Missionárias da Caridade mantêm as ações de Santa Teresa de Calcutá nas periferias existenciais

Em São Paulo, irmãs têm atuação no Jardim Peri, na zona Norte, e na Paróquia Nossa Senhora da Penha

Luciney Martins/O SÃO PAULO

No sábado, 4, o Cardeal Odilo Pedro Scherer presidiu missa na Paróquia Nossa Senhora da Penha, no Jardim Peri, Região Episcopal Santana.

Em meio à assembleia de fiéis, estavam cinco religiosas da Congregação das Missionárias da Caridade, fundada por Santa Teresa de Calcutá, e que na cidade de São Paulo tem uma comunidade de missão próxima à Paróquia. Idosos ali acolhidos, voluntários e benfeitores da instituição também estiveram na missa, assim como Marcílio Haddad Andrino, que, pela intercessão de Madre Teresa, recebeu a graça de uma cura, milagre que foi reconhecido pela Santa Sé para a canonização da religiosa em 2016.

A Eucaristia foi concelebrada pelos Padres Juarez Murialdo Dalan, Pároco; e José Ferreira Filho, Secretário do Arcebispo Metropolitano, assistidos pelo Diácono Welton Tadeu Marcondes de Oliveira Santos.

PRESENÇA PROFÉTICA

Na homilia, o Arcebispo Metropolitano recordou o testemunho de Santa Teresa de Calcutá e seu grande amor aos pobres: “Santa Teresa de Calcutá amou de fato, com obras e não por meio de discursos, foi ao encontro das pessoas, inclinando-se para resgatar a dignidade das que estavam caídas”, afirmou, destacando que ela era uma mulher pobre em meio aos pobres.

O Cardeal recordou que Santa Teresa dedicou sua vida aos desprovidos, aos quais acolhia, cuidava e, sobretudo, buscava devolver a dignidade a quem estava abandonado à margem da sociedade. Era, ainda, uma mulher orante: “Teresa de Calcutá foi uma mulher de Deus na oração, na penitência e na caridade. A Adoração, a leitura da Palavra de Deus, o silêncio contemplativo moviam suas ações”.

Dom Odilo falou sobre a presença profética das religiosas da Congregação das Missionárias da Caridade, inseridas no bairro do Jardim Peri e na Paróquia.

“As irmãs inseridas por carisma nas periferias são testemunhas do Evangelho de Cristo presente no cotidiano que transforma a vida de tantas pessoas, são sinais da presença do Cristo que ama e acolhe”, disse, ressaltando que o exemplo de fé e humildade é um “testemunho eloquente da proximidade de Deus que permanece vivo em nossos dias”.

‘MÃE DOS POBRES’

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Agnes Bojaxhiu nasceu em Skopje, hoje capital da Macedônia do Norte, em 26 de agosto de 1910. Na adolescência, teve contato com os padres jesuítas missionários que viviam em missão na Índia, os quais lhe contaram como era a ação missionária naquele país. Daí brotou a vontade de ser missionária. Aos 18 anos, Agnes sentiu o desejo de consagrar sua vida a Deus.

Em 29 de setembro de 1928, ingressou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Loreto, na Irlanda. Fez sua profissão religiosa em 24 de maio de 1931, quando adotou o nome Teresa, em homenagem a Santa Teresa de Lisieux, padroeira dos missionários. Em seguida, foi transferida para Calcutá (Índia), onde, por 17 anos, se dedicou ao ensino como professora.

Em 1946, por ocasião de um retiro espiritual, Irmã Teresa foi a Darjeeling, onde viu de perto a realidade da pobreza. O apelo de doar-se em favor dos pobres era algo emergente em seu coração e, ao deparar-se com pessoas, entre elas crianças em situação de extrema pobreza, fome, doenças, a implorar ajuda, tomou a firme decisão de se dedicar aos pobres.

Conseguiu, em 1948, a licença para deixar as Irmãs de Loreto. Mantendo sua condição de religiosa, mudou-se para Calcutá, onde empenhou-se exclusivamente à sua nova missão, ajudando aos mais necessitados.

Dedicada aos pobres, vivia também sua vida de forma humilde, somente com o básico. Na Eucaristia, buscava as forças para se manter fiel.

Em 1979, foi homenageada com o Prêmio Nobel da Paz. Faleceu em 5 de setembro de 1997. Em 2002, o Vaticano reconheceu o primeiro milagre atribuído à intercessão de Madre Teresa: a cura de uma mulher de Bangladesh chamada Monika Besra, de 30 anos, que sofria de um tumor abdominal.

Em 2008, o segundo milagre, do brasileiro Marcílio Haddad Andrino, de 35 anos, que sofria de múltiplos abscessos no cérebro e um quadro de hidrocefalia obstrutiva. Era um caso considerado crítico e sem resultados de melhora. A família começou a rezar, pedindo a intercessão de Madre Teresa; e, milagrosamente, Andrino recuperou a saúde. Foi beatificada em 19 de outubro de 2003, por São João Paulo II, e canonizada, em 2016, pelo Papa Francisco.

CONTEMPLATIVAS NO CORAÇÃO DO MUNDO

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Em 1949, Madre Teresa escreveu as constituições das Missionárias da Caridade e, no dia 7 de outubro de 1950, a congregação foi aprovada pela Santa Sé, expandindo-se por toda a Índia e pelo mundo. Hoje, as Missionárias da Caridade somam mais de 5 mil religiosas.

Irmã Lelia, coordenadora da comunidade das religiosas no Jardim Peri, é indiana. “Nós somos consagradas contemplativas no coração do mundo, porque rezamos o nosso trabalho. Realizamos uma ação social, e somos mulheres consagradas a Deus no mundo de hoje. Entregamos a nossa vida a Jesus, com uma renúncia total e a serviço dos pobres, tal como Jesus nos deu a sua vida na Eucaristia”, mencionou a Freira que conheceu a fundadora e conviveu com ela.

A Irmã relatou ao O SÃO PAULO que a simplicidade e a caridade são elementos que compõem o cotidiano das missionárias, ancoradas na Divina Providência.

“Pessoalmente, não possuímos nada. Não ganhamos dinheiro. Vivemos da caridade e para a caridade. Buscando a face de Deus em todas as coisas, em todas as pessoas, em todos os lugares, durante todo o tempo, esse é o verdadeiro sentido da contemplação”, disse a Religiosa, recordando que o sári indiano, roupa usada pelas irmãs, representa essa pobreza material, espiritual e a comunhão com os pobres.

“Para nós, filhas de Madre Teresa de Calcutá, cada doente, cada corpo chagado, cada pobre representa a figura do próprio Cristo que vem ao nosso encontro e, como no Evangelho, ao estender a mão, estamos acolhendo Jesus que vem a nós”, disse, recordando a passagem bíblica de Mateus 25,35-45.

NO BRASIL

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Santa Teresa de Calcutá veio ao Brasil em duas ocasiões: a primeira em julho de 1979, a Salvador (BA), onde fundou a primeira comunidade das Missionárias da Caridade no País. Na ocasião, conheceu Irmã Dulce dos Pobres.

Retornou em 1982, ao Rio de Janeiro (RJ), com o mesmo objetivo da sua primeira vinda. Hoje, são 14 casas no Brasil: duas em São Paulo, três no Rio de Janeiro, uma em Vitória (ES), três na Bahia, uma em Aracaju (SE), duas no Amazonas, uma em Brasília (DF) e, recentemente, uma em Roraima, para atuar em favor dos imigrantes venezuelanos.

A São Paulo, as irmãs chegaram no ano de 1992, e foram acolhidas pelas Irmãs Maria Mãe dos Apóstolos, no bairro de Santa Teresinha. Os Padres da Congregação Missionários da Consolata ajudaram a encontrar um lugar apropriado. Foram, então, para o Jardim Peri, na zona Norte da capital, onde atuam inseridas na realidade local e paroquial. Ali, abriram um abrigo para homens e mulheres. Atualmente, as mulheres são acolhidas em Santos (SP), onde há outra comunidade.

AÇÃO MISSIONÁRIA

Os trabalhos das irmãs variam de acordo com as necessidades do local: em algumas casas, assistem moradores em situação de rua; em outras, mantêm creches, abrigos para mulheres ou portadores de HIV, abrigos para idosos e pessoas em situação de rua.

No Jardim Peri, a comunidade é composta por cinco irmãs: Lelia e Chrissy, ambas indianas; Rosine, angolana; Paulina, mexicana; e Bonaventura, brasileira.

No local, as religiosas dirigem um abrigo no qual, no momento, estão acolhidos 15 homens. A atuação pastoral se estende às visitas às famílias, grupos de Catequese, distribuição de cestas básicas e marmitas.

“Todos os dias, as pessoas do bairro se dirigem ao convento para buscar pão. Recebemos a doação de uma boa quantidade de pães e os distribuímos para saciar a fome de quem bate à nossa porta”, explicou Irmã Lelia.

Zenaide Aragão, 51, é moradora do bairro e está desempregada. “As irmãs são anjos que Deus coloca em nossas vidas para nos auxiliar nos momentos difíceis. Aqui, nesta casa abençoada, muitas famílias encontram o alimento físico e espiritual”, disse, referindo-se às doações de mantimentos e à evangelização. “Somos acolhidos com amor, chegamos tristes e saímos com renovada esperança”, contou.

NA PARÓQUIA

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na Paróquia Nossa Senhora da Penha, a atuação das Missionárias da Caridade é colaborativa, em sintonia com as ações sociais. A igreja está inserida na realidade da periferia, permeada pela violência, pobreza e desemprego.

O Pároco destacou a importância da presença das irmãs na dimensão social paroquial. “Estamos inseridos em uma região de extrema pobreza, e a presença feminina consagrada, com o carisma e espiritualidade próprias de servir aos vulneráveis é sinal de despojamento, testemunho de caridade, de confiança na Providência e de amor aos pobres”, afirmou.

Maria Aparecida Fernandes Silva, 63, é paroquiana e destacou a intensa atuação pastoral das freiras que vão ao encontro do povo sofredor.

“As irmãs andam pelas ruas em resgate daqueles que estão abandonados, elas acolhem a todos: crianças, jovens, adultos, idosos. A vocação das irmãs se externa em sua capacidade de amar sem distinção”, destacou.

As restrições em virtude da pandemia não interromperam o serviço da caridade realizado na Paróquia, que por meio das pastorais e de voluntários faz a distribuição diária de marmitas em frente à igreja e a doação de roupas e cestas básicas para as cerca de 160 famílias já cadastradas e outras que passaram a ser atendidas emergencialmente.

Padre Juarez destacou que, devido à grande situação de pobreza no entorno, as doações continuam a chegar para atender a todos os que os procuram, graças à Divina Providência e à solidariedade de voluntários e benfeitores que acreditam nos projetos sociais da igreja e das religiosas.

EXEMPLO A SER SEGUIDO

No fim da celebração, o Cardeal Scherer incentivou as religiosas a manter a missão com os pobres: “Continuem firmes a espalhar o testemunho de Santa Teresa de Calcutá, para que ela seja conhecida e imitada por muitas pessoas em nosso meio”.

As religiosas são unânimes em afirmar que a fundadora é um exemplo a ser seguido em suas virtudes e ações ao próximo. “Tive a oportunidade de conhecer a Madre e conviver com ela, que em sua santidade emanava o amor e a presença do próprio Cristo. Quero em minha consagração poder levar o amor de Deus para quem vem aqui na porta, ou está na rua, ou a quem encontrar”, disse, emocionada, Irmã Rosine.

Marcilio Haddad Andrino, 48, engenheiro, falou à reportagem que recebeu dois milagres da Santa. “Sou duplamente abençoado: Madre Teresa me curou dos abscessos no cérebro e, o segundo milagre é que, pela lógica da Medicina, eu não poderia ter filhos, porém hoje sou pai da Mariana, do Murilo e da Marcela”, disse.

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