‘O jornalismo precisa recuperar a ambição da busca da verdade factual’

Afirmou o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco, terceiro entrevistado na série do O SÃO PAULO e da rádio 9 de Julho sobre o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais

Carlos Alberto Di Franco (arquivo pessoal)

Neste 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais, comemorado no domingo, 16, o Papa Francisco parte das palavras de Jesus “Vem e verás” (Jo 1, 46) para convidar, sobretudo os comunicadores, a “comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são”.

Para comentar esse tema, o terceiro entrevistado série do O SÃO PAULO e da rádio 9 de Julho é o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco.

Bacharel em Direito, especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, na Espanha, Di Franco é diretor do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia (ISE), professor convidado da Facultà di Comunicazione Sociale Istituzionale, em Roma, na Itália, e professor do Curso de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado. Ele também é consultor em diversas empresas de comunicação.

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Igreja e comunicação

Logo no início da conversa, Di Franco ressaltou que, ao dedicar um dia para as comunicações sociais, a Igreja confirma algo que faz parte de sua essência desde a sua fundação: a comunicação. 

“Cristo foi o grande comunicador, o maior que a humanidade já conhecer. Comunicava de uma maneira simples, por meio das parábolas que, ao mesmo tempo, eram uma escola de profundidade, de virtudes, que abriam um caminho impressionante para todas as pessoas que se aproximaram de seus ensinamentos. A Igreja, portanto, segue os passos de seu mestre, ao realizar a missão de comunicar o Evangelho a todos os povos”, afirmou.

Tema oportuno

O jornalista sublinhou que escolhido pelo Papa para este ano é muito oportuno, pois, diante da crise enfrentada pelo setor da comunicação, especialmente do jornalismo, com o advento das novas mídias.

“De alguma maneira, o jornalismo foi perdendo a capacidade de olhar o mundo real. Essa é a essência do jornalismo. Se nós ficamos fechados entre as quatro paredes da redação, estamos pensando a respeito dos fatos, mas sem olhá-los, pensamos a respeito das pessoas, mas sem olhar seus rostos, os dramas, problemas e também as coisas positivas, nós já estamos deixando de fazer jornalismo”.

Di Franco acrescentou que, ao lançar esse desafio, o Santo Padre resgata de uma forma muito viva e intensa o papel do jornalismo de qualidade que é precisamente isso, ir ao encontro dos fatos.

Crise da verdade

Refletindo sobre a atual crise em relação à verdade, o professor enfatizou que o jornalismo consiste na “busca da verdade possível”. “O jornalismo não é metafísica, é uma busca, muitas vezes difícil escorregadia, pois, a captação da verdade exige um empenho e esforço muito grande. Mas tem que haver esse esforço. Deve haver, da parte do jornalista, o propósito, em primeiro lugar, de entender que a verdade é possível de ser alcançada. Segundo, é um dever alcança-la. E, terceiro, simplesmente reproduzir versões a respeito da verdade não é fazer bom jornalismo” afirmou.

Nesse sentido, Di Franco continuou lembrando que os manuais de redação ressaltam que o jornalista deve sempre ouvir os dois lados de envolvidos em um fato. No entanto, ele ponderou: “Ouvir o outro lado renunciando a busca da verdade pode simplesmente transmitir versões equivocadas”.

“O jornalismo precisa recuperar a ambição da busca da verdade factual. Para isso, é preciso sair às ruas, ouvir as pessoas, ver os fatos e transmiti-los com a maior isenção possível aquilo que captamos na nossa observação sobre os fatos.

Conhecer a realidade

Com experiência de décadas no jornalismo opinativo, Carlos Alberto Di Franco salientou que ir ao encontro da realidade não é uma exigência reservada apenas aos repórteres. “O jornalismo opinativo verdadeiro também demanda a busca do fato. Só posso opinar após conhecer a realidade. Eu ofereço a minha visão e interpretação do fato, mas sempre a partir da realidade”, disse.

O professor narrou, como exemplo, a sua experiência quando se posicionou contra à descriminalização das drogas. “Eu me interessei por esse tema e pela vida dos dependentes, visitei comunidades terapêuticas, conversei com vários adictos. Quando encontramos não o discurso acadêmico, abstrato, mas com pessoas reais, que nos relatam o que significa passar 24 horas pensando em consumir drogas, a destruição de suas famílias, do seu presente e quase do futuro se não tivessem encontrado um caminho de recuperação. Quando vemos esse drama tão terrível, formamos um olhar, uma interpretação dos fatos muito mais sólida do que quando olhamos à distância”, afirmou.

Di Franco é jornalista, professor e consultor de comunicação (arquivo pessoal)

Desafios

Em relação ao alerta feito pelo Papa ao risco da perda de qualidade dos noticiários, dos “jornais de fotocópia” e veículos que veiculam informações “pré-fabricadas”, Di Franco considera que esse fenômeno é causado, em grande parte, pela atual crise do setor de comunicação.

“Não tenho a menor dúvida que há uma crise indiscutível no modelo de negócio. Evaporou-se a publicidade das empresas de comunicação, e não voltará ao nível que conhecemos no passado. O mundo digital passou a ser um concorrente anônimo, pois não se está concorrendo um veículo, mas um cenário que torna as coisas muito mais difíceis. Isso produziu o enxugamento das redações […]. Como se apresenta um produto de qualidade com menos pessoas, enquanto são demitidos exatamente os melhores profissionais porque são os mais caros”, observou o professor.

Embora, aparentemente, não se veja saída para essa atual crise, Di Franco sugere que seja levada em conta qualidade do da redação ao decidir sobre o corte de pessoal. Outro aspecto que ele apontou como caminho de solução é compreender que não é mais possível investir no jornalismo generalista do passado, mas, cada vez mais especializado. “Temos que ser seletivos, devemos escolher alguns aspectos e temáticas no universo jornalístico e cobrir esses temas extraordinariamente bem. É melhor não dar tudo e dar menos coisas com muito mais qualidade e profundidade. Não vejo outra saída para o jornalismo moderno que não seja essa: seleção e profundidade, ao contrário de quantidade e superficialidade”, frisou.

Comunicadores cristãos

Carlos Alberto Di Franco enfatizou como os valores e a identidade cristã podem contribuir para um bom exercício profissional da comunicação. “Se nossas convicções são verdadeiras e sinceras, necessariamente, transcendem, aparecem, ainda que não se esteja fazendo declarações de fé todos os dias. Aparecem no modo de viver, de atuar, de ver os fatos, na maneira com que se preocupa com a correção do trabalho realizado”, afirmou o jornalista, enfatizando que essa dimensão deve se fazer presente em todos os campos da atividade humana.

“O Dia Mundial das Comunicações Sociais é um momento oportuno para fazermos uma autocrítica, uma reflexão pessoal para confirmar as nossas posições ou melhorar aqueles aspectos que percebemos que precisam ser melhorados”, completou.

Alma de ‘foca’

Por fim, dirigindo-se àqueles que dão os primeiros passos no jornalismo, o jornalista e professor aconselhou que jamais deixarem que a alma de “foca” envelheça, referindo-se à expressão usada nas redações para designar o jornalista recém-formado em início de carreira.

“Mantenha sempre o entusiasmo, acredite no papel importantíssimo da comunicação, crer que uma matéria bem feita pode salvar uma vida, pode iluminar cena, encaminhar soluções. Pelo contrário, uma matéria feita sem ética, sem consciência profissional, pode produzir estragos impressionantes na vida das pessoas e da própria sociedade”, concluiu.

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