Estudo indica que a incidência da COVID-19 entre professores de SP é maior do que o divulgado

Publicada recentemente, nota técnica questiona os números de casos da doença na comunidade escolar, divulgados pela Secretaria da Educação de São Paulo. Órgão afirma que ‘cálculo da incidência de casos de COVID-19 considera o número de casos positivos de estudantes e profissionais, dentre eles os professores’

Foto: Secretaria da Educação de São Paulo

Realizado pela Rede Escola Pública e Universidade (Repu), coletivo de professores e pesquisadores de universidades públicas e do Instituto Federal do estado de São Paulo, o Monitoramento de Casos de COVID-19 na Rede Estadual de São Paulo aponta que a incidência de COVID-19 entre professores estaduais é quase o triplo da registrada na população adulta do estado.

Esse dado que contrapõe o boletim epidemiológico sobre as infecções de COVID-19, divulgado no início de março pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP). Nele a taxa de incidência de casos na população escolar, entre janeiro e março, foi apontada como “33 vezes menor do que a do estado”.

Entre 7 de fevereiro e 6 de março de 2021, os responsáveis pelo estudo analisaram dados coletados em 299 escolas da rede estadual paulista. Foi constatado que nesse período, a incidência de novos casos entre professores foi de 138%, enquanto na população da mesma faixa etária (de 25 a 59 anos) do estado o crescimento foi de 81%.

Os dados analisados no monitoramento independente foram coletados semanalmente por professores ligados a treze subsedes do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

As 299 escolas monitoradas, universo que corresponde a 12.547 professores e 3.947 servidores não docentes, estão localizadas em 15 municípios do estado: Arujá, Caieiras, Cajamar, Ferraz de Vasconcelos, Francisco Morato, Franco da Rocha, Guarulhos, Hortolândia, Mairiporã, Osasco, Poá, Santa Isabel, Santo André, São Paulo e Sumaré.

Na capital paulista, as escolas que forneceram os dados estão todas localizadas na zona Leste.

Logo na primeira semana de estudo, foi identificado que a incidência entre os docentes das escolas monitoradas era 150% maior do que a população com a mesma faixa etária. Na quarta semana, a incidência aumentou para 230%.  

Diante dos resultados, a Repu chegou à conclusão que a retomada das atividades presenciais nas escolas estaduais não pode ser considerada segura.

Críticas à Seduc-SP

A nota técnica dos pesquisadores faz crítica ao boletim epidemiológico da Seduc-SP, indicando falhas na metodologia utilizada e no tratamento dos dados coletados pela secretaria, por meio do Sistema de Informação e Monitoramento da Educação (Simed).

Dentre as críticas, está o fato da secretaria ter utilizado para calcular a incidência de casos proporcional no período o número total de matrículas nas escolas públicas e privadas, em vez de utilizar o número correspondente à população escolar que retornou às atividades presenciais.

Segundo a avaliação dos pesquisadores, com isso, os coeficientes de incidência divulgados no boletim foram claramente subestimados. 

Outro ponto criticado é o fato da secretaria ter juntado no cálculo da incidência de infecção alunos, professores e funcionários das escolas, resultando em um dado global. Com a junção, os números das infecções dos professores e servidores foram diluídos em meio aos das crianças e adolescentes, que representam 92,6% da comunidade escolar e que são menos propensas a desenvolver a COVID-19 de forma grave e sintomática.

Para os pesquisadores, isso gerou “falsa impressão de que os professores e servidores não docentes se infectaram muito menos que a população em geral”.

No documento, o coletivo pontua que há falta de transparência da Seduc-SP com relação aos dados coletados pelo Simed e detalha suas tentativas de obtenção de dados via Lei de Acesso à Informação (LAI).

Medidas de proteção locais

O estudo identificou também que em algumas escolas de Osasco, a adoção de medidas de proteção adicionais e mais restritivas do que as recomendadas pela secretaria, “parece ter contribuído para uma redução no número de casos de COVID-19 entre os professores”.

Dentre outras medidas adotadas por essas escolas, foi destaque o afastamento imediato de professores que manifestaram sintomas e a redução no número de estudantes recebidos pelo colégio que foi inferior aos 35% autorizados pela Seduc-SP.

Para chegar a essa conclusão, os dados de 52 escolas de Osasco, compreendendo a um universo de 2.258 professores, foram comparados aos de outras 52 de escolas de São Miguel Paulista, correspondendo a 2.170 docentes.

No total das quatro semanas de monitoramento, as escolas de Osasco reportaram 16 casos de COVID-19 entre professores, enquanto em São Miguel Paulista foram notificados 56 casos.

Posicionamento da Seduc-SP

Questionada pelo jornal O SÃO PAULO se a retomada das atividades presenciais nas escolas da rede estadual é segura, a Secretaria da Educação de São Paulo afirmou, por nota, que ela “investe na segurança dos professores na volta às aulas e, por isso, já foram vacinados mais de 209.036 profissionais da área desde sábado, 10”.

A pasta reforçou ainda que “o cálculo da incidência de casos de COVID-19 considera o número de casos positivos de estudantes e profissionais, dentre eles os professores”.

Sobre não ter realizado um recorte específico para identificar o número de casos entre os docentes, a Secretaria alegou que o monitoramento realizado por meio do Simed se dá sobre toda a comunidade escolar. “O uso de dados gerais foi o número confiável a ser utilizado diante das incertezas, como metodologia possível”, pontuou.

O órgão disse ainda que “um novo boletim epidemiológico será divulgado em breve sobre o acompanhamento dos casos da COVID-19 em ambientes escolares”; e enfatizou que de acordo com o Plano São Paulo, “o retorno às aulas se dá de forma gradual e reduzida, de acordo em que fase o estado se encontra, o que é definido pelas áreas de saúde competentes”.

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