
Na terça-feira, 12, o Cardeal Odilo Pedro Scherer esteve na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo, para proferir a conferência “A Agenda de Paz do Papa Leão XIV em meio a um mundo em guerra”. A atividade integrou a programação da semana de estudos e palestras promovida pelos diversos cursos da faculdade e reuniu, majoritariamente, estudantes de Relações Internacionais, além de alunos de outras áreas interessados no tema.
Ao iniciar sua exposição, o Arcebispo de São Paulo contextualizou historicamente a presença diplomática da Santa Sé no cenário internacional, recordando os 200 anos de relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, celebrados em 2026. O Cardeal destacou que a atuação diplomática da Igreja Católica possui características próprias, voltadas sobretudo à promoção da dignidade humana, da libe liberdade religiosa e da mediação de conflitos.
“A Santa Sé é, certamente, um dos países que tem o maior número de representações diplomáticas em outros países”, afirmou, explicando que as nunciaturas apostólicas exercem importante papel de diálogo e aproximação entre as nações, especialmente em contextos de guerra e tensão internacional.
VOZ DA IGREJA
Dom Odilo ressaltou que a preocupação do Papa Leão XIV com a paz não constitui uma posição isolada, mas está profundamente enraizada na Tradição e na Doutrina Social da Igreja. Segundo o Cardeal, “o Papa é voz da Igreja” e sua atuação em favor da paz dá continuidade a um ensinamento permanente do Cristianismo.
Nesse contexto, o Arcebispo dedicou parte de sua fala à reflexão sobre documentos históricos do magistério da Igreja relacionados à promoção da paz. Entre eles, destacou a encíclica Pacem in Terris, publicada em 1963 por São João XXIII, em meio às tensões da Guerra Fria. Dom Odilo recordou que o documento permanece atual ao defender que a paz verdadeira deve estar fundada na justiça, na dignidade humana e no respeito aos direitos fundamentais.
O Cardeal também mencionou amplamente a constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II especialmente o capítulo dedicado à promoção da paz e da unidade entre os povos. “A paz não se limita à mera ausência de guerra”, recordou o Cardeal ao citar o texto conciliar. “A paz é obra da justiça”, acrescentou, retomando uma expressão bíblica presente no profeta Isaías e frequentemente utilizada pela Doutrina Social da Igreja.
Ao comentar a Gaudium et Spes, Dom Odilo destacou ainda que o Concílio insiste na responsabilidade comum das nações e dos povos na construção de uma ordem internacional mais justa, baseada na cooperação, no diálogo e na superação das desigualdades sociais e econômicas. Também chamou a atenção para a condenação explícita, no documento, da guerra total e da corrida armamentista.
DESARMADA E DESARMANTE

Durante a conferência, o Cardeal comentou amplamente a mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz, celebrado em 1º de janeiro, cujo tema foi “Rumo a uma paz desarmada e desarmante”. Citando trechos do texto pontifício, explicou que o Santo Padre alerta para o crescimento de uma “cultura da ameaça e do medo”, marcada pela corrida armamentista e pela crença de que a segurança depende exclusivamente do poder bélico.
“O Papa lamenta que atualmente esteja sendo difundida sutilmente no mundo certa cultura da ameaça e do medo”, afirmou o Cardeal, acrescentando que, segundo Leão XIV, “é preciso continuar a acreditar na paz, mesmo onde ela está ameaçada ou foi seriamente ferida”.
Ao refletir sobre os conflitos internacionais atuais, Dom Odilo chamou a atenção para os riscos de uma escalada militar global e para o enfraquecimento dos organismos internacionais de mediação. Também reiterou a condenação da guerra total e do uso indiscriminado da violência contra populações civis: “Pretender justificar a guerra, a violência, a destruição e a matança dos outros com o santo nome de Deus é manipulação da religião e profundo desrespeito a Deus”.
MUDANÇA CULTURAL
O Cardeal observou ainda que a construção da paz exige não apenas acordos diplomáticos, mas uma mudança cultural e ética. “A paz não é só ausência de guerra”, explicou, enfatizando que a educação para a paz começa nas relações cotidianas, no respeito às pessoas e na superação das pequenas formas de violência presentes na convivência social.
Na parte final do encontro, Dom Odilo respondeu a perguntas dos estudantes e comentou aspectos da trajetória pessoal e pastoral do Papa Leão XIV, destacando a experiência missionária no Peru, sua formação acadêmica e sua preocupação com os desafios contemporâneos, especialmente os impactos sociais e éticos da revolução tecnológica e da Inteligência Artificial.
Ao concluir, o Cardeal reforçou que a missão da Igreja permanece ligada à promoção do diálogo, da fraternidade e da reconciliação entre os povos. “A busca da paz requer outros modos. Não pode haver paz sem justiça, sem respeito à dignidade das pessoas e sem confiança na força do diálogo”, concluiu.




