
“Desarmada e desarmante” é uma das expressões mais usadas pelo Papa Leão XIV desde a sua eleição a Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro, em 8 de maio de 2025. Talvez essas palavras nos ajudem a compreender seu primeiro ano de pontificado.
“Desarmada e desarmante” é a paz que precisamos promover hoje – declarou em seu primeiro discurso: a verdadeira paz do Cristo Ressuscitado, “humilde e perseverante”. Essa é a paz “que vem de Deus, que ama a todos incondicionalmente”. Precisamos que nossas palavras sejam “desarmadas e desarmantes”, disse ele a jornalistas e comunicadores. Precisamos de “uma comunicação capaz de ouvir, de dar voz aos mais vulneráveis que não têm voz”.
“Desarmada e desarmante” é o modelo de educação de que o mundo precisa, disse ele a estudantes durante o Jubileu do mundo da Educação. “Não basta, de fato, silenciar as armas: é preciso desarmar os corações, renunciando a toda violência e vulgaridade. Dessa forma, uma educação desarmante e desarmada promove a igualdade e o crescimento para todos, reconhecendo a igual dignidade de cada menino e menina, sem nunca dividir os jovens entre os poucos privilegiados que têm acesso a escolas caríssimas e os muitos que não têm acesso à educação.”
Talvez a própria eleição do Papa Leão XIV tenha sido um pouco “desarmada e desarmante”: por um lado, surpreendeu grande parte daqueles que aguardavam notícias bombásticas sobre o então cardeal norte-americano Robert Francis Prevost, eleito 267° Pontífice, após o aclamado Papa Francisco. Por outro, mesmo com seu estilo discreto, silencioso, com os ouvidos atentos e um sorriso contido, e de certa forma “desarmado”, Leão XIV continua a “desarmar” nossas expectativas. Ele se revela a cada dia, em cada encontro, cada palavra e cada gesto do seu cotidiano.
EIXOS DO PONTIFICADO


Paz, unidade, sinodalidade e vida interior talvez sejam os quatro eixos do seu pontificado até aqui. A paz, que começa nos corações, diz ele, não é só a “ausência de guerra” – como ensina a Doutrina Social da Igreja.
“A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus tenha se feito criança. O mistério da Encarnação, que atinge seu ponto mais extremo de humilhação na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e se manifesta na manjedoura de Belém. ‘Paz na terra’, cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, a partir do qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando Dele (cf. Lc 2,13- 14)”, refletiu, na mensagem para o Dia Mundial da Paz.
A unidade é algo a ser almejado e construído. “Na unidade da fé, proclamada desde os primórdios da Igreja, os cristãos são chamados a caminhar em concórdia, guardando e transmitindo com amor e alegria o dom recebido”, afirmou na mensagem por ocasião dos 1.700 anos do Concílio de Niceia.
A sinodalidade, por sua vez, é o caminho a ser percorrido juntos – que não tem só um método possível, mas é um estilo de ser Igreja. “O dom de saber ouvir é algo que, creio, todos reconhecemos, mas que muitas vezes se perdeu em certos setores da Igreja”, disse ele, em encontro com membros do Sínodo. “Precisamos continuar a descobrir o quanto ele é valioso, começando por ouvir a Palavra de Deus, uns aos outros e a sabedoria que encontramos em homens e mulheres, nos membros da Igreja e, também, naqueles que buscam a verdade, mesmo que ainda não sejam – ou talvez nunca venham a ser – membros da Igreja.”
A vida interior é algo a ser cultivado a cada dia, na prática cotidiana, em cada atividade colocada na presença de Deus, mas também no silêncio e na oração. “Se, de fato, é importante que vivamos nossa fé na concretude da ação e na fidelidade aos nossos deveres, de acordo com o estado e a vocação de cada um, é, no entanto, igualmente fundamental que o façamos partindo da meditação da Palavra de Deus e da atenção ao que o Espírito Santo sugere ao nosso coração, reservando, para esse fim, momentos de silêncio, momentos de oração, momentos em que, silenciando ruídos e distrações, nos recolhemos diante Dele e nos unimos em nós mesmos”, afirmou, em uma celebração na Catedral de Albano, nos arredores de Roma.
TESTEMUNHO E PROFECIA


Leão XIV dá todos os sinais de ser um papa atento aos problemas do mundo. Missionário agostiniano e experiente em vida pastoral, especialmente nos seus anos de padre e bispo no Peru, está em sintonia com o sofrimento daqueles que vivem em situações difíceis.
Sua escolha pelo nome Leão, como muitos observaram e como ele mesmo confirmou em seu primeiro encontro com os cardeais após o conclave, é uma referência direta ao Papa Leão XIII, autor da importante encíclica social Rerum Novarum, e ao papel profético da Igreja, de anunciar e testemunhar o Evangelho diante das crises do mundo.
“Em nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro de sua doutrina social em resposta a uma nova revolução industrial e aos avanços no campo da inteligência artificial, que colocam novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, disse ele na primeira reunião com os cardeais, após sua eleição.
Ao que tudo indica, sua primeira encíclica, a ser publicada em breve, abrirá a estrada para esses e outros ensinamentos desarmantes, que, com os corações desarmados, estamos por descobrir.
Pontífice quis ‘se apresentar’ ao mundo em sua primeira entrevista, diz autora de biografia

O que era para ser apenas uma biografia em espanhol de um Papa recém-eleito tornou-se a primeira oportunidade de Leão XIV se apresentar ao mundo por meio de uma entrevista.
A jornalista Elise Ann Allen, que já conhecia o Cardeal Robert Francis Prevost, foi quem conseguiu recolher dois longos depoimentos do primeiro Pontífice nascido nos Estados Unidos poucas semanas após sua eleição papal. Além de falar com o próprio Papa Leão XIV, ela viajou ao Peru e conversou com pessoas que conviveram com ele em seus tempos de “Padre Robert”. O resultado está no livro “Leão XIV – Cidadão do Mundo, Missionário do Século XXI”, recém-publicado no Brasil pela Paulus Editora. A versão original foi escrita em espanhol e lançada em setembro de 2025 pela Penguin Books. “A ideia era mostrar quem ele é, por meio de suas próprias impressões, mas também por quem estava perto dele”, explicou Elise.
Na apresentação do livro em 24 de abril, em Roma, ela dialogou com dois outros palestrantes, o Frei Giuseppe Pagano, OSA, que conhecia seu coirmão agostiniano desde 1983, e a teóloga argentina Emilce Cuda, secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina.
Emilce Cuda comentou como, em bora o Papa Leão XIV tenha tido grandes experiências como padre norte-americano missionário na América Latina, viveu uma realidade bastante diferente daquela do Papa Francisco – argentino de Buenos Aires. “Ele atravessou uma situação muito difícil, tempos de violência e pobreza em uma região rural do Peru”, observou ela, que trabalhou com ambos os papas. “Ele é uma pessoa que ouve muito, sim, mas, no momento certo, lhe dá uma resposta. Não basta só ouvir, mas também responder e argumentar bem.”
Já o Frei Giuseppe refletiu sobre o espírito missionário de Leão XIV. “Santo Agostinho nos ensina que não devemos ter grandes ambições, mas confiar na vontade de Deus: se a Igreja lhe pedir um serviço, faça-o. Prevost viveu profundamente esse aspecto”, disse. “Viveu sua vida em simplicidade, mesmo quando era padre-geral [superior da Ordem dos Agostinianos], ele era um de nós”, completou. “Agora, se vê que ele não sente o peso da responsabilidade, faz tudo com naturalidade. Isso é uma graça particular, fortemente missionária.”




