Libaneses abrem jubileu de ouro da Eparquia Maronita no Brasil

Equivalente a uma diocese católica de rito oriental foi instituída canonicamente por São Paulo VI em 29 de novembro de 1971

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Uma missa na Catedral Nossa Senhora do Líbano, no bairro da Liberdade, no domingo, 7, marcou o início do ano jubilar pelo 50º aniversário de criação da Eparquia Maronita no Brasil.

Essa Eparquia é uma circunscrição eclesiástica equivalente a uma diocese católica de rito oriental instituída canonicamente por São Paulo VI em 29 de novembro de 1971, por meio da constituição apostólica Quod providente, para atender às necessidades espirituais e pastorais dos imigrantes libaneses que vivem no Brasil.

A Eucaristia foi presidida por Dom Edgard Madi, Eparca Maronita no Brasil, e concelebrada pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, e por dom George Khoury, Eparca católico de rito Greco-Melquita no Brasil.

Também estiveram presentes na liturgia representantes das igrejas Ortodoxa Antioquina, Copta e Sirian Ortodoxa, além de membros da comunidade islâmica.

A celebração antecipou a festa litúrgica de São Marun, Patrono dos maronitas, comemorado na terça-feira, 9. O jubileu se estende até 9 de março de 2022.

Rito oriental

A Igreja Católica Maronita é uma das 24 igrejas autônomas (sui iuris) que constituem a Igreja Católica no mundo, em plena comunhão com o Papa, com sede no Líbano.

Os Maronitas devem seu nome a São Marun, ou Maron, um monge siríaco-cristão do século V, que se tornou mais conhecido após a sua morte e em cuja memória reuniu um grupo de cristãos que, no século VII, deu origem à Igreja Maronita.

A Igreja Maronita é comandada por um patriarca que, atualmente, é o Cardeal Béchara Boutros Raí, e possui um rito próprio em língua siríaca.

No Brasil

Embora a Eparquia tenha surgido há 50 anos, os Maronitas chegaram ao Brasil em 1860, com os primeiros imigrantes libaneses. No início da década de 1890, foi criada a primeira paróquia desse rito no País, dedicada a Nossa Senhora do Líbano, que deu origem à atual catedral.

A antiga sede dessa Paróquia se localizava no Parque Dom Pedro II e foi demolida anos depois, devido ao desenvolvimento urbano da região central da cidade. Seu primeiro Pároco, o libanês Padre Yacoub Saliba, fundou, em 1897, a Sociedade Maronita de Beneficência, primeira entidade libanesa no Brasil e, em 1905, criou a primeira escola para crianças libanesas, atualmente conhecida como Escola Padre Yacoub.

Em 1954, chegaram ao Brasil, vindos do Líbano, três padres maronitas: Basílio Azar, Francis Nasr e Bernardo Azzi, para exercerem o serviço paroquial em São Paulo. A eles, juntou-se o Padre Simon Awad.

Em 1962, foi nomeado o primeiro Bispo Maronita no Brasil, Dom Francis Zayek. Como ainda não havia uma Eparquia no País, ele era Bispo Auxiliar do Ordinário para os Ritos Orientais no Brasil, na época, o Cardeal Jaime de Barros Câmara, então Arcebispo do Rio de Janeiro.

Após a transferência de Dom Francis para os Estados Unidos, São Paulo VI nomeou o libanês Dom João Chedid para acompanhar os maronitas no Brasil. Com a criação da Eparquia, ele se tornou o primeiro Eparca Maronita no País

Após renunciar, por motivo de idade, em 1990, Dom João Chedid foi sucedido por Dom Joseph Mahfouz, que permaneceu à frente da Eparquia até 2006.

Manter viva a identidade

Luciney Martins/O SÃO PAULO

O terceiro e atual Eparca Maronita no Brasil, Dom Edgard Madi, destacou ao O SÃO PAULO que, embora a celebração do jubileu aconteça no contexto difícil da pandemia, a Eparquia deseja ser um sinal de esperança, sobretudo para a comunidade libanesa.

Dom Edgard ressaltou, ainda, que a colônia libanesa está espalhada pelo Brasil, o que dificulta para a Eparquia se fazer presente em todo o território. Ao mesmo tempo, ele reconheceu que, como o Brasil é um país predominantemente católico, os fiéis libaneses não tiveram dificuldades para participar das comunidades católicas de rito latino em suas cidades.

“O desafio da nossa Igreja é estabelecer, cada vez mais, o contato com nossos fiéis libaneses e seus descendentes, para manter viva a nossa tradição, cultura, língua e identidade. Por isso, buscamos criar mais paróquias e trazer mais padres para essa missão”, enfatizou Dom Edgard.

Atualmente, a circunscrição conta com 16 paróquias e 22 sacerdotes; dentre esses, há padres brasileiros que não são de origem libanesa, mas possuem autorização para celebrar nos ritos latino e maronita. Estima-se que haja cerca de 500 mil fiéis maronitas no País.

Vínculos

Para o cônsul-geral do Líbano em São Paulo, Rudy El Azzi, a Igreja Maronita teve um papel fundamental no desenvolvimento da maior colônia libanesa do mundo. “O nosso vínculo não se dá somente pelo aspecto religioso e espiritual, mas, também, na promoção da nossa cultura, estreitando os laços entre o Brasil e o Líbano”, afirmou, ressaltando o empenho da Eparquia na promoção de campanhas para ajudar a população do Líbano, que enfrenta uma crise sociopolítica e econômica sem precedentes em sua história.

Em mensagem enviada para a Eparquia, o Patriarca Béchara Raí manifestou sua alegria e comunhão com a abertura do jubileu e reconheceu os esforços e sacrifícios dos primeiros imigrantes. “Essas raízes mostram a presença da comunidade libanesa em geral e, de modo particular, a maronita, na boa terra do Brasil, que foram como que o grão de trigo plantado, transformando-se em planícies abundantes”, afirmou.

A exemplo de São Marun

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Ao saudar a Igreja Maronita pelo Jubileu, o Cardeal Odilo Scherer expressou a proximidade da Igreja Católica de rito latino para com os irmãos libaneses. Dom Odilo ressaltou que o ano comemorativo foi aberto em uma ocasião oportuna, na festa de São Marun, “grande místico e inspirador desta Igreja que traz na lembrança tempos difíceis, de sofrimentos e perseguição, mas, ao mesmo tempo, marcado pela fidelidade à Igreja fundada sobre Jesus Cristo e sobre a Palavra de Deus, a pregação dos apóstolos”.

“Nós também vivemos dias difíceis, talvez não marcados abertamente por perseguições, mas por tantos outros fatores. Este é um tempo em que precisamos voltar novamente para o exemplo dos santos, dos pais fundadores e evangelizadores. Recordando seus exemplos, permaneçamos firmes na fé, perseverantes naquilo que é o patrimônio espiritual que marcou uma cultura libanesa”, completou o Arcebispo.

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