Paróquia Santa Teresa de Calcutá expressa a presença de Deus e o testemunho do Evangelho na periferia

Cardeal Odilo Scherer institui nova paróquia da Arquidiocese de São Paulo na zona Leste da cidade 

Imagem de Santa Teresa de Calcutá é entronizada na igreja matriz da nova paróquia da Arquidiocese, na Região Episcopal Belém (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Uma procissão com o Santíssimo Sacramento no bairro Terceira Divisão, no extremo da periferia da zona Leste da capital paulista, na noite do sábado, 20, anunciava o nascimento de uma nova paróquia na Arquidiocese de São Paulo: Santa Teresa de Calcutá.

Em meio a cantos e orações, o grupo de fiéis acompanhava o Arcebispo Metropolitano, Cardeal Odilo Pedro Scherer, sacerdotes e ministros. O Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Episcopal Belém, Dom Luiz Carlos Dias, ajudava a bloquear o trânsito na altura do número 30.500 da avenida Sapopemba – a mais extensa do Brasil e a terceira maior do mundo –, para que a procissão passasse. Seguindo Jesus Eucarístico, os fiéis levavam as imagens da padroeira da matriz paroquial e dos padroeiros das outras seis comunidades que a compõem: São José, Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora do Rosário, São Pedro, Imaculada Conceição e Rainha da Paz.

A procissão, que saiu da Escola Estadual Rita Pinto de Araújo, onde Dom Odilo presidiu a missa de instalação da Paróquia, seguiu até a pequena matriz paroquial, a cerca de meio quilômetro de distância. Ao longo do caminho, conforme a procissão adentrava as ruas estreitas do bairro, era visível a emoção dos fiéis e moradores.

Ao chegar à matriz, a imagem de Santa Teresa de Calcutá foi entronizada solenemente, e os fiéis receberam a bênção do Santíssimo Sacramento. Assim, iniciava uma nova etapa na história daquela porção do povo de Deus.

“Cada paróquia é uma comunidade que expressa a presença de Deus e o testemunho do Evangelho na cidade”, afirmou Dom Odilo, na homilia, enfatizando que a principal missão de uma paróquia é cuidar do maior bem da comunidade cristã: “A fé anunciada, celebrada e testemunhada”.  

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Criação

A Paróquia Santa Teresa de Calcutá é a 306ª da Arquidiocese de São Paulo, criada a partir do desmembramento da Paróquia Santíssima Trindade, no Jardim Alto Alegre. O decreto de criação, publicado no último dia 2, estabelece que, além de fazer divisa com a paróquia de origem, o novo território paroquial tem como limites a Paróquia Santo André Apóstolo, no Jardim Santo André, e as Dioceses de São Miguel Paulista e de Santo André.

Durante a missa de instalação da nova paróquia, o Arcebispo deu posse ao seu primeiro Pároco, Padre Elson Paulo Correia Lopes, e ao Vigário Paroquial, Padre Patrick Geraldo McNamara, ambos missionários da Congregação do Espírito Santo (Espiritanos). Essa congregação religiosa retorna ao bairro mais de 20 anos depois de iniciar o trabalho evangelizador naquele lugar.  

Igreja matriz da Paróquia Santa Teresa de Calcutá (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Comunidade viva

Quando os missionários chegaram pela primeira vez àquela região, em meados da década de 1990, encontraram comunidades de fiéis que já se reuniam nas casas para rezar o Terço e meditar a Palavra de Deus. A catequese, encontros de formação e reuniões aconteciam, muitas vezes, em salões emprestados por moradores. Além da ação evangelizadora, as comunidades se mobilizaram no serviço da caridade. Aos poucos, os fiéis conseguiram adquirir terrenos para a construção das capelas dessas comunidades.

Joana Delfina Pinto da Silva, 54, é uma das que ajudaram a escrever essa história. Moradora do bairro há 38 anos, Jô, como é mais conhecida, participava das celebrações e orações nas casas.

Ela relatou ao O SÃO PAULO que, no primeiro salão construído no lugar onde hoje está a matriz, cabiam apenas 25 pessoas. “Depois de muita luta e trabalho, construímos esta igreja”, contou, acrescentando que, enquanto batalhavam pela construção do templo, a comunidade organizava as pastorais e grupos que surgiam a partir das necessidades do povo.

Preparação

As reflexões sobre o desmembramento do território da Paróquia Santíssima Trindade começaram há cerca de dois anos. Desde então, iniciou-se um caminho de estudo e preparação, acompanhado de perto por Dom Luiz Carlos Dias, com o objetivo de identificar se havia condições concretas para a criação de uma nova paróquia.

Em 2020, os missionários foram convidados para retornarem à região, onde começaram o trabalho evangelizador no passado, o primeiro deles, foi o Padre Elson.

Nascido em Cabo Verde, na África, o novo Pároco tem 31 anos e foi ordenado sacerdote em 2016. Desde que chegou à Terceira Divisão, em outubro do ano passado, ele começou a preparar as comunidades para a criação da nova paróquia. Nesse processo, contaram com a ajuda material de outras paróquias da Região Episcopal Belém.

Cardeal Scherer confere bênção eucarística sobre os fiéis da nova paróquia (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Padroeira

Durante o caminho de diálogo entre as comunidades, sacerdotes e bispos, surgiu a proposta de nomear a Paróquia como Santa Teresa de Calcutá, a religiosa albanesa nascida em 1910. Ela dedicou sua vida aos pobres do bairro periférico da cidade de Calcutá, na Índia, onde fundou a Congregação das Missionárias da Caridade, aprovada pela Santa Sé em 1950.

Madre Teresa destacou-se mundialmente pelo serviço da caridade, chegando a receber o Prêmio Nobel da Paz em 1979. Com a saúde debilitada, ela morreu em 5 de setembro de 1997, sendo beatificada por São João Paulo II em 2003 e canonizada pelo Papa Francisco em 2016. 

Os fiéis ficaram felizes com a nova padroeira, principalmente por se identificarem com sua missão. “Santa Teresa de Calcutá foi uma mulher que cuidou dos pobres e, aqui, trabalhamos muito pelos irmãos que mais necessitam. Ela é a nossa nova amiga do céu que nos acompanhará e nos protegerá”, compartilhou a paroquiana Joana.

‘Comunidade à frente da qual está Jesus, o Bom Pastor’ 

A instrução pastoral “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja”, publicada em julho de 2020 pela Congregação para o Clero, com aprovação do Papa Francisco, sublinha que, desde a sua origem, a paróquia se coloca como resposta a uma exigência precisa: “Aproximar do Evangelho o povo por meio do anúncio da fé e da celebração dos sacramentos”.

O Código de Direito Canônico define como paróquia “uma determinada comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular [diocese ou arquidiocese], e seu cuidado é confiado ao pároco, como seu pastor próprio, sob a autoridade do bispo diocesano”. Portanto, a Paróquia não se limita ao templo, que é a matriz ou sede paroquial, mas ao território no qual a Igreja está inserida.

As primeiras comunidades cristãs se formaram nas cidades por onde os apóstolos e seus sucessores passavam e anunciavam o Evangelho. Ali, eram constituídas pequenas comunidades sediadas em casas, conhecidas como “domus ecclesiae” (igreja doméstica). A paróquia acompanhou as transformações da organização da sociedade em cada época, passando por diversas etapas até a realidade de grandes metrópoles, como São Paulo. 

Padre Elson recebe as chaves da igreja, em rito de posse como Pároco da Paróquia Santa Teresa de Calcutá (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Anúncio, santificação e caridade

Ao se dirigir ao povo da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, o Cardeal Scherer ressaltou que a Paróquia possui três grandes missões. A primeira delas é o anúncio da Palavra de Deus, cumprindo o mandato de Jesus Cristo para toda a Igreja.

O Arcebispo explicou que esse anúncio se concretiza de diversas maneiras, a começar pela catequese e formação dos fiéis, especialmente em vista da iniciação à vida cristã, também por meio de encontros, retiros e muitas outras iniciativas. “Que haja uma catequese organizada e que todas as crianças e adolescentes das famílias católicas estejam na catequese”, exortou Dom Odilo.

A segunda missão indicada pelo Cardeal é a santificação do povo. “Somos chamados a ser santos. Pelo Batismo recebemos o dom do Espírito santificador”, afirmou, enfatizando que os cristãos se santificam por meio da vivência das virtudes, das bem-aventuranças, pela prática da oração e, sobretudo, na celebração dos sacramentos, em especial a Eucaristia, que, como ele frisou, “é o centro da vida da paróquia”.

A terceira missão da paróquia é a promoção da caridade, que se dá de muitos modos. “Cada paróquia é uma comunidade pastoral à frente da qual está Jesus, o Bom Pastor. A Igreja é pastora e suas pastorais existem para promover o bem da caridade, da solidariedade, da ajuda recíproca”, sublinhou o Arcebispo, concluindo que a paróquia é o lugar onde a Igreja se manifesta e age na realidade concreta da vida das pessoas.

Vida pastoral

A nova paróquia possui várias pastorais organizadas, como Catequese, Batismo, Liturgia, da Criança, da Juventude, da Pessoa Idosa, entre outras. Em algumas comunidades, já havia o trabalho da Sociedade São Vicente de Paulo (Vicentinos). Recentemente, foi instituída a Pastoral da Dádiva, responsável por organizar todos os serviços caritativos em âmbito paroquial.

“Nosso primeiro esforço é criar nas pessoas a consciência de que somos uma paróquia, que cada comunidade não deve atuar isoladamente, mas em conjunto. Felizmente, o povo tem correspondido a isso”, destacou Padre Elson.

Estima-se que, atualmente, haja cerca de 60 mil habitantes no território da Paróquia. Entre os desafios pastorais, o Pároco sublinhou a necessidade de ir ao encontro das pessoas que estão afastadas da vida eclesial, sobretudo as novas famílias que chegam ao bairro, nas várias ocupações existentes, onde, no futuro, poderão surgir novas comunidades.

Em mutirão, comunidade pinta fachada da nova matriz paroquial (Foto: Paróquia Santa Teresa de Calcutá)

Pandemia

A Paróquia Santa Teresa de Calcutá nasceu em plena pandemia de COVID-19, em uma área marcada pela pobreza, pela falta de infraestrutura pública e bastante atingida pelo desemprego. “Nós temos distribuído mais de 200 cestas básicas por mês, e só não entregamos mais porque não temos. Há muitas pessoas necessitadas da nossa ajuda”, contou o Pároco. 

Entretanto, o Sacerdote afirmou que tais dificuldades não desanimam o povo, que, pelo contrário, tem se dedicado bastante para ser Igreja viva na periferia. “Cremos que, juntos, podemos ser sinal de Cristo neste lugar”, afirmou o Missionário, evocando o lema do sínodo arquidiocesano: “Deus habita esta cidade, somos suas testemunhas”.

Dar amor

Nas últimas semanas, houve uma grande mobilização dos paroquianos para preparar a festa da criação da Paróquia. Em mutirão, os padres e fiéis pintaram a nova matriz paroquial que antes era a capela dedicada a Santo Antônio.

Na fachada da igreja, foi afixada a placa com o nome da nova Paróquia, seguida de uma frase de Santa Teresa de Calcutá, a qual foi escolhida para ser o lema da comunidade paroquial: “A falta de amor é a maior de todas as pobrezas”.

“Nós não queremos ser pobres de amor, e desejamos ir ao encontro de todos os irmãos e irmãs que mais precisam de ajuda material e, principalmente, espiritual”, concluiu Padre Elson.

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