‘Ele caiu em si mesmo’

‘Ele caiu em si mesmo’, Jornal O São Paulo

Depois de ter levado uma “vida desenfreada” em um “lugar distante”, desejando sem sucesso se saciar com o alimento de porcos, o filho pródigo finalmente retornou a casa (cf. Lc 15). Segundo Jesus, essa decisão foi possível apenas quando ele “caiu em si” (Lc 15,17). 

A conversão a Deus e a santificação cotidiana somente acontecem quando nos confrontamos com quem realmente somos. Não se trata de ser autocentrados e fechados ao exterior, mas de olhar com serenidade a nossa alma, nossa vida, identidade, história, pecados, fracassos, defeitos e qualidades. Precisamos “cair em nós mesmos”: eliminar os personagens que inventamos; abrir mão dos planos que não correspondem aos de Deus; vencer o orgulho ferido; e ver que longe do Senhor não temos salvação. Confrontar-se com a verdade sobre si é um passo necessário para poder falar de verdade com Deus e dizer sinceramente: “Pai”. 

Esse “cair em si mesmo” tem algo de difícil e mesmo humilhante. Todavia, é o único modo de se chegar à paz e à alegria de filhos de Deus. Ao contemplar sem máscaras nossa insuficiência, devemos chorar de gratidão, não de desespero! Trata-se de chorar não simplesmente porque nossos pecados nos envergonham ou porque tememos perder o paraíso e receber o inferno. Os filhos de Deus se arrependem principalmente porque reconhecem sua dignidade: sabem de Quem vieram, para Quem irão! 

Não somos escravos, que obedecem ao Senhor apenas por serem obrigados; não somos mercenários, que trabalham e combatem somente em função da recompensa; não somos egoístas, que querem ser bons como quem se admira num espelho. Somos filhos! Não à toa, a primeira coisa que o filho pródigo pensou em dizer ao retornar foi “Pai…”. Sem confiança e gratidão de filhos, como é difícil se arrepender sinceramente! 

Talvez na primeira conversão (ou mesmo hoje), como o filho da parábola, estávamos “ainda distantes”, quando o Senhor veio e manifestou o seu amor e a sua escolha. É chegada, porém, a hora de “cairmos em nós mesmos”, mais profundamente reconhecendo que o Senhor habita em nossa alma em graça! Se queremos realmente viver com Ele, é preciso parar de pensar só no material, no “urgente”, no sensível, e nos comprometer a entrar no “quarto interior”, explorando o mundo riquíssimo que é a presença de Deus em nós. 

Este foi o caminho de Santo Agostinho. Após uma vida de pecado e confusão, finalmente se converteu quando entrou em seu íntimo e buscou o Senhor pela oração. Escreveria mais tarde: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. E fora te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não estava contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas, as quais não existiriam se não existissem em ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira” (“Confissões”). Que Nosso Senhor nos faça “cair em nós mesmos”! 

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