Cardeal Scherer avalia o ano pastoral e o papel da Igreja no combate à pandemia

Em entrevista, Arcebispo de São Paulo analisa principais temas da vida social e eclesial

Cardeal Scherer avalia o ano pastoral e o papel da Igreja no combate à pandemia, Jornal O São Paulo
Cardeal Odilo Scherer (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

A partir da terça-feira, 4, até sábado, 8, o jornal O SÃO PAULO passa a publicar trechos da entrevista exclusiva concedida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, por ocasião do fim do ano de 2021 e início de 2022.

Na conversa realizada na Cúria Metropolitana, em Higienópolis, zona oeste da capital paulista, o Arcebispo de São Paulo avaliou os principais fatos da vida social e eclesial no último ano e comentou temas como o caminho sinodal proposto pelo Papa Francisco, a perseguição religiosa, a crise cultural vivida pela sociedade, além de se manifestar sobre situações como os escândalos que envolvem membros da Igreja.

Nessa primeira parte, Dom Odilo fala sobre o ano pastoral na Arquidiocese de São Paulo e o papel da Igreja Católica no enfrentamento da pandemia de COVID-19.

Ouça o trecho da entrevista:

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PARTE 3 – ‘Todo sectarismo é contrário à própria essência da Igreja Católica’

Ano pastoral

O SÃO PAULO – Qual é o balanço que o senhor faz do ano pastoral de 2021 na Arquidiocese?

Cardeal Odilo Pedro Scherer – O ano pastoral de 2021 na Arquidiocese de São Paulo foi bastante marcado pela situação da pandemia e, por isso, de um lado, tivemos que conviver com muitas limitações ao longo de boa parte do ano. As restrições para as celebrações com o público numeroso, reuniões, iniciativas que significassem aglomeração de pessoas... Porém, nós descobrimos um novo modo de fazer muitas coisas, usamos muito a internet, as mídias sociais e, no fim, conseguimos realizar muitas iniciativas para servir às comunidades, manter o povo unido e alimentado pela liturgia, pela oração e, sobretudo, no serviço da caridade.

O ano também foi marcado pela Assembleia Eclesial da América Latina... Uma experiência sinodal interessante. A Assembleia aconteceu em novembro, mas a primeira parte do ano passado foi marcada pela preparação e por suas temáticas.

Depois, veio o chamado para o sínodo universal e, novamente, estivemos ligados às questões postas pela preparação desse sínodo, de modo que a sinodalidade foi vivida de maneira bastante forte durante este ano.

Nossa preocupação durante o ano era que o povo fosse alimentado na fé e na esperança, confortado pela Palavra de Deus, pela oração e pela assistência religiosa. Em segundo lugar, que houvesse uma grande animação da caridade, para que fosse ao encontro dos necessitados, dos doentes, dos pobres e aflitos. Penso que muita coisa pôde ser feita nesse sentido.

Pandemia

Quais foram os principais desafios da Igreja na pandemia?

Eu acredito que a maioria das representações da Igreja Católica – as dioceses e a CNBB – tornaram-se uma referência sobre posições de prudência em relação à pandemia, para que fosse combatida seriamente e valorizada a vida e a saúde das pessoas. Claro, com exceções, como sempre há. Unanimidade também não houve, porque também tivemos grupos católicos, que, eventualmente, achavam que a pandemia era uma ficção, invenção de determinada pessoas ou grupos.

De um lado, havia protestos, até mesmo dentro das comunidades e grupos católicos, contra as restrições impostas pela situação de pandemia. Pessoas que não aceitavam que houvesse restrições quanto à frequentação da igreja... Por outro lado, havia as pessoas que queriam ficar em casa e até mesmo que se fechassem as igrejas e atividades religiosas. Eram duas posições extremas que, naturalmente, não eram as ideais e aceitáveis. No meio dessas duas posições nós conseguimos trabalhar e a maioria do povo nos acompanhou, aceitando as restrições como medida prudencial, como necessidade de cuidar não só da saúde pessoa, mas também da saúde dos outros. Portanto, também é uma atitude de solidariedade social.  

Claro que havia, ao longo dos meses, muitas pessoas que estavam ansiosas por voltarem à igreja, por participarem novamente da missa, de reuniões presenciais. Portanto, quando melhorou a situação da pandemia, houve essas manifestações bonitas de pessoas que voltaram com todo gosto e alegria... O que significa que realmente há uma valorização da dimensão religiosa na vida das pessoas. A pandemia ajudou a humanidade, ajudou-nos a experimentar os nossos limites, a cair na consciência de nossa fragilidade, da necessidade sincera e humilde de nos voltarmos para Deus.

Como a Igreja colaborou no combate à disseminação do coronavírus?

A partir do momento que se evidenciou que a pandemia era algo muito sério, de nossa parte, procuramos abraçar imediatamente as medidas preventivas, para colaborar com as autoridades governamentais, preocupadas em preservar a saúde da população.

É preciso lembrar que a posição e atitude do Papa Francisco em relação às questões da pandemia foram muito importantes como referência não só para o Brasil, mas para o mundo todo, que, portanto, ajudaram a Igreja Católica a levar a sério o trabalho de conscientização e prevenção em relação à pandemia.

Eu acredito que nós fizemos a nossa parte. Naturalmente, a parte mais importante toca as autoridades públicas que têm os recursos e os meios para cuidar da saúde da população. A Igreja, nesse caso, tem o poder de convencimento, de persuasão, através dos seus apelos em relação aos cuidados da saúde, a prevenção, à vacinação. Lembro quantas vezes apelamos para vacinar, vacinar e vacinar... Isso foi um apelo geral pelo Brasil afora da parte da Igreja Católica.  

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