Grupos extremistas ameaçam a liberdade religiosa na África

Padre caminha em frente à Igreja destruída pelo grupo extremista Boko Haram na Nigéria (Foto ACN)

Entre os dados apresentados pelo Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo-2021, publicado pela Fundação Pontifícia Ajuda à igreja que Sofre (ACN) no dia 20, chamam a atenção o crescimento do extremismo islâmico na África, que tem ameaçado a diversidade religiosa desse continente constituído de grupos étnicos, religiosos e linguísticos.

A editora-chefe do Relatório, Marcela Szymanski, ressalta que o continente africano está a ponto de se converter em um “califado transcontinental”, pois os extremistas “avançam como uma praga de gafanhotos” desde o oeste, em Burkina Faso, até o Oeste, em Moçambique, avançando pelo  

“Ali, encontram-se os jihadistas que usam desde facões até as armas mais sofisticadas, recrutando militantes com recursos materiais e ocupando territórios. Em Moçambique, esses grupos já dominam dois portos e assim continuam até as Filipinas, matando e se estabelecendo nesses lugares. É toda uma faixa ao redor do mundo onde a diversidade religiosa já desapareceu”, alertou Szymanski.

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Eliminação da diversidade

O Relatório aponta que, em muitos países da África Oriental e Ocidental, “os ataques de grupos armados são frequentemente arbitrários, orientados para o lucro, enraizados em ciclos de violência intercomunitária e indiferentes à identidade religiosa das suas vítimas, atacando tanto muçulmanos como cristãos”.

“Todos os cometem violações contra a liberdade religiosa visam eliminar a diversidade religiosa do seu território e, para isso, usam de movo diferente o seu poder sobre os habitantes”, enfatizou a editora-chefe.

Ela destacou que os lugares representados no mapa pela cor vermelha significa desde pessoas que são expulsas de suas casas por grupos armados até serem agrupadas como gado e colocadas em um campo de concentração com pretexto de fazê-las esquecerem e sua fé.

Mapa mostra intensidade das violações da liberdade religiosa na África Ocidental e Oriental (Relatório de Liberdade Religiosa 2021 – ACN)

Boko Haram

Um desses grupos é o Boko Haram, que realizou ataques principalmente em torno do Lago Chade, que faz fronteira com a Nigéria, o Chade, o Níger e os Camarões. “O grupo terrorista foi responsável por atrocidades cometidas contra as forças de segurança e civis, incluindo assassinatos, sequestros, roubos e o incêndio de aldeias inteiras”, destaca o documento da ACN.

O Boko Haram também expandiu as suas atividades no norte dos Camarões, em um episódio mataram 18 civis e feriram 11 que se abrigavam em um campo de deslocados na região do Extremo Norte. “No Níger, os terroristas visaram os Cristãos, forçando-os a abandonar a área ou a enfrentar a morte. Alguns países da região do Lago Chade enviaram uma Força Multinacional Conjunta para combater o Boko Haram, mas a organização terrorista tem-se revelado resistente”, acrescenta o Relatório.

Estado Islâmico

Outros importantes grupos extremistas armados que atuam nesta região são filiados do grupo islâmico transnacional, Estado Islâmico (EI) e do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM, sigla em árabe), uma coligação de entidades extremistas islamistas individuais, incluindo a transnacional Al-Qaeda, conhecida localmente como Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQIM).

No Mali e no Níger, os militantes do EI atuam sob o título de Estado Islâmico no Grande Saara (ISGS). Tanto os grupos da JNIM como do ISGS, empenhados em derrubar o Estado e em implementar a lei islâmica, realizam emboscadas e ataques contra soldados e civis, e até mesmo contra as forças de manutenção da paz no caso do Mali.

Em Burkina Faso, comunidades são isoladas pelos grupos terroristas (foto: ACN)

Recentemente, o EI se estabeleceu na República Democrática do Congo, reivindicando o seu primeiro ataque em Beni em 2019, onde declarou que o país era o Estado Islâmico da Província da África Central (ISCAP). Grupos armados islâmicos locais também se comprometeram a fazer uma aliança com o EI no norte de Moçambique. Como indica o relatório de Moçambique, nos últimos anos tem-se assistido a um aumento dos ataques nesta área desde o surgimento das milícias locais no final de 2017.

Al-Shabaab

Na região conhecida como Chifre da África – que inclui Somália, Etiópia, Eritreia e Djibouti –, o grupo Al-Shabaab aterrorizou a população na Somália, matando civis e soldados, e atacando edifícios e hotéis do Governo. Militantes também apreenderam cristãos acusados de proselitismo e sequestraram crianças para resgate ou recrutamento como crianças-soldados.

“A falta de liberdade religiosa no país forçou os Cristãos a prestar culto em segredo por temerem, se fossem identificados, serem sequestrados ou mortos. O Al-Shabaab também realizou ataques terroristas na fronteira entre o Quênia e a Somália, procurando identificar e matar não muçulmanos”, observa o Relatório.

Grupos menores

Refugiados de Cabo Delgado são acolhidos pela Diocese de Pemba (Foto: ACN)

Além desses grupos jihadistas mencionados, as autoridades do Mali, do Níger, da República Democrática do Congo e de Moçambique relataram a presença de grupos armados locais de menor dimensão. “Estes militantes têm frequentemente ligações com grupos criminosos e a motivação é tanto os lucros gerados pela exploração ilegal de recursos como o extremismo islamista”.

“Em Moçambique, a insurreição local Ahlu-Sunnah Wa-Jama (ASWJ), no norte da província de Cabo Delgado, ameaça investimentos internacionais de bilhões de dólares em projetos de gás natural. A ASWJ prometeu fidelidade ao EI em 2019, declarando a sua intenção de estabelecer um ‘califado’ no país”.

Norte da África e Oriente Médio

O Relatório também fez um recorte de análise da região do norte da África, Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão, onde o Estado Islâmico se encontra “adormecido”, aterrorizando apenas esporadicamente muçulmanos e não muçulmanos.

“A brutalidade do EI, exibida de forma profissional nas redes sociais, e de outros grupos extremistas resultou em uma profunda autocrítica no seio da comunidade muçulmana”, observa o Relatório, mencionando, por exemplo, o apelo do presidente do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, para “uma verdadeira reforma do Islã”.

“Infelizmente, os discursos reformistas de líderes como Sisi estão manchados com o seu próprio histórico sombrio em termos de direitos humanos. A abordagem de cima para baixo também limita estes esforços porque são vistos como politicamente motivados e, como tal, carecem de credibilidade entre os adeptos do Islamismo político”, enfatiza o documento da ACN.

Papel da Igreja Católica

O Relatório da ACN mostra que, durante o período de análise, em vários países, a Igreja Católica tem desempenhado um importante papel diplomático e pastoral na esfera política. “Os bispos têm intervindo publicamente, fazendo declarações aos meios de comunicação social ou ao Governo relativamente a processos eleitorais, criticando publicamente a corrupção e denunciando a violência por parte das forças de segurança, manifestantes e grupos extremistas armados.

Conclusão do retiro promovido pelo Papa com líderes do Sudão do Sul (foto: Vatican Media)

Outra frente de atuação da Igreja é no apoio e mediação nas conversações de paz. No caso da guerra civil no Sudão do Sul, de 2013 a 2020, o Conselho Sudanês de Igrejas apelou consistentemente ao perdão e reconciliação ao longo de todo o processo, servindo, ao mesmo tempo, como centro de coordenação dos eventos de construção da paz. A comunidade católica de Santo Egídio mediou acordos de cessar-fogo bem-sucedidos em duas ocasiões.

Em abril de 2019, o Papa Francisco convidou os líderes em conflito do Sudão do Sul para um retiro de dois dias na sua residência, no Vaicano. “O encontro, que fez manchetes globais com uma fotografia do Papa ajoelhado para beijar os pés do presidente Kiir, deu um grande impulso ao reinício e à conclusão bem-sucedida do processo de paz”, destaca o Relatório.

No Burundi, por exemplo, a Igreja Católica convidou e acolheu 47 líderes religiosos de diferentes confissões para um encontro voltado para a resolução de conflitos e na coexistência pacífica. “Além disso, como exemplo de coexistência pacífica, apesar da presença perturbadora de jihadistas no Quênia, os líderes católicos recolheram donativos para muçulmanos durante a época de Natal e os líderes muçulmanos fizeram o mesmo para os cristãos durante as suas celebrações religiosas, como o Eid”, acrescenta o documento da ACN.

(Com informações de ACN-Brasil)

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