados reais e atuais sobre a população em situação de rua dificulta o entendimento dessa realidade por parte daqueles que querem contribuir de alguma maneira e, também, prejudica a criação e melhorias de políticas públicas.

‘ESTOU AQUI COM VOCÊ’

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Apesar das dificuldades, ele conta que a experiência tem sido gratificante e que aprende muito com a população em situação de rua. “Muitas pessoas nessa condição não conversam olhando para o seu rosto. Olham para baixo, de lado. Chegam com uma postura muito fechada, com medo”, comenta Novack. “Vejo que o que podemos fazer é acolher. É preciso se colocar no lugar delas. Tentar calçar os sapatos delas ou tirar os seus sapatos para ficar descalço junto com elas, para entender suas perspectivas, sonhos e projetos. É dizer: ‘Estou aqui com você’”.

E quem é atendido percebe essa atenção diferenciada, como relata à reportagem Shirley Barbosa, 43, que está em situação de rua há quatro anos e meio: “Aqui, a prioridade do médico é a gente. Ele conversa, senta com a gente e até brinca, tentando nos alegrar. No posto de saúde não tem isso. Os caras nem olham para sua cara. Tem médico que nem olha para saber se você está com febre ou pálida”.

Ivan Nascimento, 19, convive há mais de um mês na casa de acolhida da Fraternidade O Caminho, também no bairro da Luz. Algumas semanas atrás, ele sofria com uma infecção bacteriana no peito do pé. Passou por atendimentos em unidades de saúde, mas somente após a consulta com Novack conseguiu alívio para o inchaço e as dores que vinha sentindo e que o impediam de andar.

“Ele me recebeu com muito carinho. Conversou primeiro, querendo saber quando e como criou aquilo no meu pé”, lembra Nascimento. “Ele não sente nojo de mexer onde está machucado. Procura saber se você está sentindo dor e explica o que você tem.”

Novack já tem mobilizado outros colegas de profissão para que sejam voluntários na Casa de Oração, para atendimentos de Saúde à população de rua. (IR)

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Comentários

  1. Ira fiquei muito sensibiluzada com o seu texto. Conheci um pouco a situação desse grupo, na época muito menor, mas igualmente trágico, quando trabalhei na gestão Haddad na Secretaria de direitos humanos. Sem dúvida que o drama foi potencializado mil vezes com a pandemia. A cada dia imagino que sejam dezenas ou quem sabe centenas de famílias que acabam na rua pelo desemprego e o desamparo desses governos genocidas que a rigor pretendem exterminar essa população.
    Parabéns, Ira, muito boa matéria. Saudades
    Guiomar

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