Associação Okinawa Kenjin do Brasil completa 100 anos e tem momento de oração e bênção conduzido por Dom Julio Endi Akamine, primeiro bispo brasileiro de origem japonesa

“No Brasil, há uma árvore com frutos de ouro; basta estender a mão e colher”. A frase, impressa em folhetos espalhados pelas ruas do Japão no fim do século XIX, soava como o aceno irresistível de um futuro promissor. Em Okinawa, arquipélago que sofria com a pobreza extrema, o anúncio da terra prometida tornou-se um convite inevitável para atravessar o oceano.
A distribuição do panfleto era parte de uma dupla necessidade geopolítica: o Japão precisava aliviar o excesso populacional e as tensões sociais em suas províncias; já o Brasil necessitava de braços para as lavouras de café em São Paulo e no Norte do Paraná.
Foi assim que se moveram as engrenagens da história. Em 18 de junho de 1908, após 52 dias de viagem desde o porto de Kobe, o navio Kasato Maru atracava em Santos (SP), trazendo os primeiros 781 imigrantes. Nos porões daquela e de tantas outras embarcações que viriam nas décadas seguintes, viajaram homens e mulheres movidos pelo desespero da fome, mas sustentados pela esperança.
O JAPÃO EM CADA UM: RESILIÊNCIA E HONRA

Ao desembarcarem no Brasil, a promessa dos “frutos de ouro” rapidamente perdeu o brilho. Os imigrantes enfrentaram o abismo da língua, a estranheza da culinária local, o peso dos instrumentos agrícolas e o calor sufocante do clima tropical. Contudo, em meio ao desalento da adaptação, em muitos ecoava um discurso feito pelo deputado japonês Gonta Doi antes do embarque: “Vocês estão indo para outro país e não devem esquecer que cada um representa o Japão. É necessário que todos se encarreguem de não manchar a honra japonesa”.
Foi esse compromisso moral que forjou a resiliência e a busca por superação. O plano inicial de uma estadia temporária, restrita ao tempo de enriquecer e retornar à terra natal, desfez-se ao longo dos anos e com o advento da 2ª Guerra Mundial. Os imigrantes organizaram-se em comunidades, adquiriram terras para o trabalho cooperativo e priorizaram a educação, criando mais de 400 escolas dedicadas à formação das novas gerações.
UM BISPO COM RAÍZES NA IMIGRAÇÃO JAPONESA

A narração da imigração japonesa ganhou ecos familiares durante o rito de bênção que marcou a celebração do centenário da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, na sede da instituição, no bairro da Liberdade, em São Paulo, no sábado, dia 1º.
A voz que narrou a história com riqueza de de-talhes carrega no próprio sangue a memória viva dessa travessia. Dom Julio Endi Akamine, SAC, que conduziu o rito de bênção do centenário, é descendente de okinawanos e traz em suas raízes a dor e a grandeza dessa história.
Sentada na primeira fileira da cerimônia, a mãe do atual Arcebispo de Belém (PA) escutava o resgate da própria história com um sorriso que não escondia a emoção. Dom Julio compartilhou o testemunho da avó materna, que aos 16 anos ouvira dizer que nas estradas brasileiras encontravam-se pepitas de ouro. Para fugir da miséria, a jovem falsificou seus documentos e uniu-se a uma “família arranjada”. A prática de compor núcleos familiares fictícios era comum na época para preencher as exigências do acordo imigratório, que priorizava a vinda de famílias completas.
“Eu sou o primeiro bispo católico do Brasil de origem japonesa e posso dizer que represento uma contribuição da comunidade japonesa para a Igreja Católica”, analisa Dom Julio.
UM TESOURO IMATERIAL


Se a dura realidade do trabalho no campo empoeirou o sonho dourado dos imigrantes japoneses, a vivência no Brasil reservava um tesouro imaterial. “Meus avós partiram da terra natal sonhando com a árvore dos frutos de ouro, mas descobriram aqui, nas terras de Santa Cruz, outra árvore que produz um fruto imensamente mais precioso”, narra Dom Julio, ao descrever como a fé católica germinou nos ramos de sua família, até então praticante das tradições religiosas nativas de Okinawa.
“Quando o navio em que eles viajavam cruzou a linha do Equador, perderam de vista para sempre a Estrela Polar e viram, pela primeira vez, o Cruzeiro do Sul. Nas estrelas, estava o sinal que anunciava a verdadeira riqueza que encontrariam”, figura o Bispo, cujas lembranças mais vivas e felizes de infância remetem às missas dominicais em família.
Já o aprendizado da oração veio na catequese da cruz: “Aprendi a rezar a Ave-Maria e o Pai-Nosso com meu avô, nas inúmeras internações que vivi no Hospital Santa Marcelina. Ele recitava com dificuldade, mas não sem devoção. Essas orações me proporcionaram a primeira experiência da Paixão de Cristo e de como Ele se faz presente na hora do sofrimento”, recorda Dom Julio.
UMA ASSOCIAÇÃO CENTENÁRIA

Na transição do campo para as cidades, o bairro da Liberdade, na capital paulista, tornou-se o epicentro da vida urbana japonesa. Foi ali que, em 22 de agosto de 1926, imigrantes e descendentes fundaram a Associação Okinawa Kenjin do Brasil, impulsionados por valores ancestrais como o Yuimaaru (a ajuda mútua) e o Ichariba Chōdē (“uma vez que nos encontramos, somos irmãos”).
Em 2026, a Associação celebra o centenário de uma jornada de preservação cultural e acolhimento. Para marcar a data, a sede da entidade passou por um amplo processo de revitalização, culminando na entrega de dois novos marcos: o Museu da Imigração Okinawana e o Centro de Estudos.
O Museu reúne um acervo precioso de fotografias, documentos, vestimentas, ferramentas de trabalho e instrumentos musicais como o sanshin, eternizando a memória dos pioneiros. Já o Centro de Estudos consolida-se como um acervo vivo para pesquisadores que buscam compreender a diáspora okinawana.
“Um povo que conhece, respeita e preserva sua história nunca perde sua identidade. Nas memórias dos que vieram antes de nós, encontramos a força para construir o futuro”, sintetiza Regina Yamada, diretora da Associação, coordenadora e curadora do Museu.
A Associação também mantém a herança de Okinawa oferecendo aulas de idioma, taiko, eisa, karate, dança e arte bingata, conectando gerações passadas e futuras por meio da arte e do sentimento comunitário.
“Essa sede é a matriz de uma rede que soma 38 subsedes no Brasil todo. A Associação está de portas abertas para receber tanto a comunidade okinawana quanto qualquer pessoa que deseje conhecer e vivenciar nossa cultura”, assegura Rui Kojo Chibana, presidente da Associação.
Ao abençoar o espaço e o trabalho centenário da instituição, Dom Julio ressaltou: “Acho que a integração cultural entre Brasil e Japão é um caso de sucesso que deveria servir de exemplo para o mundo, no qual, infelizmente, ainda vemos tantos conflitos por razões de etnia, nacionalidade e raça”.
A sede da Associação Okinawa Kenjin do Brasil fica na Rua Dr. Tomaz de Lima, 72, na Liberdade. O Museu da Imigração Okinawana e o Centro de Estudos funcionam às segundas, quartas e sextas-feiras, das 13h às 17h. Até setembto, a entrada para o Museu será gratuita. Visitas guiadas devem ser agendadas pelo telefone (11) 99633-6791.




